quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Hoje falo na primeira pessoa de assédio sexual

Fala-se muito de assédio sexual nos dias que correm, e ainda bem que se fala, é bom que se fale de forma a que as gerações futuras saibam como defender-se, já que gerações com todo um passado em cima provavelmente não o souberam fazer. Muitas pessoas não souberam, outras não quiseram, outras ainda não passaram por este tipo de assédio e é bom que também se saiba desse facto. Eu, pelo meu lado, passei também por isto e, de alguma forma, soube como proceder, não é fácil, porque não é, existe sempre aquela sensação de pânico de perder o trabalho pelo qual tanto se lutou de forma limpa, entretanto somos confrontados com uma situação que nos quer obrigar a entrar pelo lado mais sujo, coisa com a qual sempre me recusei a compactuar. 

Nunca fui mulher capaz de usar a minha feminilidade no sentido de obter algo de forma mais célere, para que as portas se me abrissem mais facilmente, para que alguma beleza, graciosidade, a existir beleza ou graciosidade, me facilitassem a vida, no entanto este mundo ainda muito dominado por homens em funções quase sempre cimeiras, não é um mundo fácil para mulheres com determinadas características que, para esse tipo de homens desperta todo um lado muito feio de ver. A verdade é que são quase sempre homens casados. Esse é um facto. Homens com poder e casados. Homens que querem ao mundo mostrar uma imagem de homens de família, homens de respeito, nos negócios esse é um factor muito importante, pelo menos em determinadas áreas, só que, lá no escurinho de uma vida toda ela aparentemente perfeita, esconde-se um mundo de vícios, frustrações, poder em forma de dinheiro, dinheiro, aquele que tudo compra, até a dignidade que não faz falta a muitos, mas que faz muita falta a outros que serão talvez menos.

Acho que se percebe - falo pela minha experiência - logo numa entrevista de trabalho, quando nos candidatamos a uma determinada função, e essa entrevista é conduzida pelo Director-Geral, pelo Presidente, pelo CEO, se se tem pela frente um homem capaz de mais tarde entrar por esse lado, o lado de tentar assediar, o lado, como alguns dizem de forma mais básica, de "lançar a escada", e percebe-se quando a entrevista dura mais do que é habitual, quando de alguma forma querem é perceber se a pessoa tem namorado (sim, aconteceu-me), se é casada, e coisas que não acrescentam nada ao facto de se ser a melhor candidata para aquela função. Algo que acabei também por perceber é quando fazem questão de nos acompanhar até à porta no final da entrevista e a conversa continua, não largam. Uma mulher percebe e é aí que se dá inicio a toda uma ansiedade, por um lado queremos aquele lugar, queremos uma vida de qualidade que só pode ser de qualidade se se trabalhar e aquele trabalho até é bem remunerado, no entanto, tem-se consciência que existe um lado que vai ser difícil de contornar. Só existem duas hipóteses: arriscar e logo se vê se se consegue todos os dias fintar esse lado, o que deixa a pessoa todos os dias num grande desgaste, ou desistir logo ali, quem sabe se a leitura que se fez está errada, ou quem sabe se com o tempo aquilo acaba por se desvanecer. Errado, muito errado, optar por ficar, por aceitar se formos as escolhidas, pressupõe todo um caminho para o qual só algumas estão preparadas, quero crer que estão, aliás, afirmo que estão e que sabem muito bem jogar o jogo das boquinhas, dos sorrisinhos, do traçar de pernas, dos almoços de vinte minutos num restaurante longe de determinados olhares,  das reuniões à porta fechada, das boleias para casa a horas mais tardias, até da oferta de apartamentos para encontros rápidos e tórridos com promessas de aumentos por boa prestação de serviços. Vi tudo isto acontecer, todos nós, os outros que sempre recusámos este caminho, vimos, e todos nós, também nos calámos, e todos nós sorriamos para a tal, ou as tais que eram aumentadas mês sim, mês não, porque todos nós tínhamos consciência que ao abrir a boca o resultado seria na semana seguinte estar na fila para o desemprego. E ninguém queria para si esse tipo de fila. Sim, todos nós, por vezes, somos cúmplices daquilo que todos nós, se pudéssemos escolher, jamais escolheríamos. Pois que sejamos muito bem-vindos ao mundo todo ele pintado de real. Tinta estragada, É o que há para todos nós.

12 comentários :

  1. Com todo o respeito pelo tema, deveras preocupante, tenho que dizer que temo muitíssimo mais o assédio psicológico. Podemos chamar-lhe, também, violência psicológica.
    Isso dói p'ra burro!

    Não estou a fugir a um eventual comentário. Apenas me custa imenso esta abordagem.

    A violência, tenha ela que formato tiver, merece ser severamente punida.
    Perdoará, Maria, mas não vou dizer mais nada.

    Um beijinho

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    1. Caro Observador, mas aí é que está, por detrás de um (eventual) assédio sexual, existe quase sempre, ,muito bem colado, disfarçado ou não, violência psicológica. A ansiedade que causa, o desgaste constante, o receio de se perder aquele emprego, pode, não só, levar a que a pessoa acabe por não ser profissionalmente irrepreensível por andar quase sempre em sobressalto, como pode levar a depressões, a isto de andar sempre de baixa, sim, muitas baixas são apenas para fugir a um problema que muita gente menospreza.. Ah e tal pode sempre despedir-se, poder até pode, mas o problema é que quando se luta para ali chegar, se consegue entrar sem cunhas, de forma limpa, digamos assim, apenas pelo currículo, ou pelo facto de ter o perfil exacto para aquela função específica, desistir é o último recurso.

      (acho que se refere, não tenho a certeza, a assédio moral no trabalho, algo também ele muito, muito grave, esse será tema para outro texto um dia destes, a seu tempo... ainda que eu ache que assédio moral pode também ser a consequência de um assédio sexual não consentido, não só, mas também)

      Beijinho para si também, caro Observador.

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    2. Referia-me, também, ao assédio moral. Coisa horrorosa no dizer de muita gente que tem passado por isso.

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    3. Pois, bem me quis parecer que o caro Observador se referia a assédio moral no trabalho, esse é um tema muito delicado, muita gente destruída por aí, muita gente que chega, inclusive, a tentar o suicídio. Raio de mundo este...

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  2. Sim o que descreves é real e como é real que muitas aceitam na boa e depois os "mandantes" julgam que tudo é "farinha amparo" para eles.

    Também já relatei noutro post (acho o tal de um vestido vermelho lá para os States) que passei algo semelhante com um director quando eu tinha 18/20 anos e reagi na hora, perante tudo e todos e saí com a certeza que no dia seguinte o "garanhão de meia tigela" iria fazer de tudo para me lixar a vida. Mas antes fui ao administrador e contei. No dia seguinte quem não apareceu e nunca mais voltou foi ele.

    Já cá assisti ao contrário um cargo superior faminino sobre um trabalhador masculino que era de facto um borracho. Claro que o ajudei...a tudo mudou para melhor e a "máaadammmeee" mudou de poiso.

    Hoje há imensa pressão (outra violência) em muitos trabalhos que leva ao desgaste fisico e emocional, mas são coisas diferentes do relatado no post.

    Beijocas

    Seu a cor da violência psicológica no contexto familiar e digo-te que dói para caramba, mas já passou há muitos anos.

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    1. Aí é que está, Fatyly, tocou aí num ponto muito importante e que as senhoras feministas na onda de fundamentalistas, parece não quererem saber, o facto de que muitas mulheres o "aceitam na boa". Para este tipo de mulheres o assédio sexual não constitui qualquer tipo de problema, antes é um jogo que não se importam rigorosamente nada de jogar. Conheci, conheço, muitas assim. Daí este disparate de disparar para tudo quanto é lado e acabar por se entrar em campos verdadeiramente ridículos de proibições e mais proibições. O mundo deve, e tem que ser, um espaço livre onde as pessoas também são livres de fazer o que bem entendem, desde que seja consentido por ambas as partes, se não for consentido aí é que as punições duras devem cair em cima de quem força outro alguém a fazer o que não quer, usando perseguições, ameaças, pressões de todo o tipo. Isto de separar águas é bom e recomenda-se.

      Depende dos locais onde se trabalha, Fatyly, nalguns locais, género empresas grandes, multinacionais, a coisa tem que ser feita de outra maneira, não se pode pôr a mão na anca e cá vai disto, temos de alguma maneira estudar como o fazer para que a existir prejuízo ele nos atinja o menos possível. Eu, no primeiro caso tive sorte, ao falar directamente com o Director em questão, e ao fechar a porta do gabinete para que mais ninguém ouvisse, não me apercebi que ali mesmo ao lado existia o gabinete de uma Directora com muito peso dentro da empresa, que era, digamos, a número 2 lá dentro, tudo o que eu disse ao tal homem-Director, portanto meu superior hierárquico, foi ouvido por ela, no dia seguinte chamou-me, conversámos, disse para não me preocupar que iria resolver tudo, e realmente resolveu - nesta primeira vez tinha eu 26 anos e ele 40 anos, um homem que era casado há 20. Lá está, são quase sempre, senão sempre, casados. Entretanto a coisa repete-se, só que a pessoa também vai amadurecendo e vai como que aprendendo a resolver as coisas sozinha.

      Com certeza que também existe assédio sexual no masculino, só que a história grita-nos que, neste caso, as mulheres foram desde sempre as principais vítimas, É como a violência doméstica, existe violência doméstica no masculino, claro que existe, só que, lá está, a percentagem de violência doméstica no feminino é, de longe, bastante superior, já para não falar de que as mortes que se têm vindo a registar nos últimos anos são de homens que matam as suas mulheres, ex-mulheres, namoradas, ex-namoradas, e não ao contrário. A maior parte das mulheres abandona, vai embora, quer recomeçar, enquanto que os homens não aceitam, perseguem-nas e matam-nas. É bastante diferente. Muito diferente, mesmo.

      Tenha uma boa noite, Fatyly.

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    2. Posso fazer uma pergunta à senhora Fatyly, a do 'TIR'? Onde é que ainda encontra farinha Amparo. É que adoro mas não consigo descortinar-lhe o poiso.

      Agradeço a cedência deste espaço para um devaneio meu :)))

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    3. (eu cá não me meto nisto... fui :))

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  3. TIR? Presente:)))

    Respondendo ao devaneio do Senhor Observador: encontrarás num Celeiro qualquer e se não for a Amparo encontrarás a 33:) que é quase a mesma coisa:)))

    Beijos amigo e obrigado Maria por cederes o teu espaço para "farinhas":)

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  4. No princípio era o verbo. Assim dito, de forma lacónica, a verdade parecia endereçada aos mais fortes. Fisicamente, é claro, que os argumentos na altura estavam muito ligados à física. Mas adiante.
    O tempo foi passando, com manifestações várias, e o oxigénio no cérebro a não escolher géneros. Manifestava-se, simplesmente. E, pecado dos pecados, o género feminino tinha consistência para lá do cozinhar, limpar e acasalar.
    Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, assim escreveu Camões. Mas não estaria, com certeza, a pensar no género. Isso só surgiria mais tarde, quando alguém de saias, de feitio mais arrojado, começou em colocar em causa toda a estrutura dum edifício mal construído. Houve apoios, houve desaforos – muitas vezes do mesmo local da barricada – mas o certo é que, passados muitos anos, e devidamente consignados na lei, a igualdade de géneros ganhou forma. Era, no entanto, o início de uma enorme batalha, travada na sombra, em que a herança duma educação de caçadores/guerreiros, transversal a inúmeras gerações, ganhara raízes profundas. E aquilo que, aos olhos de um observador externo – eles não existem, eu sei – deveria ser uma questão pacífica, tem-se tornado uma eterna luta silenciosa, com um desabafo estridente aqui e ali.
    Esta é uma luta que vale a pena, Maria.

    Um beijinho :)

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    1. Nem me atrevo a escrever o que quer que seja, ou atrevo-me muito pouco, porque melhor do que este seu comentário, é difícil, difícil de igualar. A explicação do que realmente é, ou foi, ou é novamente, o verdadeiro movimento feminista, o verdadeiro... do outro, aquele que tenta trepar paredes de qualquer jeito, sem olhar a meios, um movimento manhoso, fundamentalista, oportunista, esse, esse não interessa a ninguém.

      Muito obrigada, AC, é um prazer ler o que escreve.

      Beijinho para si também :)

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