domingo, 11 de fevereiro de 2018

Psicologia de algibeira rota (cosida de dias seguintes)

Costumo ouvir muito, pessoas que se queixam todos dias. Queixam-se da vida porque está a chover. No dia seguinte queixam-se da vida porque está sol. No dia seguinte queixam-se da vida porque está vento. No dia seguinte queixam-se da vida porque não está a chover. No dia seguinte queixam-se da vida porque não está sol. No dia seguinte queixam-se da vida porque não está vento. 

E nos dias seguintes...

Queixam-se da vida porque tudo está caro. No dia seguinte queixam-se da vida porque está barato. No dia seguinte queixam-se da vida porque tudo está caro e há quem faça vida como se tudo estivesse barato.

E nos dias seguintes...

Queixam-se da vida porque os outros são chatos. Queixam-se da vida porque os outros são maus. Queixam-se da vida porque os outros são pobres na zona do intelecto. Queixam-se da vida porque os outros são ricos na zona das contas bancárias. Queixam-se da vida porque a vida está cara e a alface está pela hora da morte. Queixam-se da vida porque a vida está barata e a mão-de-obra da obra feita pelas mãos dos outros, nem por isso.

Sem dias seguintes.

Queixam-se da vida porque, talvez, e talvez outra vez, a vida não se faça de fora para dentro e sim de dentro para fora - aqui entra a parte da psicologia barata, de algibeira e toda ela muito rota. Se a vida se fizer sempre de fora para dentro, ou seja, se uma pessoa estiver sempre à espera que sejam os outros, o tempo, o país, o gato, o cão, o periquito, o senhor Baltasar da esquina logo a seguir à outra esquina mais acima, o raio que nunca parte até ao dia em que se cansa e parte tudo o que lhe aparece pela sempre, a ter uma qualquer obrigação de trazer as pessoas que sempre se queixam de tudo, ao colo, com o copinho de leite morno para melhor dormirem, a manta polar para melhor aquecerem as queixas dos dias seguintes, é muito mais do que provável que nunca, em tempo algum, algo melhore, ou, a melhorar algo serão sempre as queixas infindáveis cosidas de dias que teimam todos os dias em nascer para tristeza de todos aqueles que têm que ouvir as pessoas que nunca param de se queixar.

A coisa é assim (continuação da tal psicologia de algibeira rota): É fazer as coisas de dentro para fora, fazer ou viver a vida de dentro para fora, apenas significa que não se espera nada da vida, dos outros, nem do gato e tão pouco do periquito, espera-se apenas de nós mesmos, não se espera que sejam sempre os outros a dar, presentear, porque simplesmente não se constroem expectativas atrás de expectativas no sentido de nos vitimizar se as expectativas saírem furadas. Furem-se as expectativas antes que os dias seguintes nos furem a nós. Pim! 

8 comentários :

  1. Gostei de ler. Não sou muito de me queixar, ainda que às vezes saia. De vez em quando a gente precisa desopilar.
    Um abraço e bom domingo de Carnaval

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    1. (obrigada , Elvira)

      Queixar, a bem dizer, todos nos queixamos, faz parte, neste texto apenas me referi àquelas pessoas que o fazem em modo sistemático, talvez circulem na auto-estrada sempre em sentido contrário e, se calhar, não se apercebem que de tão embriagadas que estão, ou de tão distraídas que estão, quem está em "transgressão" são elas mesmas e não os outros. Dá-se um acidente, ou mesmo vários e, claro está, a culpa nem é minha que estava aqui tão sossegadita no meu caminho em direcção ao meu, também, umbigo.

      Um abraço para si também, Elvira, bom domingo.
      (Carnaval deixo para os outros, eu sou mais bolos :))

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  2. Queixo-me neste preciso momento porque demorei mais de uma hora de Odivelas até aqui, sendo que o aqui fica, normalmente, a pouco mais de 20 minutos, a 'abrir', já se vê.
    Somos uns queixinhas!

    Adoro psicologia. Tanto que se o tempo pudesse voltar para trás tinha optado por essa área.
    Mesmo sem o curso completo, considero-me uma espécie de analista em psicologia.

    E por falar em psicologia ... como vamos de jardinagem? :)
    Beijinho

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    1. Ah, mas aí é que está, o caro Observador sem querer revelou algo muito importante, a meu ver, foi ali naquela parte do "neste preciso momento", portanto, deduz-se, que é uma queixa em modo pontual e não uma queixa em modo sistemático, a não ser que vá todos os dias a Odivelas, sendo domingo, dia de chuva, do ano de 2018, dia que dizem ser 11, e mês que dizem ser Fevereiro, este dia não se repetindo nunca mais, espera-se que a queixa de hoje também não se volte a repetir nunca mais nos dias que são os seguintes. Também existe sempre aquela coisa de se puder mudar de trajecto. Eh lá, que isto foi um momento muito dado ao "psicológico" (ahahahah).

      O caro Observador se o tempo voltasse para trás optaria pela área da Psicologia, eu, pelo meu lado, optaria pela Arquitectura, tenho um verdadeiro fascínio por arquitectura. Pena que o tempo não possa engendrar isso de meter o pé no acelerador, fazer marcha-atrás e voltar ao inicio da estrada...

      (jardinagem com chuva? então mas o jardim está a absorver chuva em forma de ouro a tombar do céu, até bate palminhas)

      Beijinho para si também :)

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  3. Fujo dessa gente como o diabo foge da cruz e por vezes perco mesmo a paciência. Claro que por vezes queixo-me e ou falo das minhas preocupações, mas 99% dessas queixas são feitas à tralha que tenho em casa e que volta e meia levam uma volta que até ganem, como aconteceu hoje...e a cubata cheira tão bem:)

    A muitos e muitas que me julgam um "confessionário" mando-as ir à luta e as queixas sobre os maridos? que se separem e não será que o problema está nelas? Ficam fulas. É com o tempo e tudo o que referes e não há TIR que aguente!

    Nos meus tempos de estudante queria ser hospedeira de bordo e o meu pai (que foi piloto de aviação civil) deu-me um não audível no pólo norte:))) Gosto imenso de psicologia mas ainda mais de medicina e se tudo correr bem daqui a quatro anos terei uma médica nos meus:) já lhe disse para escolher a especialidade de psiquiatria pois eu serei a sua primeira cliente hehehehehe

    Qualquer dia vou a um psicólogo (gosto mais deles do que delas...não sei) e se me mandar "apanhar sol e comer fruta" como há anos o meu amigo psiquiatra me disse, juro que levo-o comigo, ao levo, levo heheheh

    Queixarmos-nos de "barriga cheia" é um hábito muito comum nos portugueses e começam logo com a saudação:

    - Bom dia, tudo bem?
    - Bom dia, vamos indo!!!!
    e respondo de imediato:
    - Então vá andando que já o(a) apanho

    Xau Dª. Maria Madeira que a meu ver és uma autêntica psicóloga pois nem imaginas o bem que me fazes e só por isso o meu OBRIGADUUUUUUUUUU


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    1. Fatyly, tenho uma teoria, que por ser teoria terá fissuras das grandes que, as pessoas assim, daquelas que todos os dias, a toda a hora, a todo o minuto, segundo, inclusive, só se queixam, dizia eu que a minha teoria assente nalguma prática também, grita-me que, as pessoas nessa onda roubam-nos e de que maneira energia que precisamos para a nossa própria sobrevivência. Ou seja, não sei se já se apercebeu que depois de se estar com algumas pessoas destas, de se conversar com algumas, fica-se como que sem energia, por vezes bastante em baixo, sem ânimo. O que acho é que esse tipo de gente tem uma palhinha invisível qualquer para nos sugar a nossa energia e abastecer a delas. É fugir para longe e bem depressinha :))

      (vai ter uma médica na família? ora ainda bem porque precisamos de bons médicos, e, já agora, tratá.los bem, com boas remunerações para que não saltem para outros países)

      Quando a minha mãe morreu a minha médica reencaminhou-me para um psicólogo amigo dela, um excelente profissional, disse, só que não me dei bem com aquilo, só lá fui umas três ou quatro vezes e, desisti. Primeiro: o ambiente era quase na escuridão, tinha o consultório ou sala, ou lá o que era, muito na penumbra. Segundo: fiquei sentada à frente dele e ele só olhava para mim à espera que eu falasse, eu olhava para ele e pensava cá para os meus botões, se não sofro de algo, passarei a sofrer porque esta situação é muito angustiante - fiquei a conhecer muito bem a barba do psicólogo porque o tempo em que estava lá não me dava para falar (só observar) e, como ele também não, olhe, foi... caricato. Resultado: nunca mais lá pus os pés, não é para mim, isso de ter um(a) psicólogo(a). Passo. Ter aulas de dança, fazer ginástica, faz mais pela minha sanidade mental, do que me sentar num consultório de um(a) psicólogo(a). Mas isto é a minha experiência, outras pessoas terão a sua, bem mais positiva.

      (essa parte da "saudação" que descreve está muito, muito, boa :))))))))

      Tenha uma boa noite, Fatyly (eu é que tenho de agradecer essa espontaneidade toda das pessoas desse lado, aprendo muito, ó se aprendo)

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    2. Irei (se for né?) só para saber a forma e conteúdo. Tocas num ponto fulcral com que me debato com a minha mãe: a penumbra o que a minha mãe gosta mais e nem dá conta que a penumbra só lhe causa angústia. Assim que chego abro logo metade da portada e é nestas pequenas coisas que nos chocamos muito. A minha psicologia é mais na base de "apanhar vento nas trombas, sentir a chuva e curtir o sol e o mar:)))) e os pessssaaarrriiinnhos:)))

      Fica bem Maria e agora vou jantar. Uma boa noite!

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    3. Faz bem, fale com a sua médica de família, Fatyly.

      Falei naquilo da penumbra, porque foi assim que o consultório do dito psicólogo se encontrava sempre, não faço ideia se em outros consultórios de psicólogos se processa da mesma forma - eu não gostei, admito.

      (isso da penumbra que a sua mãe gosta não pode ter a ver com algum momento mais deprimido em que talvez se encontre? é que quando se está um pouco triste, muita luz pode causar desconforto e o facto de se ter a casa, ou outro sitio qualquer , a meia luz, natural ou não, pode ajudar a acalmar um pouco; não sei, digo eu...)

      Bom jantar, Fatyly.

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