quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

(vim a correr dizer às pessoas grandes em idade, que o mundo não se divide em pessoas boas e pessoas más)

Quando uma pessoa tem uma idade que ronda os cinco anos, vem de lá uma senhora que se chama Mãe, daí se deduz que todas as mães usam exactamente o mesmo nome, a única coisa que mudará, porventura, é a cor do cabelo, ainda que eu tenha sérias dúvidas em relação a esse periclitante facto, bom, dizia eu que, na idade dos cinco anos contam-nos a história do capuchinho vermelho e do lobo mau, uma história entediante em que as carochas são sempre as boazinhas e os lobos são sempre os maus da fita, ou do bosque, neste caso. Ora, eu tenho muitas coisas para dizer sobre isto e, agora, que já sou aquilo de adulta, posso falar à vontade de lobos e de carochas boazinhas.

Primeiro, provoca-me  urticária daquela a valer que gente adulta ainda divida o mundo por pessoas boas e pessoas más, até os termos usados são de uma infantilidade de todo o tamanho, o mundo, até ver, é constituído por gente boa com variadas nuances a cheirar a leite azedo, embora magro, e gente gangrenosa com outro tipo de  nuances de cheiro a alfazema depois de borrifada com água daquela que cai do céu. É o mundo, é assim que ele é feito, por muito que nos custe acreditar. Mas a malta é forte, tenho fé na fé da malta, portanto, é fazer força que a coisa dá-se. Dá-se fé. Ou empresta-se, para o caso é indiferente.

Tem dias em que o mundo é todo ele lindinho, tem sol que aquece ora um pé, ora outro, provoca-nos pensamentos bons e toda a gente sabe que pensamentos bem podados originam causas magníficas, nesses dias o mundo vale a pena; nesse dia... mas a malta dorme e já está no dia seguinte e no dia seguinte os pensamentos terríveis tendem a invadir os campos verdejantes e aí ceifam tudo, até uma joaninha voa-voa, ou mesmo duas, se for terrível a valer ceifa todas as joaninhas e o mundo tristinho chorará a morte das joaninhas sabendo ele, lá para dentro de si próprio, que foi o causador de todo aquele genocídio, ou joanocídio, é como se quiser. O mundo nesses dias pinta-se com o sangue derramado de todas as joaninhas e joãozinhos que ora voam, ora saltam e, ora tombam. Olhai atentamente o mundo nessa hora, continua a avançar. A avançar. E pula e ri e por vezes até lhe dá para soltar gargalhadas. Indiferente. 

Isto tudo para concluir e enviar - com selo bem colado no sitio que pode ser o certo ou não - às pessoas que acreditam na divisão do mundo por pessoas boas e pessoas más, que não se metam nisso, vão perder quase de certeza. Entretanto não fica bem na fotografia uma pessoa adulta de bibe, soquetes e laçarote nos caracóis. Bom, se me desse para divagar sobre estas últimas palavras veriam as nuances que se podem colar por ali.

(vim a correr e com esta correria toda caí do título abaixo, no entanto espero ter chegado a tempo, não vão as pessoas grandes em idade morrer assim meio iludidas e pensando que no mundo só existem duas cores: o preto e o branco - para minha total satisfação também existem pintinhas e quadradinhos turquesa cor de verde, verde seco rejuvenescido, amarelo que se recusa a desmaiar e azul ora arejado ora ressuscitado)

- / -



Ah, está tudo explicado, 
mulheres boazinhas não enriquecem,
as que enriquecem são as mázinhas com capuchinho vermelho,
com ar de cordeiro, dentes brancos e perfeitos de lobo
lobos daqueles que vivem nas profundezas de um bosque sem luz,
mas com aquecimento central e
sapateiras cheias de sapatos de sola vermelha para fazer pendant com o capuchinho vermelhinho.

10 comentários :

  1. Só uma coisinha, excelência: não tenho dúvida em afirmar que há pessoas boas e pessoas más.
    Estamos a falar de seres humanos, certo?

    'Mulheres boazinhas'? A minha vizinha do 5º esquerdo, a quem não me refiro há muito tempo, prefere chamar-lhes boazonas. Vá lá saber-se porquê.
    Ahhhh, quais delas enriquecem com mais facilidade?

    Caramba, de vez em quando dá-me para fazer perguntas estranhas :)))

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    1. O caro Observador por acaso não é primo direito daquele senhor que proferiu aquela frase: "eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas", não?

      É que eu sendo muito afastada do senhor em questão, e pelo que a vida já me esborrachou na cara sem dó nem piedade (este foi o meu momento drama queen), afirmo sem qualquer hesitação que existe gente dita má com coisas boas e existe gente muito boazinha com coisas que é melhor nem sublinhar pelo mau cheiro que exalam. Ah, pois! São as tais nuances de que muita gente se esquece. É uma vida que não se pinta unicamente a preto e branco.

      (nunca percebi o que é isso de mulheres "boazonas" e falo muito a sério, portanto eu cá agradeço explicação e respectivo croqui na onda do básico para pessoas de compreensão lenta. Eu, portanto :))

      PS: Tem de mudar de cor de limão, passe de amarelo para verde sff, é que isso dos comentários anda pela rua da amargura (ahahahah)

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  2. Quando a lucidez se enfeita de ironia e se socorre de boa escrita, o efeito é incrivelmente bom. É o caso.
    Parabéns, Maria, adorei!

    Tenha uma boa noite :)

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    1. AC, muito obrigada, pela simpatia e porque sei que se dá ao trabalho de ler e analisar textos. Isso é muito raro por estes dias.

      (eu, pelo meu lado, cada vez encontro mais prazer nisto de escrever, talvez essa parte passe para esse lado, escrever faz-me feliz, lá está, não se precisa de muito para sentir bem-estar; um café, sol e letras escritas que se podem ler)

      Tenha um bom fim-de-semana :)

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    2. Maria, hoje em dia sabemos muito sobre determinadas coisas mas, estranhamente, continuamos, de forma mais ou menos genérica, a comportar-nos como se fôssemos reis e senhores do nosso quintal, com visões e comportamentos à medida. É evidente, para todos, que o ser humano é imperfeito. E em vez de tentarmos esbater, a cada dia que passa, a nossa imperfeição – esse deveria ser o desígnio colectivo – tendemos a formar guetos, intolerâncias, que se acentuam à medida que crescem as desigualdades, socorrendo-nos, amiudadamente, de palavras com um peso muito forte, delimitadoras de fronteiras e, como tal, redutoras: bom e mau.
      Tendo em conta que todos nós temos consciência da nossa imperfeição (caramba, sinto-me tão imperfeito!) dispenso-me de mais considerações.

      Um beijinho :)

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    3. Será, mesmo, AC, que todos nós temos consciência da nossa imperfeição? Quer-me cá parecer que esse é um exercício que dá muito trabalho, a auto-análise, se vivemos tempos dados ao imediatismo, em que tudo tem que ser breve, rápido, para ontem, as pessoas não têm tempo a perder com o supérfluo (supérfluo, entre aspas, evidentemente).

      Beijinho para si também :)

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    4. Falo por mim, Maria, que tento fazer a minha parte - há muito que defini o meu percurso - longe de mim suportar os pecados do mundo. :)
      (Estranhando a sua réplica, como que de sobreaviso, sou levado a ler o meu comentário anterior. E constato: de tão sintético que pretendo ser, por vezes as palavras que deixo poderão dar azo a entendimentos contrários, talvez por omissão da minha parte. Dito isto, aqui fica: o ser humano é, desde sempre, um ser imperfeito, sempre disponível para explorar fraquezas alheias, salientar vaidades, obter o que deseja a todo o custo. A partir daí, é só ver o percurso da história. Os contextos foram mudando, os adereços acompanharam a onda, a essência é que ficou sempre aquém, perdida em conflitos pré-históricos... E, lamentavelmente, em pleno séc. XXI, a discutir formas e feitios de vestir, baseados no ter, continuamos a ocultar, debaixo do tapete, aquilo que nos deveria preocupar em melhor ser.
      Será que, desta vez, fui suficientemente claro? :)

      Renovo o beijinho, Maria :)

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    5. O seu comentário anterior está muito bem, AC, eu percebi, só que parei um pouco mais no último parágrafo, naquilo da consciência a par com a imperfeição, reportando-me ao que me é dado a observar no dia-a-dia.

      Obrigada por ter acrescentado, não tenho como não concordar com o que escreveu neste último, "ocultar, debaixo do tapete" é basicamente o resumo do que se passa em pleno séc.XXI. Parece que tudo é mostrado, que nunca ouve tanta transparência como agora, mas estou em crer que o ser humano apenas apurou a nobre arte de bem saber manipular. Não interessa ser, interessa, isso sim, ter, e se para ter cada vez mais é necessário parecer aquilo que não se é, manipular cada vez mais, então todos os valores estão trocados. Para além de imperfeito, o ser humano carrega todo um lado negro que, vai lá vai.

      (muito, muito claro :)))

      Beijinho e bom domingo, AC :)

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  3. Li e reli e chego sempre ao ponto, ponto que é feito do que sinto, vejo e sou: Todo o ser humano tem um lado bom e outro mau. Mais, nem imaginas como embirro com os "inhas e os inhos":)

    Tenho-me como uma mulher bem resolvida (nunca subi na vida à custa do que se sabe), lutadora...mas perante algo com que não concordo, apontando para os lados da falsidade, desonestidade, amizade e palavras balofas...fujam:)))

    A vida tem tanta coisa boa, bonita e tanta gentinha que se dizem "inhas" só querem que vejamos o lado negro e aí teimo em continuar a ser quem sou e pego num pincel...e não sei por que razão parei num poema que gosto muito:

    "Para fazer um retrato de um pássaro de Jacques Prévert".

    O livro que mostras já o folheei:) e sinceramente dispenso!

    Beijos e um bom dia super gelado:)

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    1. Exactamente, eu também acho que é por aí, um lado bom e um lado mau a conviver dentro da mesma embalagem, embalagem que se chama corpo, agora, talvez as quantidades de lado bom e lado mau é que provoquem a diferença nas pessoas. É tudo uma questão de saber, ou querer, ou talvez aprender, a dosear.

      (a parte dos "inhos" e "inhas" foi propositado, neste texto tinha mesmo de ser, é a tal ironia que muito me aquece a alma :))

      Ora, a Fatyly tocou aí num ponto essencial, a parte de pessoas que "só querem que vejamos o lado negro", é fugir delas por uma questão de preservar a nossa sanidade mental, não quer dizer que a vida não tenha o seu lado negro, porque a bem dizer tem e de que maneira, mas fazer questão de lembrar aos outros em todos os segundos da existência sempre o lado negro é, morte certa, lenta, mas certa. Sentido de humor é necessário para o equilíbrio, muitos esquecem-se desse pequeno grande pormenor.

      Tenha também um bom dia, Fatyly :)

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