domingo, 18 de fevereiro de 2018

Cada vez mais, entendo menos, frases como: "contribui para a normalização da homossexualidade"

Desde criança que convivo com homossexuais, mais concretamente um, um homossexual de quem a minha mãe era muito amiga. Homem ligado ao mundo das artes plásticas, nesse mundo a homossexualidade é algo dito natural, é um facto que a maioria não se assume mas por vezes dou comigo a perguntar a mim mesma qual a razão de alguém ter de assumir perante o mundo algo que só à própria pessoa diz respeito? Intimidade. Intimidade que nada mais é do que, algo que é nosso e sendo muito nosso, pertencendo a um mundo privado, mundo particular, não entendo a razão de uma pessoa ter de se expor e passar a ser público. Ficar ali para debate também ele público, discutido por todos e mais alguns, pormenores de uma vida que deveria ser apenas, e só, vivida, discutida, pelas pessoas que interessam. As envolvidas. As duas que neste caso serão do mesmo sexo. Até vou mais longe, por que razão as pessoas homossexuais têm de, como que pedir autorização à família em modo desculpem qualquer cosinha, mas, olhem, acontece que não somos tão normais quanto todos os outros. Dão licença ou vão expulsar-nos da família como se se tratasse de uma sujidade qualquer? Uma doença contagiosa, quem sabe!? Têm tempo, não precisam de dar uma resposta já, podem consultar a vizinha, o amigo mais próximo, o colega de trabalho, o senhor da mercearia e, quem sabe, se todos chegarem a um consenso, se fizerem o obséquio de consentir, de não nos condenarem, aí sim, podemos respirar de alívio e seguir com a nossa vida. E acho que para aquilo ficar mesmo nos conformes talvez devesse ser publicado no Diário da República. 

Dizer que não se concorda com a exposição da vida intima de alguém, não é, de todo, enfiar a cabeça na areia e fingir que o assunto da homossexualidade não existe, aliás, para mim é um não assunto. Não assunto porque não me diz respeito. Não assunto porque as pessoas deveriam estar preocupadas com as suas vidas, vidas sexuais também, que por vezes cheira a inexistente e deixarem-se disso de falar do que os outros fazem ou deixam de fazer debaixo de lençóis ou em cima dele. Portugal por vezes parece um pátio a céu aberto. Nunca o sexo foi tão sobrevalorizado como agora. É um género de 8 ou 80. Se lá no tempo dos meus avós falar de sexo era um tabu, agora a coisa chegou a um extremo em que toda a gente quer dar um palpite em relação ao que os outros fazem com as suas vidas íntimas.

Este texto nasceu porque se atravessou na minha frente um texto de Isabel Moreira em que escreve:
«Obrigada, Adolfo Mesquita Nunes»

Bem que eu gostaria de perceber aquele obrigada... E bem que me dava jeito não achar que normalização passa por cada um viver a vida sem ter de dar explicações acerca da sua vida íntima a quem quer que seja. Só que acho. Não me dá jeito nenhum.

8 comentários :

  1. Fui lá ler o artigo. E também não entendi. Sou de outra geração já passei os 70, e talvez por isso esteja ultrapassada, mas sempre pensei que a homossexualidade ou bissexualidade de cada um é coisa do foro intimo que só a ele diz respeito. No caso dos homossexuais admito que tenham de se expor para defender os seus direitos, no caso de serem discriminados pela sua orientação sexual. Tal como um qualquer bissexual tenha de se expor se foi, assediado, ou violado. De contrário, não percebo mesmo porque alguém há-de admitir em público que é isto ou aquilo. Às vezes penso se não se estará a tornar numa moda, vir para os jornais ou TV dizer que se é homossexual. O que é que nós temos com a sua vida intima?
    Abraço e desculpe se me excedi.

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    1. Não se excedeu em coisa alguma. A Elvira já deve ter percebido que gosto muito de conversar com as pessoas desse lado, daí por vezes os temas, um conversar em modo letras escritas. Neste aspecto não ter 20/30 comentários por post facilita-me a vida de 'blogar', se tivesse os tais 20/30 comentários por post, não conseguiria, era impossível, pelo menos para mim, responder individualmente a cada um, por vezes de forma mais longa, pormenorizada, às pessoas desse lado. Essa é uma das partes que mais gosto nisto de escrever, não é só escrever mas, depois, ler a reacção, aprender algo mais, reagir.

      Portanto gostei de ler a sua opinião, embora a parte em que a Elvira escreve que: " No caso dos homossexuais admito que tenham de se expor para defender os seus direitos, no caso de serem discriminados pela sua orientação sexual"... nesta parte a minha opinião não vai ao encontro da sua, a exposição poderá, eventualmente, trazer consequências para as quais muitos poderão não estar preparados, as pessoas são cruéis quando acham que ali existem trejeitos de gay, e por vezes ainda são mais cruéis quando têm a certeza no seguimento do próprio se ter assumido. Lembrei-me de repente do Malato, um dia destes li num blog de um homem já de idade, coisas que nos deixa, não só boquiabertos com as alarvidades, como com a sensação de que existem pessoas de idade que deveriam ser impedidas de ter blogs, já que a intenção é ofender outros daquela maneira, ironia das ironias, diz o tal homem-blogger-de-idade que é defensor do politicamente correcto. Pois, nota-se...

      Abraço para si também, Elvira.

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  2. Está provado que a homossexualidade não é uma doença, antes uma opção. Que não deve ser escondida mas sim encarada com seriedade. O que não significa a sua exposição ao mundo como de uma obra prima se trate.

    Isabel Moreira, fria e directa como sempre, aplaude Adolfo Mesquita Nunes. Não vejo mal. A menos que não se possa usar a sinceridade.

    Num tema que 'tem pano para mangas', por hoje é só o que me oferece dizer.

    Beijinho, Maria, com votos de um bom dia.

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    1. Caro Observador, permita-me que discorde na parte da "opção" (com muitas aspas), a homossexualidade não é algo que se escolha como se escolhe comer uma maçã e não um pedaço de bolo de chocolate, a homossexualidade - ou outra orientação sexual qualquer, orientação no sentido de informação, característica - é algo que nasce com o ser humano, ou do ser humano. Crianças muito pequenas já sabem que são diferentes desde muito cedo, não percebem é o facto de serem diferentes, penso eu, E sendo por aqui uma criança estando em formação, ainda não tem esse tal discernimento para escolher isto e não aquilo. Se fosse por aí muitos pais teriam muitas "culpas" (este "culpas" com todas as aspas possíveis e, também, imaginárias), não teriam ensinado correctamente os seus filhos a bem escolher. Acho que a media precisava de fazer debates bem sérios acerca destes assuntos, debate-se tanto futebol, no entanto pouco ou nada se debate destes assuntos que incomodam, talvez seja difícil conceber para a grande maioria dos homens que entre os jogadores de futebol a homossexualidade também existe, e ó se existe, no entanto, lá está, não têm de forma alguma de anunciar se o são ou não, o trabalho de um jogador de futebol é jogar futebol, a vida íntima fica na esfera da vida íntima, só aos próprios diz respeito.

      Sinceridade. Hummm...

      Beijinho para si também, caro Observador, tenha também um bom dia :)

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  3. Muito sinceramente não entendo esta atitude, esta exposição, a revelação, de Adolfo Mesquita Nunes. Pessoa com quem simpatizo e que gosto de ver opinar/debater como comentador Esquerda-Direita da SIC Notícias.
    O que me interessa saber do Adolfo não é de modo nenhum sobre a sua vida privada. A intimidade dos outros é para mim um não assunto, não me diz respeito.
    Resta acrescentar que não muda nada.
    Votos de uma boa semana, Maria Madeira. :)

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    1. Pelo que li, o despoletar desta situação, o assumir-se, teve a ver com um cartaz/outdoor que teria sido vandalizado, alguém teria escrito no cartaz a palavra gay, nestes casos e noutros semelhantes, tendo conhecimento, o que se procede de imediato é à substituição do mesmo, coisa que Adolfo Mesquita Nunes disse que não faria qualquer sentido visto que aquilo até era verdade, ou seja, era gay. A postura até é de alguém que prima pela transparência, é correcta, só que na minha forma de ver as coisas e, sendo eu a visada, por exemplo, não diria rigorosamente nada. O cartaz até se manteria, quem soubesse ler nas entrelinhas, a tal mensagem subliminar, leria, quem não soubesse ler que cuidasse da sua (sua, delas) vida que provavelmente precisará de mais atenção. A intimidade é coisa nossa, não tem que levar qualquer carimbo de aprovação de gente que não conhecemos de lado algum. Aliás, nem sequer tem que levar carimbo de aprovação da própria família.

      Obrigada, Té, pela sua opinião, gostei muito de ler.

      Boa semana :)

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  4. Começo por dizer que está comprovado cientificamente que a homossexualidade nasce com o ser humano, portanto é genético. Não me incomoda nada quem dá a conhecer a sua homossexualidade, problema deles ou delas porque para mim "é um não assunto" e há que respeitar. O que me assusta e preocupa mais é o que é logo escrito no início do artigo da Isabel: referindo a rejeição da família o que para mim ainda hoje ocorre e conheço vários casos. Quanto ao resto do artigo considero "palha" porque o homem é do CDS que se rege pelo que sabemos e lá porque teve algo escrito nos cartazes políticos (julgo que foi este homem) sentiu a necessidade de??? Tirem-me deste filme, porque não me diz nada um assunto da sua "intimidade".

    Tive colegas e amigos que o eram e nunca por nunca os descriminei no quer que seja. Quantas vezes almocei com eles e elas e os respectivos companheiros(as)...e recordo-os com saudade!

    Fomos de facto do 8 ao 80 em tudo ou quase tudo e nunca se falou tanto de sexo ou sexualidade como se todos fossemos "burros ou desinformados".

    O "8" era praticado na geração da minha mãe e pai até quando um filho já homem dar um beijo ao pai era logo motivo para, enfim! Com o crescer dos filhos a coisa foi-se amaciando mas a informação que havia era muito escondida pela ditadura, mas eles sempre falaram muito com todos nós. Também havia a velha máxima: seria preferível ter uma filha mal casada do que encalhada...estás a ver bem como eram esses tempos?

    O "80" a paranóia de divulgação cansativa do quer que seja, temo que possa causar a "banalização, algo de pouco interesse" destronando por completo a informação/educação às crianças e jovens. A coisa está a tomar umas proporções tais, que, pelo menos para mim, é um contributo para o aumento da violência nas crianças e jovens. Crianças que repetem o que ouvem em casa e jovens fechados numa concha por não poderem verbalizar o que sentem.

    Para terminar: Há pais que condenam e conheci uns que diziam à boca cheia "se fosse meu filho fazia isto e aquilo" e eu sempre a dar para trás. Pois é Maria tinham dois rapazes e uma rapariga e um deles e ela eram e com quem falaram primeiro? Comigo. Pôxa foi duro e lá fiz de mediadora e foram aceites pelos pais (ele um pouco mais cabeça dura) mas mudaram e aceitaram e são todos uma família linda!

    Beijos e um resto de boa tarde



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    1. Fatyly, a mim também não me incomoda, apenas acho que tudo o que pertence à esfera da intimidade, é na esfera da intimidade que deve ser mantida, uma opinião apenas. Aliás, comecei logo o texto escrevendo que desde criança que convivo com homossexuais, ou um em particular, entretanto nos almoço em casa deste amigo da minha mãe acabei por conhecer homens e mulheres com a mesma orientação; quando se cresce desta forma, com uma mãe que não faz qualquer tipo de discriminação deste género - o meu pai normalmente não diz nada, percebe-se que fica um pouco desconfortável, mas não insulta ninguém - com certeza que era quase impossível eu ser homofóbica.

      Tocou aí num ponto muito importante: a banalização.

      Ah, mas este país é pródigo na arte da dissimulação, na arte de bem saber "hipocrisar", ou seja, pela frente muitos sorriem, dizem que sim senhores, que não são isso de preconceituosos, no entanto lá nas suas casinhas, de luzes bem apagadas e persianas corridas, dizem cobras e lagartos dos homossexuais. Não nos iludamos, existe neste país uma parte que é sol e uma parte que é sombra, sombra nada boa, diga-se de passagem.

      Tenha também uma boa tarde, Fatyly :)

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