quarta-feira, 7 de março de 2018

Fechado que foi o mundo rosa aqui mais em baixo, fale-se agora de assuntos ditos sérios - a Ponte 25 de Abril

A Ponte 25 de Abril funciona para mim como que a ligação da Lisboa que eu tanto amo, ao restante país que não deixo de amar menos. Compreende-se este meu amor por Lisboa, foi aqui que cresci, que fui educada por pais que fizeram de Lisboa a sua cidade de eleição, foi em Lisboa que estudei, que conheci o meu primeiro amor, que casei, que me desiludi para mais tarde voltar a deixar-me iludir nisso das teias de amores que não se querem breves, mas por vezes acontecem e temos que os aceitar com a brevidade que a ilusão implica. Também foi em Lisboa que construí amizades, ou que se foram construindo amizades, umas morreram com a distância, outras sobreviveram para mais tarde nos atingirem com golpes que nos trespassam a alma e nos deixam em farrapos. Só que Lisboa tem aquela luz magnífica, luz capaz de sarar golpes dos mais profundos. E tem um sol do tamanho do mundo inteiro, um sol bem distribuído em quadradinhos iguais por todo o Portugal adentro. 

Só por tudo isto e muito mais do que isto, sinto-me descansada quando leio que resolveram fazer aquilo que acho que deve ser feito em pontes, sejam elas quais forem, manutenção. Trabalhos de manutenção. Sim, dizem que o orçamento é capaz de rondar os 18 milhões de euros. Sim, dizem que este tipo de trabalhos de reparação terá a duração de dois anos. Muitos vão torcer o nariz, é o costume, eu no entanto só me consigo concentrar naquilo da segurança e do bom que é passar a Ponte, seja em que sentido for, olhar sempre para o rio como se fosse a primeira vez e esperar que o sol apareça no horizonte com um sorriso rasgado como se nos dissesse em modo sussurro: sê bem-vinda(o) a Lisboa. É muito boa a sensação de nos quererem bem. Lisboa quer-nos bem.

Digamos que esta foi a minha visão poética de um assunto que vai levantar muito pó.


8 comentários :

  1. Sobre Lisboa que tem sofrido imensas alterações já sabes o que penso. A ponte que a apelido "minha amiga", atravesso sem olhar para o lado não vá o tipo da frente parar de repente e pimba e só respiro fundo quando saio dela. Acho muito bem que se faça a manutenção. É feita quase diariamente, mas a que falam é mais profunda e como tal, apoio, voto e bato-palmas.

    Tinha um colega que nunca mais o vi que morava, sei apenas que ainda mora, numa casa perto ou quase debaixo da ponte no pilar à esquerda de quem entra em Lisboa. Volta e meia caiam no seu enorme quintal peças da ponte e um dia levou um parafuso para eu ver...minha nossa que coisa tão grande o dobro dos carris ferroviários que por vezes voavam como pássaros e são igualmente grandes.

    Sou totalmente a favor e que não percam muito tempo em burocracia o "cancro deste país".

    Beijocas e um bom dia

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    1. A Ponte 25 de Abril e não Ponte Salazar como muitos quereriam que se continuasse a chamar, o que para mim não faria qualquer sentido, mas isto sou eu que acho que ditaduras são um tipo de poder demasiado indigesto. Felizmente para mim não tive de vivenciar na primeira pessoa.

      Gosto desta Ponte, cresci lado a lado com ela, já a atravessei de muitas maneiras, em sentido Sul, Norte. De carro, de comboio, de camioneta, no Verão, no Inverno, com chuva torrencial, com vento, com calor abrasador, parada no trânsito e com tempo para observar toda a beleza que nos é oferecida de bandeja, lá bem de cima. Só não gosto de nevoeiro, confesso. Nos finais de tarde de Verão, quando o sol ainda espreita lá longe, é simplesmente magnífico. Quando existem barcos por ali a passear nas águas do rio, é também digno de se ver.

      Esta é razão mais do que suficiente para gostar disto de trabalhos de manutenção. Por vezes quando atravesso a Ponte dou comigo a pensar num filme a que assisti (não me lembro do nome), o filme focava-se nisto de uma ponte mais ou menos parecida com esta nossa, de Lisboa e de todos nós, de repente começar a ter fendas, fissuras, um dia, estando a ponte com muito trânsito aquilo começar a abrir, a cair, aos bocados. O filme ficou-me até hoje gravado na memória. É aterrador.

      (morar debaixo da ponte, não em sentido literal, deve deixar uma pessoa desassossegada, penso eu)

      Perder tempo com burocracias quando o assunto é manutenção de pontes, seria de uma grande e total falta de responsabilidade. Só que, já não digo nada...

      Tenha também um bom dia, Fatyly.

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    2. Já atravessei imensas vezes já que a filha mais nova mora na "banda de lá" e fica mais perto ir por ela do que pela Vasco da Gama. Como tal já apanhei de tudo, chuva, calor, engarrafamento, paragem e para acalmar a ansiedade de sair dali para fora, aí olho para a paisagem, mas sinceramente se fosse possível preferia ir a nado:))))

      O nome do filme não é Premonição 5? Sufocante até dizer chega e nunca mais consegui ver:)

      O TIR também tem as suas fragilidades e medos...e fujo de barcos e pontes, obrigado mas só o faço se não conseguir arranjar alternativas como o avião:))))

      Vou dormir e desejo-te um bom serão

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    3. Também atravesso de quando em vez a Ponte Vasco da Gama, só que aquilo tem a água muito perto de mim, prefiro estar mais perto do céu, salvo seja. Avião? Gosto muito, nem sequer me apercebo que estou dentro de um avião, tudo tranquilo. Já barco é complicado.

      Não me lembro mesmo do nome do filme, sei que tudo aquilo é assustador e muito real. Bons filmes transportam-nos para dentro do écran. É o caso.

      :)

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  2. Neste blogue vejo, com frequência, tratados assuntos deveras importantes. Bem, direi antes que a forma como alguns desses assuntos têm uma mais valia pela forma como são abordados.
    É o caso deste que fala de coisas queridas, eventualmente fofinhas.
    Lisboa amada e tudo à volta. E aquela Ponte, uma das que une as duas margens e é tão pouco útil porque não resolve coisa nenhuma por ser antecipada geograficamente, em ambos os sentidos, por vias cuja estrutura é estranha, assim do género 'meter o Rossio na Rua da Betesga".
    Pronto, Lisboa e tudo. 20 pontos e música.

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    1. Caro Observador, sendo um blog uma página pessoal onde cada um abordará os temas que bem entender, convém, isto penso eu, que a forma como esses temas são abordados tenham um cunho também ele todo pessoal. Se assim não for acabará por ser apenas um copy/paste de muitos outros. Daí também achar ser importante isto de se responder a comentários, mas responder não numa de despachar a coisa e toca a andar para a seguinte, antes responder emprestando também a sua forma de observar, viver, analisar, o mundo e arredores. Ah, e mais, não acho que deva existir competitividade nisto do mundo dos blogs, escrever é um exercício que se quer amigo da saúde, não causador de stress, para isso já basta toda a competitividade inerente ao mercado de trabalho.

      Não falo de Lisboa e da Ponte 25 de Abril de forma querida e fofinha, falo de forma sentida de uma cidade que está plantada e muito bem plantada no lado esquerdo de quem sobe nisso do bate bate coração. Que seria a vida sem um lado poético? Dura, muito mais dura, creio, capaz de nos rebentar com a sanidade mental enquanto o diabo esfrega um olho. Entretanto é bom que se interiorize de uma vez por todas que isto de trabalhos de manutenção em pontes tem de ser levado muito a sério, estão em risco vidas humanas. A comunicação social deveria fazer marcação cerrada a assuntos destes, não largar o osso por assim dizer.

      Lisboa sem a Ponte 25 de Abril seria como uma pomba a quem tivessem roubado uma asa. Também acho que o nosso Cristo Rei ficaria muito triste e, não conseguindo aguentar tanta tristeza, faria as malas e mudar-se-ia para o Brasil, naquela de fazer companhia ao seu primo, o Cristo Redentor :)

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  3. Respostas
    1. Versão actualizada de um provérbio português: com poeira e bolos se enganam os tolos ;)

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