terça-feira, 6 de março de 2018

O idoso sem nome

Tenho-me apercebido ultimamente, não sei se sempre foi assim, que as pessoas a partir de uma determinada idade passam a ser tratadas nas notícias pelo idoso ou a idosa, o nome próprio e o respectivo sobrenome fica esquecido algures no tempo que já não volta. 

Pus-me a congeminar, que é sempre algo muito bom para fazer quando se tem tempo de jogar ao exercita-os-neurónios, e cheguei a uma conclusão que pode ser triste para uns e para outros é para o lado em que dormem melhor. A almofada daqueles que dormem melhor para o lado da indiferença, provoca-me dores de cabeça, no entanto o lado triste da vida não colhe a minha simpatia, sei que ele existe, deixo-o entrar quando assim tem de ser, mas quando vai embora não me dá para dizer: volte sempre! Não trato o lado triste da vida por tu, existem lados onde ainda existe vida que uma pessoa não pode dar muita confiança. Não deve, sequer.

Voltando ao exercício de exercitar - salte-se aquilo que se tiver de saltar.

Qual a razão de, quando se tem de deglutir uma notícia por si própria já muito trágica, a fórmula usada por alguns jornalistas, comentadores, é: a idosa foi encontrada morta na sua casa. Isto é triste, meus senhores, já não basta esta apetência de algumas pessoas, canais de tv, por mortes em modo drama de faca e alguidar, se possível com o respectivo rio de sangue a acompanhar. Quer-me cá parecer que quanto mais rio houver, melhor, mas pronto, não nos afoguemos em notícias que rendem muito em audiências.

Não desejo a morte ao senhor Manuel José ou à dona Josefina da Silva (nomes ficcionados), mas a acontecer um dia, que não façam capa de jornais, aberturas de telejornais, tema de comentadores ávidos de sangue, com um muito pouco digno: foi encontrado(a) um(a) idoso(a) já sem vida...

(o termo velhinho, também usado nalguns contextos de crime, é de um paternalismo aflitivo, já para não escrever, capaz de fazer revirar os olhos, é que o termo velhinho associado a pessoas que têm todo um historial de vida, vidas por vezes duras, pesadas, como que minimiza o ser humano que, até por acaso e só por acaso, tem nome próprio e sobrenome, merece ser tratado por gente mais nova com atenção redobrada, idoso e velhinho não lhes confere esse respeito, retira-lhes vida, isso sim, resume as pessoas não a números, mas a pacotes onde se enfiam e rotulam pessoas... com nome)

14 comentários :

  1. Jornalistas e comentadores são, salvo raras excepções, nos tempos que correm, coisas raras, alguns mesmo em vias de extinção.
    Quero acreditar que o lado imbecil está presente em muitas reportagens/notícias e, é óbvio mas não querem que se saiba, falta àquela gente que informa profissionalismo e, coisa ainda mais simples, conhecimento do que falam.

    PS - "Josefina da Silva" será um termo ficcionado mas, em boa verdade, não tão ficcionado assim. É assim que se chama a minha vizinha do 5º esquerdo, a tal :)))

    Boa terça, ilustre Maria.
    Beijinho

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    1. O caro Observador já percebeu que se morrer um político, um escritor... pessoas de idade avançada, as notícias não são transmitidas da mesma forma como se transmite a morte de um cidadão dito comum?

      Morreu Mário Soares. Morreu José Saramago. Morreu Eusébio. E por aí fora. Seria inconcebível escrever/dizer/informar que morreu mais um idoso muito conhecido. Eu, ao contrário de muitos, acho que até na hora da morte somos diferentes. Existem os idosos da vala comum e existem os que têm nome e sobrenome e que, pronto, deram muito ao país, ao mundo e, talvez por isso têm direito a ser tratados pelo seu nome, Um pequenino grande pormenor, os outros, os pouco conhecidos também contribuíram de alguma forma para este mundo. Não sei, penso eu...

      Para si também, uma boa terça-feira, caro Observador.
      Beijinho.

      PS: Essa sua vizinha existe mesmo, ou é coisa ficcionada? :))

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    2. Bem me queria parecer, sendo assim posso respirar de alívio, Josefinas da Silva existem muitas :)

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  2. Não é de agora amiga Maria. Em 2007, no dia em que fiz 60 anos escrevi no Sexta o seguinte.

    Pois é. Nasci a 3 de Setembro de 1947. Faz precisamente hoje 60 anos. E porque é que estou triste?
    Porque hoje deixo de pertencer ao vosso mundo. Ao mundo das pessoas com identidade. A partir de hoje, sou para o mundo, apenas mais uma idosa. Senão reparem nas notícias dos jornais. Se temos 59 anos, somos o sr. ou sra. João ou Maria. Se passámos os 59, somos o ou a idosa de tantos anos de idade.
    Aqui há anos, li um texto, não recordo de que escritora, que dizia, que uma mulher perde várias vezes a identidade na vida. Ou é a mulher de alguém, ou a filha, ou a mãe.
    E é verdade. Nasci num meio pequeno, onde toda a gente se conhecia, e era a filha mais velha do Manel da Lenha. Anos mais tarde fui trabalhar para Lisboa. Aí eu era simplesmente a Elvira. Sem apelidos. Só eu. Depois casei. O meu marido era militar, e foi para Moçambique em comissão. Eu era muito jovem estava perdidamente apaixonada. Deixei o emprego, no laboratório e fui para Lourenço Marques. Aí chegada, não conhecia ninguém, a terra era estranha, sentia-me muito só. Porque o marido saía em patrulhas, e levava vários dias para voltar.
    Fiz amizade com as mulheres dos amigos do meu marido. E deixei de ser outra vez a Elvira, para ser simplesmente a mulher do Carvalho. E assim foi durante uns anos.
    Quando em 73, acompanhei o meu marido para Angola, decidi que ia ser diferente. E foi. Procurei emprego, juntei-me á Cáritas, e recuperei a minha identidade.
    Em 81, o filhote era um bebé lindo, e muito amoroso. E eis que perdi outra vez o nome. Durante os 20 anos seguintes, passei a ser a mãe do Pedro. Há uns 5 anos quando ele foi para a sua própria casa, voltei a ter nome. Passei a ser a Elvira Carvalho. Era tudo o que eu queria. Ser a Elvira.
    Agora vou perder o nome de novo. E desta vez para sempre. E é por isso que estou triste. Não me preocupa a idade. Apenas o rótulo.
    Detesto essa coisa impessoal, fria e discriminatória de idosa, que nos remete para qualquer coisa, que não é gente nem é nada.


    Espero que não se importe de deixar aqui o texto e pode apagá-lo depois de ler.
    Um abraço

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    1. Agradeço-lhe, Elvira, este seu testemunho. É digno de ler. Reflectir, também. Não conhecia o seu blog em 2007, aliás, em 2007 nem sequer pertencia ao mundo dos blogs, portanto é importante este seu texto.

      (este meu texto nasceu por causa de uma notícia que ouvi ontem, de uma senhora que foi encontrada morta, não foi tratada por senhora, pelo nome, foi mais uma idosa que foi encontrada morta; provavelmente no dia de hoje já ninguém se lembra da 'idosa', não tem nome sequer, foi mais uma que morreu - triste isto)

      Apagar? Ora essa! Temos muito é que aprender com textos destes, escritos na primeira pessoa, vidas reais embora escritas e transmitidas num mundo dito virtual. Pois, muita gente esquece-se que o mundo virtual é todo ele composto por pessoas reais, o que não deixa de ser uma grande ironia quando muitos dizem que não se deve dar grande importância ao que se escreve na Internet. Se calhar não é bem assim... Embora teimem em afirmar que são conversas de café, tenho para mim que são conversas de café muito mais genuínas porque são partilhadas sem qualquer tipo de remuneração associada, outras conversas plantadas na tv também serão de café, só que, pelos vistos, são mais credíveis porque têm um carimbo remuneratório qualquer. Coisas...

      Um abraço para si também e tenha um óptimo dia. Obrigada, novamente.

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    2. Elvira

      Há muito que leio o Sexta e outros dois teus espaços de poesia e coisas minhas:))) e recordo-me deste teu texto MARAVILHOSO!

      É hábito meu ler de fio a pavio um blogue. Claro aos poucos e se gosto entro e comento e agora já adicionei-te aos meus "livros de bolso" nome que dou aos blogues que sigo. Quando entendem parar dou um prazo, deixo recado para me avisar que voltou, retiro e substituo por outro.

      Tu tens cada obra - trabalhos manuais e poesia...que me enche a alma.

      Maria peço desculpa de deixar aqui esta mensagem

      Beijos

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    3. Este é um espaço de interacção, Fatyly, logo, as pessoas são livres de falar, escrevendo, umas com as outras. Sinta-se à vontade.

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  3. Já em tempos disse que embirro solenemente com a palavra "idoso"idosa", chamem-me antes "velha"pf e tudo isto devido às minhas raízes.

    Mas aceito quem não pensa como eu e ache que estarei errada, mas paciência.

    Quanto às notícias sobre a morte de "gente da vala comum à qual eu pertenço", a lei (hei-de pesquisar para dizer qual porque agora deu-me uma branca) diz que só podem divulgar o "nome próprio e sobrenome" se a família permitir e ou a PJ ou o MP após as respectivas investigações. Só o podem fazer com as tais "figuras conhecidas que dás como exemplo, mas em nenhuma notícia dizem qual a razão da sua morte...é sempre "doença prolongada" ou "paragem cardio respiratória" ou "doença súbita" e tudo isto com permissão dos familiares.

    Mesmo assim há homicídios de gente conhecida que só dizem o nome um ou dois ou mais... dias depois.

    Mantenho a minha identidade e estou-me nas tintas para quem queira rotular-me como número, idosa, reformada etc e tal, porque enquanto eu for um ser vivo e pensante...levam comigo ó se levam seja onde for.

    Idosa, querida, amor, minha linda... diga pf... nham, nham... pummmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!

    Agora vou ler os comentários:))

    Um boa tarde


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    1. Fatyly, eu ao contrário de algumas pessoas, tenho uma opinião diferente, se um dia chegar a isso de ser considerada coisa que só atrapalha e não anda cá a fazer nada, não quero ser tratada por idosa nem por velha, agradeço que, se esse dia chegar que me tratem pelo meu nome. Maria, chega e sobra. E digo-lhe a razão, é que eu trato toda a gente pelo nome, não trato por coxo, cigano, maricas (para não escrever outra coisa), chinoca, gorda, preto... trato as pessoas independentemente do seu aspecto, etnia, pelo seu nome, quando não sei, pergunto. É simples.

      Só que, neste contexto, ou seja, quando pessoas que estão sentadas em jornais, na tv, fazem questão de enfiar toda a gente no mesmo pacote, catalogá-las e como que lhes retirar a identidade chamando-as de aquele idoso ou aquela idosa, é próprio de uma sociedade que se está nas tintas para os outros, o que, diga-se de passagem, não é novidade alguma. As pessoas têm nome, e é pelo nome que têm de ser tratadas - não morreu mais um idoso sem nome, morreu o senhor Manuel que tem 93 anos, é completamente diferente.

      (e por que raio não se chamam as pessoas de mais idade por senhora ou senhor? Esta parte nunca vai estar desactualizada, existe por aqui uma menina de 6 anos e uma outra de 2 anos - não são minhas -, mas a quem os pais de uma geração dos trintas, muito novos, portanto, estão a educar os filhos nisso do tratamento por senhora, senhor, em pessoas de idade mais avançada, e o tu só para gente muito mais nova; não é uma questão de antigamente é que era, tem muito mais a ver com a educação que é passada pelos pais tenham eles a idade que tiverem; tivesse eu filhos e também seria assim que os educaria; faz-me confusão que funcionárias de lares tratem pessoas de idade por tu sem os conhecerem de parte alguma, acho aquilo uma tremenda falta de respeito, mas pronto, cada um saberá de si; tivesse eu os meus pais num lar e era ver se permitia que os tratassem por tu ou por velho; sim, sim, com o meu feitio...)

      Quanto à lei, não sei, acredito que o sobrenome tenha de ser salvaguardado se a família assim o entender e talvez em determinadas situações, no entanto o nome próprio é bom que exista, as pessoas têm de ser tratadas com dignidade, não como coisas que fazem parte de estatísticas.

      Tenha também uma boa tarde, Fatyly :)

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  4. Concordo contigo. As minhas filhas sempre me trataram por tu e os meus netos a mesma coisa, mas um "tu" com respeito e educação olarilólé, mas já não o fazem à bisavó nem aos professores e pais dos amigos, porque os pais assim os educaram. No entanto os genros nunca me trataram por tu e olha que os conheci bem novinhos: Nunca tratei a minha mãe por tu e o meu pai muito menos, no entanto tinha um irmão que os tratava por "tu" e "cotas" e recordo o ar doce dele quando falava com os pais:)

    Aqui onde moro é mais "vizinho ou vizinha" raramente dizem o nome e só uma me trata por tu e eu também.

    No lar onde está a minha mãe jamais em tempo algum a tratam por tu, é Dª X e nunca ouvi tratar nenhuma por tu porque no dia em que eu ouvir...levam comigo. Mas, há sempre um mas...há uma (a mais velha de todas) que a pedido da minha mãe trata-a por "tu". Foi chamada à atenção pela direcção e a minha mãe intercedeu a favor dela. O que fazer perante isto? Já disse à minha mãe que não gostava e nem te digo o que me respondeu.

    Quanto às notícias que pecam pela voracidade de as darem e sem a "permissão" de que falei porque existe a tal ...nem o nome próprio podem dizer. Depois com o desenrolar aí já dizem os nomes e sobrenomes.

    Tudo isto a meu ver não passa pelo "antigamente", e a educação tem outros pilares muito mais fundamentais do que a existência do "tu" entre pais/filhos/avós.

    Toma um abraço e que conserves sempre essa tua visão de "educação"!

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    1. Fatyly, existe uma enorme diferença, dar permissão é uma coisa, agora um funcionário num lar achar por bem tratar as pessoas mais velhas por tu só porque lhe apetece - eu continuo a achar que muitos dos funcionários de lares precisavam de formação, todo o tipo de formação, não só na forma de tratamento, como outras - como se não existisse ali ninguém da família para interceder, é que, para além de abuso, é uma enorme falta de respeito. As pessoas podem envelhecer mas não perdem a sua capacidade de discernimento, excepto pessoas que terão problemas de saúde, aí o caso é outro. Envelheceram, mas foram médicos, electricistas, empresários, pedreiros, advogadas, mulheres a dias, seja qual for a profissão que tenham exercido, o respeito tem de existir. E acho que se pode terminar com um ponto. Ponto.

      Na família cada um saberá como educar os seus, eu não me meto (passo a expressão) na vida dos outros, e sim é verdade, o problema nisto tudo é que os outros se metem na nossa. Enquanto eu não critico pais que não se importam que os filhos os tratem por tu, posso não simpatizar, mas não critico, já os pais que deixam os filhos tratá-los por tu são os primeiros a gozar com quem não o faça. Ah e tal um filho tratar os pais por 'você' (coisa que não se passa, o 'você' não existe, é péssimo), é coisa de pessoas que têm a mania . Lá está, os mais liberais, digamos assim, são quase sempre os que mais têm dificuldade em aceitar visões, formas de estar na vida, diferentes das que eles adoptam para a sua vida, o que me leva a dizer que só por isso já são à partida pessoas preconceituosas.

      Nunca tratei professores por tu, nem tal coisa me passaria pela cabeça. Caramba, tem de existir uma qualquer linha imaginária que estabeleça limites, não se trata de rigidez coisa nenhuma, antes pelo contrário, é apenas como se a pessoa soubesse que até ali pode ir, a partir dali é bom que pense duas vezes. Não sei se dá para perceber (+-) o que pretendo transmitir... Engraçado que em famílias que sempre viveram no campo, gente da terra, gente mais humilde, a Fatyly mais facilmente vê os filhos tratar a mãe por tu, mas o pai não, o pai normalmente não tratam. As faltas de respeito são bem maiores em relação à mãe. E qual a razão de isto acontecer? Eu cá acho que sei, vou guardar para mim ;)

      Abraço, Fatyly, sempre gostei disto de 'ouvir' as pessoas que já viveram muito mais do que eu. Aprende-se muito. Até se pode não concordar com algumas coisas, mas o resultado é bastante positivo.

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    2. Não te zangues e vou para a cama com estas palavras:

      Abraço Maria, sempre gostei disto de "ouvir" pessoas que ainda têm muito mais tempo para viverem do que eu. Aprende-se muito. O resultado para mim é muito além do positivo porque é a forma de não perder o comboio, melhor o TGV da tua geração e dos ainda mais novos.

      (repeti algumas palavras mas o sono não deu para pôr aspas)

      Fica bem e uma boa noite. Vou dormir que amanhã se eu acordar viva tenho um dia "D":)

      O-B-R-I-G-A-D-O

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