sexta-feira, 25 de maio de 2018

Gosto de pessoas que lêem livros, mas não simpatizo com pessoas que só conhecem a vida através de livros

E o que quero dizer eu com isto do título? Simples, pelo menos para mim. 

As pessoas que só conhecem a vida através de livros, que só a conhecem através de personagens que saem para o exterior directamente da imaginação do escritor, são sempre aquelas a não acreditar em histórias de gente real que vive vidas também elas reais. Acham sempre que por ali se acrescentou um ponto, ou mesmo dois. Acham sempre difícil que aquilo, um aquilo a borbulhar de acontecimentos, só pode ser exagero. E se calhar é exagero para quem só conhece a vida através do buraco da fechadura da vida dos outros, ou, neste caso, numa era dita mais moderna, através de vidas coladas num Facebook ou num Instagram ou mesmo num blog.

O facto de se protegerem sempre dentro de folhas de livros, não lhes dá a elasticidade de compreender que, gente real, gente que se entrega à vida, que a vive lá fora, faça sol, vento ou chuva, conta histórias dessa mesma vida com pormenores difíceis de inventar. Só alguém muito desatento não consegue ler, compreender, um pormenor que se viveu efectivamente, de um pormenor que se inventou para ficar melhor naquele parágrafo especifico de um livro que terá, muito provavelmente, tendência para acabar em best-seller.

Por outro lado.

As pessoas que gostam de ler, e de, simultaneamente, levar com o vento na cara com a força máxima que o vento pode ter em dias de mãe natureza que acordou com os pés de fora, são das minhas pessoas preferidas. Essas têm a inteligência de perceber, sem qualquer tipo de eruditismo, que nunca se acrescenta ponto algum em vidas que já geraram múltiplas quedas. Se fosse possível, talvez subtraíssem pontos. Se fosse possível...

14 comentários :

  1. Há muitas vidas, que ganhariam um pouco mais de dignidade se lhes subtraíssem alguns pontos à sua história. Tenho 71 anos Maria. E nem queira saber as vidas tristes que já conheci, as violências a que já assisti.
    Um abraço

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    1. É mesmo por aí, Elvira, se muita gente pudesse, ao invés de acrescentar pontos como dizem as pessoas - com alguma maldade, acrescente-se -, pessoas essas que vivem enclausuradas dentro de livros de estórias e não de histórias, se pudessem, escrevia eu, gostariam era de subtrair episódios à sua vida em vez de acrescentar em modo inventado.

      Com fiz a diferença entre estória e história, achei por bem arrastar isto:
      "As duas grafias existem há muito tempo e antigamente havia uma diferença significativa entre elas. A palavra estória é muito antiga na língua portuguesa, acredita-se que tenha surgido no século XIII. Empregava-se a forma estória quando a intenção era se referir às narrativas populares ou tradicionais não verdadeiras, ou seja, ficcionais. Já a palavra história era utilizada em outro contexto, quando a intenção era se referir à História como ciência, ou seja, a história factual, baseada em acontecimentos reais."

      Abraço e tenha um bom fim-de-semana.

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  2. O que há mais por aí e perigosamente em lugares de topo onde o curriculum é tudo menos verdadeiro, dizem ter muita "coooolllltura":) e não sabem o que é meter as patas na terra, apanhar vento e chuva nas trombas (muitos fazem-nos em carros descapotáveis só porque sim), socorrer quem caia na rua, pisar trampa de cão porque andar nos passeios é para os de classe baixa, mandarem e darem ordens com azedume envinagrado ...vivendo uma vida fantasiada em títulos...e a burra sou eu né?

    Conheço pelo menos dois escritores um já morreu e outro ainda é vivo que dão sábias cartas pela sua forma de ser e estar na vida. Falam e discursam de uma forma quando a plateia é...mas no dia-a-dia falam e cumprimentam até o homem ou mulher que limpam a rua, ou seja são da minha estirpe...que gosto de ler e as histórias que conto são verdadeiras porque acima de tudo a minha dignidade e não a conquista pelo status ou lá como apelidam muitas vezes obtida de forma muito dúbia.

    Termino resumindo que subscrevo totalmente o título "Gosto de pessoas que lêem livros, mas não simpatizo com pessoas que só conhecem a vida através de livros" e maisnada:)))

    Um bom sábado







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    1. O que quis transmitir com este texto é que para se ter uma vida, viver uma vida, conhecer a vida, temos de sair para a rua, pisar a rua e não pisar apenas folhas de livros e, entretanto, achar que sempre que alguém conta histórias lá da vida delas, estão a acrescentar pontos à história, a inventar. Quem acrescenta pontos à sua história de vida, são aquelas pessoas que ainda não deram quedas suficientes, ou não aprenderam rigorosamente nada com quedas. Vidas chatas requerem tinta brilhante. Vidas bem vividas preferem tinta mate.

      (mal comparado é como alguns políticos, uns não saem dos seus gabinetes e só se deslocam dentro de carros blindados com as janelas trancadas, não têm como saber se a rua tem buracos ou não, assim é a vida dos que lêem mas andam na estrada e os que lêem e só lêem, sempre, e sempre, enclausurados dentro das suas casas, longe da realidade)

      Bom sábado para si também, Fatyly :)

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  3. Quer que lhe diga o que me aprazia dizer sobre este texto? Para ser sincero e sem ser oportunista, procedia a um copy and paste disto:
    "Gosto de pessoas que lêem livros, mas não simpatizo com pessoas que só conhecem a vida através de livros".

    A frase é, percebe-se, nada mais nada menos que o título do texto. Com a sua permissão, faço minhas as suas palavras.
    Julgo que com isto digo tudo. Ou quase.

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    1. O título quase que podia ser o texto, pois podia, só que não era a mesma coisa :)

      *
      A paixão, gosto, prazer, o que quer que lhe queiramos chamar, que possamos ter por livros, não deveria nunca entrar em rota de colisão com isto de viver a vida lá fora, não importa se lá fora relampeja. É sobretudo isto. E sobretudo não colocar em dúvida quem tem cicatrizes ainda que não sejam visíveis a olho nu.

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  4. Parece-me que estas pessoas que se enclausuram nos livros são, em proporção, cada vez menos.

    Não porque haja mais gente a querer viver lá fora (deles), que "essa gente" também me parecem estar a diminuir em termos percentuais.

    Parece-me ainda – que hoje, ao que parece, é dia de dar pareceres – que isto, porque a tendência é as pessoas estarem a mudar-se para dentro dos seus tele-fones espertos, ou melhor, para dentro da ciber-néte. É que nesta ciência do auto-alienamento, fica tudo bem mais fácil quando em vez de apenas letras, temos muitas cores e imagens e botões que piscam e dizem clica-me!, clica-me!...

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    1. Sempre que leio os seus comentários, se pudesse ver a minha cara, veria um sorriso descarado. Descarado porque acho que o André tem uma forma muito peculiar de clicar nos pontos certos. Acho, inclusive, que a pessoa que está desse lado, não só gosta muito de livros como também vive dentro deles, a diferença é que é uma pessoa que escreve de forma viva e não de forma bafienta,o que, a bem dizer ,sabe pela vida. A mim pelo menos sabe :)

      PS: Li o seu último texto ontem, e gostei, muito, não comentei por estar naquilo muito moderno, com pressa, mas lá irei hoje.

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    2. Talvez se engane, Maria.

      Eu, sendo a pessoa que está deste lado, vejo-me achar coisas, sobre mim, que não são bem essas.

      Podia limitar-me a dizer-lhe há quanto tempo não leio um livro por inteiro, mas em vez disso, tento explicar:

      Gosto de livros, bastante, enquanto objectos e enquanto potenciais veículos de ideias. Depois, gosto muito da polpa e do sumo que se conseguem espremer de muitos deles. Mas nunca dei por mim a viver dentro de um, unzinho que fosse. Pelo contrário. As minhas incursões pelo interior de livros são sempre tentativas de melhor perceber o que está fora deles – e que é o Mundo em que eu vivo.

      Gosto de viver com os pés literalmente assentes na terra da Terra, de preferência descalços.
      E gosto de viver com a cabeça literalmente no ar, que também ele da Terra.

      E mergulho num livro como no Mar: pode a água estar mais fria, mais quente, mais calma ou mais agitada, mas sempre que nela entro é com o intuito de dela voltar a sair. Por muito que goste de brincar com o Mar (sobretudo dentro d'Ele), gosto mesmo é da sensação de voltar cá para fora com Ele a secar-se-me na pele!...

      É tudo isto dizer que quando vou de passeio, tendo a levar um livro na mochila. Mas nem por isso tendo a pegar nele para o ler. Uma vez que quando vou de passeio, deixo que seja este a conduzir-me, isso de pegar no livro acontece, normalmente, apenas se o passeio a tal se prestar.


      Not' Afinal que tudo isto, acho eu. Eu, que posso bem estar (bem) enganado!



      PS - Onde a Maria escreve "clicar nos pontos", eu teria escrito "beliscar os pontos"... ;o)


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    3. E eu deste lado a pensar que é mesmo isto: "As minhas incursões pelo interior de livros são sempre tentativas de melhor perceber o que está fora deles".

      Tem razão quando sugere um beliscar em vez de um clicar, apenas usei o clicar numa tentativa de fazer uma ligação, desajeitada, bem sei, com o seu primeiro comentário :)

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  5. Que dizer? Saiam cinco estrelas para a Maria.

    Um beijinho :)

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    1. Eu cá não tenho casa para pôr tanta estrela, AC, vou ter de vender, pelo menos, duas ou três :)

      Beijinho para si também.

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  6. Sejam quais forem as estrelas que povoarem a sua vida, limite-se a dar-lhes brilho, Maria, seja sempre si própria.

    Beijinho :)

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