segunda-feira, 21 de maio de 2018

Das expressões mais sem sentido que ouvi ultimamente: "comida de conforto"

De há uns anos a esta parte, começaram a inventar-se modas que vão sendo um género de modas descartáveis. Descartáveis no sentido de deitar-se aquilo fora definitivamente com a intenção de que, a reencarnar, que pelo menos reencarne em algo útil e que não nos atire para uma sociedade toda ela plastificada e sem sentido. A sociedade neste momento parece uma sociedade em modo barata tonta e com isto da "comida de conforto", arrisca a transformar-se numa barata tonta com excesso de peso.  

Se a tal "comida de conforto", é um género de comida - dizem os especialistas na matéria que provavelmente subtraíram o canudo num daqueles feriados que só acontecem em anos bissextos - que existe para nos mimar, ou seja, a comida que mais gostamos e só consumimos quando nos sentimos em baixo, tristes, ligeiramente deprimidos, então a coisa pode correr mal. Pode correr mal tendo em conta os últimos acontecimentos no país que é o nosso. 

Vamos imaginar que num mesmo dia uma pessoa:

1. Separa-se da pessoa que foi mas já não é aquele amor supostamente para a vida e vai de comer uma fatia de brigadeiro porque precisa de algum conforto, só que o desconforto é tal que junta mais duas ou três fatias.

2. O Sporting/Benfica/Porto perde e vai de comer um cozido à portuguesa em modo com tudo incluído e não meia-dose, mas sim dose inteira e mais meia. Se é para uma pessoa se confortar que aquilo seja em bom.

3. Discute com o vizinho logo de manhã, porque o cãozinho do vizinho lhe apeteceu deixar no tapete da entrada um presente de bons dias que a pessoa não vendo enterra o sapato até ao joelho, precisa de voltar a casa só naquela de voltar a tomar um duche, mudar de meias, sapatos, calças e, se possível, de disposição. Nesse entretanto e com os nervos inflamados, vê a porta do frigorífico em formato abre-te sésamo e toca de abrir mesmo, não só o frigorífico, mas o estômago ao conforto que precisa naquele dado momento - até já tomou o pequeno-almoço mas um segundo pequeno almoço conforta muito mais. Junta-lhe mais uma pitada de conforto só naquela, uma bola de berlim com creme bem amarelinho e convidativo esquecida da véspera.

4. Ao sair da garagem com a pressa risca a porta do carro, ao riscar a porta enerva-se e bate num carro à saída, chama uns nomes ao condutor do carro porque acha que o condutor do carro já deveria estar no trabalho lá dele e se estivesse àquela hora no trabalho lá dele aquilo não teria acontecido. Chega ao trabalho e só se acalma se devorar de uma só vez um pacote de bolachas que estava ali guardado para uma emergência. Bom, sentir-se confortável é uma emergência e se beber um café com dois pacotinhos de açúcar, aí o conforto sobe aos pináculos do confortável mais confortável não há.

Até podia continuar aqui a dar exemplos de como a "comida de conforto" é das expressões mais irritantes, sem sentido, que se inventaram nestes últimos tempos. Não será, talvez, para quem não se importar de engordar num só mês - isto se os contratempos forem muitos, e por vezes são mesmo - uns dez quilos de um só sopro.