segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Natal dura dois dias, o frio para os sem-abrigo outros dois e, depois "o coelhinho foi com o pai Natal e o palhaço no comboio ao circo"

Todas as iniciativas que implicam dar a mão a quem mais precisa parecem-me de louvar, e esta da Câmara de Lisboa decidir deixar abertas as estações de metro do Rossio, Saldanha, Oriente e Intendente nestas noites que, parece, a temperatura é bem capaz de atingir uns aflitivos 3º, são iniciativas a ter em conta, ter em conta, ter em conta, mas... o raio do mas é que estraga sempre tudo.

Primeiro: não entendo aquelas pessoas que falam dos sem-abrigo como se os sem-abrigo fossem uma "raça" a exterminar (peço desculpa pelo termo raça, por vezes tem que se usar termos duros para passar a mensagem que se quer passar de forma mais incisiva). A vida nem sempre está para a poesia, por vezes as estrofes sofrem de esquizofrenia em último grau.

Segundo: também não entendo isto de num país tão pequeno como o nosso, um Portugal dos pequeninos e dos muito grandes também, ainda não ter resolvido de vez este problema, porque de um verdadeiro problema se trata; quando falo em problema não falo da estética da cidade, falo de pessoas que queiram ou não ser ajudadas, têm que ter, obrigatoriamente, um tecto para se abrigar, comida e algum tipo de trabalho que lhes permita viver condignamente; e trabalho existe muito para fazer nesta cidade e arredores, a começar por jardins abandonados, espaços esquecidos que precisam de ser limpos, ah e tal é um trabalho das Juntas de Freguesia, ai é? então pergunto a razão de se andar por aí em algumas freguesias e as ruas se encontrarem com ervas daninhas tão altas que quase tapam a visibilidade a quem quer conduzir em segurança? e contentores do lixo que não são lavados há três quinze anos tal é o mau cheiro que existe no ar; e terrenos que mais parecem verdadeiras florestas densas, onde vivem povoações vastíssimas de ratos, suas companheiras de vida, as donas ratazanas e toda uma colectividade de filhotes, os ratinhos mais os seus primos que vieram de longe só para os visitar.

Terceiro (e último ponto): sabemos que o Natal dura ali uns dois dias, entretanto a malta esquece todo aquele amor que paira no ar, o Natal leva um sumiço dos grandes porque temos mais que fazer e tanto amor cansa o cérebro cá da gente; o que me faz verdadeira confusão é que se trate os sem-abrigo em tempo de frio, como se trata o Natal, abre-se as portas das estações de metro dois dias esperando que o Inverno seja uma estação que também dure, apenas, dois dias; e todo o Inverno que sobra? o que raio se faz ao frio de todo o Inverno que sobra?... no Inverno que sobra deixam-se as portas de toda uma sociedade fechada não vá o frio que habita na consciência entrar-nos pela porta adentro.

4 comentários :

  1. Ao ler este texto veio-me à ideia que muitos dos sem abrigo recusam ajuda, não querem uma sopinha quente, muito menos tomar banho. Querem é ser sem abrigo. Não fosse a coisa tão séria e eu diria que cada um é p'ró que nasce.

    Natal? O que é isso inserido no contexto?

    Maria, excelência, vou ali tentar oferecer uma sopa a um sem abrigo que anda por estas bandas e que habitualmente recusa generosidades do alheio, a não ser daquelas (generosidades) que se chamam euros.
    A vida não está fácil mas tentar não custa. Até levo dinheiro trocado para a sopa. Caso ele a aceite, claro.

    Beijinho com votos de uma boa semana. De preferência sem contrariedades, mesmo daquelas que nos aparecem pela frente armadas em textos/comentários.

    Fui ...

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    1. Por isso é que existe por ali no texto acima, uma parte onde escrevo "pessoas que queiram ou não ser ajudadas", o facto de recusarem ajuda não invalida que se deixe pessoas num país dito de primeiro mundo a dormir na rua. É que um país dito de primeiro mundo é um país considerado mais desenvolvido e, sendo um país mais desenvolvido terá melhor qualidade de vida, que raio de desenvolvimento, que raio de qualidade de vida é essa que não consegue resolver o problema dos sem-abrigo? E olhe que somos um rectângulo bem pequeno de país, imagine este rectângulo ampliado umas quatrocentas vezes e nessas quatrocentas vezes o aumento de sem-abrigo crescer na mesma proporção. Pois! Que é como quem diz... pois!

      Se o caro Observador não entendeu toda uma dinâmica ao comparar um Natal com uma curta duração de dois dias, com o fechar as estações de metro apenas por uns míseros dois, três dias, também, quando o Inverno e o frio que se impõe é para aí uns quatro meses (+-), então isso está mesmo mal :))))

      (o que seria da vida sem contrariedades? pergunta na onda de retórica)

      Boa semana, caro Observador.

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  2. Primeiro: também não entendo embora pense que nessas cabecinhas pensadoras seja um péssimo bilhete postal para o turismo. Se já o fazem com os moradores nascidos e criados nos bairros de Lisboa quanto mais aos que estão na rua.

    Segundo: Os que querem ser ajudados já têm uma grande oportunidade e muitos já estão a fazer o que referes. Mas é pouco e os milhões que são perdoados (ou adiado o seu pagamento) ao futebol, investido neste flagelo dos sem-abrigo acho que seria bem melhor. Por aqui, todo o inverno há lugares onde podem passar a noite desde que aceitem as regras. À noite deixei-os de os ver na rua e indaguei e o que disse é verdade.

    Terceiro: Tens toda a razão e abrirem as estações apenas dois dias é completamente descabido e de quem nunca teve a noção de "dificuldades".

    Os anos que trabalhei em Lisboa conhecia e conversava com alguns deles. As histórias são as mais diversificadas que já tinha ouvido...ou pela falta de trabalho, por querelas familiares, por drogas e afins...enfim...ouvi-los fez-me crescer como "pessoa".

    Mas havia um especial e podes não acreditar mas é a mais pura verdade: especial porque era pai de um colega meu, filho único, bem na vida e quando morreu a mãe o pai largou tudo e foi viver para a rua. O que aquele rapaz fez pelo pai, daria para um livro, Todos os dias perguntava se o tinha visto na escadaria (antiga) do Rossio. Sentei-me tantas vezes junto dele e dizia-lhe para voltar para casa, pelos netos, pelo filho e nora e nada o demoveu. Um dia deu-lhe qualquer coisa e o filho conseguiu um lar onde acabou os seus dias.

    Como este há outros tantos. Sinto-me feliz por ter ajudado um jovem que dormia numa escadaria exterior de um prédio aqui bem perto. Deixei-o de o ver, e soube por um vizinho que tinha ido para o hospital. Um ano depois estava sentada no banco de um jardim e vejo um jovem cumprimentar, sentar-se e acreditas que não o reconheci? Resumindo a conversa disse que estava muito agradecido ao que tinha feito por ele e hoje era um homem diferente, trabalhava e voltou a viver com a irmã mais velha. O mundo Maria é tão pequeno...então não é que é irmão da minha viziha do rés-do-chão que mora aqui há meia dúzia de anos...e contou-me a mesma história que ele que me contava. Fiz o que pude e se todos nós - sociedade por vezes apenas com discursos e actos da treta - fizesse algo por quem mais precisa...julgo que o mundo seria bem melhor.

    Natal é todos os dias e faço o que posso...todos os dias!

    Beijocas e um bom dia

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    1. Fatyly, não sei se terá a ver com o turismo e com o facto de não passar uma boa imagem para o exterior de um país dito desenvolvido, o mais certo é também passar por aí, o que sei é que li comentários por esta Internet fora de pessoas que falam dos sem-abrigo como se de verdadeiros sacos de lixo humano se tratasse. Descartáveis, portanto. Ora, isto é de uma desumanidade de todo o tamanho, existem pessoas inadaptadas, pessoas que não sabem como viver num mundo em modo selva que é este mundo onde vivemos, e selva por selva preferem a rua onde não têm que cumprir regras (não sei se o termo preferem é adequado neste caso, provavelmente não), existe entre os sem-abrigo problemas de toxicodependência, de álcool, que os atira para a rua. Não se pode voltar as costas a pessoas com problemas destes, embora, e todos teremos noção disso, algumas, muitas mesmo, não queiram ser ajudadas. Será que não querem mesmo ou será que têm consciência que já não sabem viver como as pessoas ditas "normais"? Eu cá acho que é um problema daqueles muito complexos que Portugal tem de resolver o mais rapidamente possível.

      (pessoas tal como a Fatyly, que conseguem parar por uns minutos e, de alguma forma, ajudar os outros, são pessoas muito bem-vindas, precisa-se de muitas mais - eu admito que não sei ajudar dessa forma, mas ajudo de outra, existiam duas senhoras em Lisboa que passavam muitas dificuldades a quem, à minha maneira, ajudei durante muitos anos...)

      Tenha também um bom dia, Fatyly.

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