sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Uma história que tem como protagonista a H&M, carneirada até dizer chega e uma camisola lindinha para forrar o caixote de lixo

No dia em que deixarmos de nos papaguear, ou seja, no dia em que deixarmos o modo carneirada e conseguirmos pensar pela nossa própria cabeça, esse, será, decididamente, o dia em que o mundo começará a mudar. Até lá, não continuaremos na mesma como a lesma, continuaremos um pouquinho mais devagar, se é que isso é possível.

Começo por escrever que não sou cliente da H&M, nunca fui e não pretendo ser, não é marca que me diga alguma coisa, não é marca que me seduza, não lhe encontro grande qualidade, é provavelmente das poucas lojas onde nunca entro sempre que me desloco a um qualquer centro comercial. Dito isto sinto-me completamente à vontade, com total liberdade, para me pronunciar sobre um assunto que não me belisca, ou seja, se eu tivesse um qualquer acordo publicitário com a marca, obviamente (por favor pintar este obviamente com ironia bem escura) que não iria dar um tiro no meu próprio pé, iria com toda a certeza defender a marca usando de uma parcialidade que não se quer. Eu pelo menos gosto de gente imparcial, e quando se gosta de gente imparcial seja em que área for, é porque nos movimentamos com o mesmo tipo de política. 

Dito isto vamos a isto e à polémica em torno de um miúdo negro - sim, eu digo negro, não digo preto, aliás nem negro nem preto digo, tenho este péssimo hábito de não rotular pessoas, normalmente chamo-as pelo nome próprio, sei, sou uma extraterrestre, uma extraterrestre assumida. Tal como não digo aquela gorda, tal como não digo aquele paneleiro (peço desculpa por o termo usado), tal como não digo de uma criança com síndrome de Down ou trissomia 21, a atrasadinha mental, tal como não digo de uma criança disléxica que é burra... 

As pessoas, sejam elas crianças, sejam elas adultas, têm nome e têm problemas, muitas delas têm defeitos que podem passar por ser físicos, mentais; doenças que podem passar por as limitar de certa forma; heranças de um passado com um peso e uma carga demasiado pesada, demasiado pejorativa, se é que o termo pejorativo já não engloba em si todo um efeito devastador, e essas heranças quer queiramos quer não ainda se fazem sentir em pleno séc.XXI, falo de racismo, mas também poderia falar de homofobia, xenofobia, e outras fobias escondidas no politicamente correcto. Somos, quer queiramos quer não, um país que se esconde no politicamente correcto, a verdade é que acho que, nós, os portugueses, e sim, uso o plural porque enquanto o número de pessoas homofóbicas, xenófobas, racistas e por aí fora, for superior ao que um país dito de primeiro mundo deveria comportar, então o uso do plural terá o seu lugar cativo, um lugar que a meu ver nada dignifica.

Por muitos discursos politicamente correctos neste onda: vejam lá que eu até tenho um amigo/a que não se importa que eu lhe chame preto/a. Ou: vejam lá que eu até sou homossexual e rio imenso quando alguém me chama paneleiro (peço desculpa novamente pelo termo, mas se as pessoas insistem que se deve chamar os bois pelos nomes, quem sou eu...), tenho um enorme sentido de humor. Ou: vejam lá que eu sou cadavérica, muito muito magra mesmo, e acho imensa piada quando alguém me chama anoréctica, aquilo para mim não é um insulto, é um elogio, ser magra nos dias que correm é um must. Ou: vejam lá se eu me importo que me chamem gorda/o, os gordos são as pessoas mais bem dispostas do mundo, acrescendo o facto de poderem comer tudo o que lhes apetece. E outras coisas semelhantes....

Quando somos aquilo de 'normais', o que é que ser normal queira dizer, e até somos adultos, logo podemos fazer as nossas próprias escolhas, escolhas do género: queres chamar-me gordo, estás à vontade... Queres chamar-me preto, estás à vontade... Queres chamar-me de atrasado mental, estás à vontade... Se sou adulto... estou à vontade para o permitir. O que não se pode nunca fazer é vestir uma criança negra com uma camisola e uma mensagem que diz 'o macaco mais fixe da selva', porque a criança vai ser humilhada, a criança por ser criança não vai saber lidar com a situação, e ironia das ironias, por a mensagem se encontrar escrita em inglês, provavelmente vai ser gozada e humilhada por adultos, e isso, meus senhores e minhas senhoras que querem defender a marca H&M, não se faz. 

Sim, foi pura estratégia de Marketing - o falem bem, falem mal, mas falem de mim. Ah e tal e as pessoas por detrás da marca entrariam em tal coisa? Não são assim tão burros! Pela forma como muitas marcas gerem o seu negócio nos dias que correm eu tenderia a confirmar a parte de serem efectivamente burros. Que tal uma nova camisola com a mensagem - desta vez para adultos - nesta base: somos burros, mas como somos fixes não nos importamos.

(esta imagem não está desfocada, é assim mesmo)


(quem quiser ler a notícia é entrar por aqui)


6 comentários :

  1. Nos meus tempos livres e logo pela manhã leio as notícias onde incluo o jornal Observador. Ao deparar-me com esta pensei na cabecinha pensadora de tal publicidade sueca que já não é a primeira vez que se mete em barracas ou faltas de TUDO e logo com uma criança, Mas pesquisando e querendo ir sempre mais longe ao "outro lado da barricada" para saber a reacção dos pais e eis que me deparo com isto e digo-te Maria que como mãe, pelo menos para mim poderia fazer duas leituras: a monetária já que o puto é modelo e lindo de morrer ou porque já está habituada e o educa no "não ligues és como és e mais nada". Segue este link:

    http://www.sabado.pt/vida/detalhe/mae-de-rapaz-comenta-fotografia-da-hm-polemica

    Também pensei e aqui sorrio, que esta matéria com toda a certeza iria ser debatida por ti e adorei o texto com grandes verdades e que subscrevo inteiramente.

    Quanto ao teu "que tal? - "somos burros, mas como somos fixes não nos importamos." eu acrescentaria aos "burros" a palavra "ricos"! Nunca comprei nada na H&M e sei apenas que é sueca e vende p'ra caramba.

    Um resto de uma tarde tão cinzenta e fria...apre!




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    1. A notícia saiu em vários jornais/revistas, fui buscar o jornal Observador porque é o primeiro que está na minha base de dados de jornais, calhou, normalmente leio quase todos.

      (a H&M é uma marca fraca, na minha opinião, talvez mais acessível para muitas pessoas, mas mesmo assim prefiro ter menos e razoavelmente de qualidade (basta aproveitar os saldos e fazem-se compras excelentes para quem tiver paciência), a acumular e acumular, encher roupeiros, sapateiras, de roupa, sapatos que duram muito pouco, gasta-se mais dinheiro. Aliás, sou uma mulher um pouco diferente do habitual no que a compras diz respeito, chateia-me andar sempre nas compras e detesto acumular. Gosto de casas e de roupeiros que consigam respirar. Acumular tralha não é comigo)
      ...

      E a Fatyly por acaso esperava outra resposta da mãe do miúdo? Eu não. Não me surpreendeu nada, antes pelo contrário. Ora, se a própria mãe está a lucrar com o filho, ganha dinheiro, obviamente, volto a sublinhar, obviamente, que defende a marca. Se me dissessem que o miúdo era adolescente, com uma idade que lhe permitiria, mais ou menos, usar de discernimento e aí dizer: sim senhores, não me importo nada de usar uma camisola com esta mensagem, aguento com tudo o que porventura me disserem, me cair em cima, até vou achar piada... - nada contra, agora, quando são os próprios pais a vender os filhos ainda crianças, a atirá-los para a selva, estamos num caminho todo ele cheio de luz.

      A maior parte das pessoas que defende a marca, e diz que isto é uma polémica sem razão de ser, ou são comprados pela marca ou estão a querer tapar o sol com uma peneira. Portugal é, efectivamente, e infelizmente, um país que, se pudesse, erradicava homossexuais, transexuais, não deixava entrar no país estrangeiros, e afastava tudo o que fosse cigano, chinês, preto ou negro, é como queiram. O que se passa é como somos muito eficientes naquilo de sermos hipócritas, sorrimos pela frente, damos palmadinhas nas costas uns dos outros, quando voltamos costas entre dentes dizemos: olha-me este paneleiro... olha-me este macaco... olha-me este chinoca que devia era mas era voltar para o país dele... É a dura a verdade? Pois é! Por isso é que veste a capa do politicamente correcto.

      Admito que me custou um pouco escrever no plural, não me identifico com isto de dizer uma coisa pela frente e outra por trás. Vivo num país assim, e enquanto viver num país assim, embora adore este país e muitas pessoas que por cá vivem, vou tentando adaptar-me, o que não é fácil. A hipocrisia rebenta comigo. Bolassssssss.

      Bom fim-de-semana, Fatyly :)

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  2. No mundo da publicidade vale tudo, dizem. Talvez por isso (mas não só) irritam-me certas formas de publicitar.
    O que não posso deixar de dizer é que quanto pior fôr o conteúdo da coisa, mais a malta fala dele (conteúdo) ou dela (coisa).
    Se a rapaziada apenas valorizasse o que é bem feito - sim, existe publicidade bem feita - e desancasse nos chicos ditos espertos que nos impingem a vulgaridade e até o mau gosto, não duvido que tudo seria diferente.

    Não posso deixar de referir, pela negativa do meu ponto de vista, a publicidade que a caríssima Maria faz ao referir o "Observador porque é o primeiro que está na minha base de dados de jornais (...)".
    Ai 'balham-me' os deuses todos e mais alguns!!!
    Vossa Excelência terá os seus gostos mas ... o pasquim electrónico mencionado quase que atira para a valeta todo e qualquer conteúdo que noutras paragens informativas mereceriam algum crédito.

    Pronto, lá me desviei do essencial. Por momentos quase imitei o tal jornalzito online. Mil perdões por isso.

    Quanto ao essencial deste seu texto, ser-me-á permitido não dizer nada.
    E agora ... fui que se faz tarde! :)

    PS: não se zangue que a vida são dois dias!

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    1. Caro Observador, este tema pareceu-me importante e interessante ao mesmo tempo, se reparar bem não se trata só de um miúdo negro a quem alguém resolveu vestir uma camisola onde existe o termo 'macaco', o estar ao lado a palavra 'fixe' não anula rigorosamente nada o verdadeiro sentido da coisa (só gente a querer atirar areia para os olhos da malta), é só andar por aí nas ruas, estar atento ao que a malta nova, e não só nova, mais velhos também usam quando querem insultar malta nova negra, o termo usado passa também por 'macaco'. Isto vem de trás, se formos lá atrás e mergulharmos na história percebemos sem grande esforço que o termo é do mais pejorativo que existe. A maldade não está na cabeça de quem vê nesta mensagem algo de racista, a maldade encontra-se lá, o oportunismo também, a falta de sensibilidade. O que conta nos dias que correm é atropelar, é lucrar o mais possível, é dizer disparates tão grandes quanto os que fui lendo por ai, como este: se se vestisse a camisola a um miúdo branco, então já não fazia mal? Será que alguém consegue responder a isto, é que para mim é uma resposta mais do que óbvia.

      Um teste bem feito, como também li num comentário de um homem muito lúcido num jornal online, era colocar toda esta gente que defende esta marca porque muitos deles estão a ser patrocinados pela marca, com filhos negros, assim de repente, entretanto obrigar as mãezinhas e os paizinhos a vestir os seus filhotes com mensagens deste género. Era interessante ver a reacção, ó se era. Eu cá pagava para ver.

      Algumas figuras públicas com contratos com a H&M, já vieram a público informar que recusam continuar a trabalhar com a dita, Pois, porque será? Alguém precisa de travar gente imbecil. Haja quem...
      ...

      Quanto ao jornal Observador, é um jornal onde trabalham bons e maus jornalistas, exactamente igual a outro qualquer, E não tente o caro Observador dizer mal porque alguns rotulam-no como um jornal de direita. Eu cá não sei nada disso. Caramba, se uma pessoa fosse por aí, ler isto ou aquilo por ser de direita ou de esquerda, provavelmente não leria coisa alguma. Sou pela diversificação. Gosto de ver tudo sob o ponto de vista de pessoas, sejam elas de esquerda, sejam elas de direita. Abre-nos muito mais os horizontes (eheheheh).

      PS: Eu cá acho que as pessoas deveriam participar mais nestas coisas, dar mais a sua opinião, só assim se consegue ir mudando situações que precisam de ser mudadas. Urgentemente. E também acho que nos devemos 'zangar' mais, exactamente por a vida ser dois dias, pelo menos nesses dois dias que o aroma seja a limão e gengibre fresco e não a limão assim com um tiquinho a podre ;)

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  3. As frases que as t-shirts ostentam já deixaram de me escandalizar pois algumas roçam o indecente. A frase não causaria mais do que um sorriso, se o modelo fosse loiro e de olhos azuis. Porque para se andar na selva, não é necessário ir para África, não fora a atual vida citadina uma autentica selva. Posto isto, penso que não é a frase que é ofensiva, sim a escolha do modelo.
    Abraço e bom fim de semana

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    1. Desde que as frases/mensagens estejam em t-shirts, camisolas, sweat-shirts e por aí fora, de gente adulta, gente que as escolhe e as compra de livre e espontânea vontade, nada a dizer, é-me indiferente, por isso é que são designados de adultos, agora, a partir do momento em que é uma criança que a veste porque um adulto, ou vários, assim impuseram, assim quiseram, aí, o caso muda de figura.

      (não sei se sou eu - pelos vistos não sou, e ainda bem - mas algo me diz que estamos a atingir um ponto de um deixa andar talvez sem retorno, e isto escrito por alguém, eu portanto, que nem sequer sou dada a pessimismos)

      Tenha também um bom fim-de-semana, Elvira.

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