quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

(diz que, um país rico não é aquele em que os pobres andam de carro, é aquele em que os ricos andam de transportes públicos - falemos de aumentos)

Começo pelo inicio só para fazer pendant com este dia três de um ano que, dizem, é novo. Obrigam uma pessoa a acreditar que o ano é todo ele novinho em folha mas os tais dos aumentos logo nos primeiros dias do ano é que já têm barba branca, comprida, a arrastar pelo chão. Contradições feitas à maneira por quem pode e quer usar de contradições feitas à maneira. 

Avancemos com cautela q.b. e sem caldos de galinha que é coisa com muita sal capaz de ser taxada só naquela de se preocuparem muito com a nossa saúde, não a saúde financeira, claro está.

Muitos dos aumentos no inicio de cada ano são quase sempre justificados com um: 'a subida respeita a inflação...' pois, mas será que também respeita, neste caso específico, a qualidade dos serviços? A qualidade dos próprios 'tócarros' e das 'caminetas'? 

Vejamos as dúvidas que me assistem:
  • Os horários são  respeitados ou as pessoas ficam uma hora à espera de transporte debaixo de chuva ou a esturricar ao sol? 
  • E, à noite, a coisa é mais rigorosa? Ou alguém que trabalhe num centro comercial, por exemplo, que saia do seu trabalho por volta da meia-noite - ou num outro emprego qualquer que implique a saída a horas tardias - fique ali na paragem a aguardar pacientemente, não para ser assaltado, mas talvez, quem sabe, com um bocadinho de sorte, venha a ser?
  • E são compatíveis com horários de outros transportes? É que existem pessoas que precisam de apanhar três ou quatro transportes para chegar ao trabalho de manhã  e entretanto para voltar a casa no final do dia.
  • E limpeza? Já existe um qualquer sistema que limpe condignamente aqueles assentos diariamente? Ou será que 'é p'ra amanhã como diz a velhinha canção de António Variações? Eu cá acho que a falta de limpeza, ou uma limpeza muito débil nos transportes públicos é uma questão de saúde pública, mas pronto, tenho esta mania de pensar coisas muito estranhas.
  • Já agora, quem foi a cabecinha muito pensadora, deveras pensadora, que acabou com as janelas de abrir nos autocarros impedindo assim que os espaços sejam ventilados, arejados? Ora aqui está também um caso de saúde pública, entretanto pedem às pessoas para se vacinarem, coisa que acho bem, só que existem pequenos gestos no dia-a-dia que ajudariam e muito à não propagação de gripes e constipações. Ah e tal as pessoas podem tentar suicidar-se atirando-se das janelas dos autocarros. A sério? Vê-se bem que quem inventou esta coisa de janelas que não abrem nunca andou de transportes públicos. Aquilo eram janelas tão pequenas que só se a pessoa primeiro se cortasse aos bocadinhos e fosse atirando os bocadinhos pela janela fora numa qualquer tentativa de suicídio.

Estas talvez sejam as perguntas que se impõem ou aquelas de que me lembrei assim de repente.

(agora baixando a voz para que todos oiçam; não existe engano algum nesta frase, garanto)

Um mosquito confidenciou-me, lá por ser mosquito não quer dizer que não saiba das coisas da vida, que  nem toda a gente tem carro, ou tendo não o usam no dia-a-dia, diz que é muito caro e não sei mais o quê. Eu respondi ao mosquito sabedor destas coisas da vida que este tipo de pessoas deveriam era ter um desconto nos transportes públicos e não um aumento, é que esse facto, o facto de ajudarem a reduzir drasticamente a entrada de carros nas grandes cidades é coisa de valor, mais, a poluição também agradece, e muito.

O mosquito acrescentou, é um mosquito acrescentador, portanto, que os nossos políticos deveriam andar de transportes públicos, como acontece em algumas capitais europeias, aquilo num curto espaço de tempo teria melhorias substanciais. Quando dói aos próprios num ápice inventa-se um comprimidinho milagroso.

(xiii, ainda se dignam a aumentar os transportes públicos)

6 comentários :

  1. Um post delicioso, Maria, especialmente na personagem que criou e que diz umas coisas com muito acerto. Os transportes públicos são sempre alvo de debate nos primeiros dias de Janeiro mas parece que depois, com o passar do tempo, as pessoas esquecem-se do essencial. Lembro-me que todos os anos há um inquérito à satisfação dos utentes do Metro. E pouca gente procura esse meio de exigir melhores condições. Criticar mas deixar andar é um costume muito "nosso."

    Das condições... ou da falta delas. Eu sou daquelas pessoas que vou deixando o carro na garagem e uso os transportes em Lisboa. No meu caso, o metro. Apesar dos aumentos nos passes, não vejo qualquer diferença ou melhoria. Vejo as mesmas estações, as escadas rolantes que avariam muito facilmente, a mesma demora e interrupções de circulações nas várias linhas... os funcionários pouco prestáveis... tudo igual.

    Tudo igual... não! Estou a ser injusto... há uma diferença. Os preços para viajar de metro é que continuam a subir...

    Um beijinho, Maria,

    Bom ano!

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    1. Toda a razão na parte de que é um costume muito português criticar (acrescentaria um criticar nas esquinas da rua, no café, no cabeleireiro, na peixaria...), mas deixar andar, este deixar andar é o não se deslocar aos locais certos para deixar, se possível por escrito, uma reclamação, uma critica com a intenção de que algo precisa de mudar, não é só aumentar os transportes no inicio de cada ano, também é necessário melhorar a qualidade desses mesmos transportes.

      (tanto me desloco de carro como de transportes públicos, não me caem os parêntesis à lama e ajuda-me a manter os pés no chão, bem perto da realidade que é necessário não se perder - fiz uma reclamação há uns tempos ali num dos guichets junto ao Parque Eduardo VII, a coisa foi no mínimo ridícula para não dizer outra coisa, a rapariga que estava no atendimento, dentro do guichet, estava a falar ao telemóvel com uma amiga, viu-me ali à espera e fingiu que não era nada com ela, eu resolvi ficar naquela de não dizer nada só para ver até onde é que o descaramento ia, e foi pior do que eu esperava, continuou a falar como se nada fosse com ela, entretanto já existiam mais duas pessoas atrás de mim também à espera, quando percebi que a rapariga nada fazia resolvi falar, perguntei se iria continuar a falar com a amiga, reagiu de uma forma quase explosiva, não gostou de ser interrompida pelos vistos, este é o país que a malta tem, com um bocadinho de sorte se ficar desempregada ainda se queixa que é uma vítima e tal, até para reclamar uma pessoa, um dia destes, tem que começar a usar um colete à prova de bala)

      Obrigada, Carpe, pelo comentário, penso que acrescentou bastante a este simples texto.

      Beijinho para esse lado e um Bom Ano :)

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  2. Não tenho palavras para comentar este texto.
    Limito-me a dizer que gostei dele e aproveito para insinuar sobre o quanto a caríssima Maria escreve bem ... quando quer.

    Sobre o aumento dos preços, apenas um pormenor: acontecem todos os anos.

    Beijinho

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    1. Obrigada, caro Observador, pela simpatia, acho que também percebi a mensagem subliminar :)

      Beijinho para si também e tenha uma boa noite.

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  3. Vê se não matas esse mosquito sabedor porque tem toda a razão. Infelizmente em Portugal os políticos e amigos andam de popó e desconhecem por completo o que é andar em transportes públicos sobretudo em hora de ponta. Desde que vivo em Portugal a saga continua...todos os anos aumentam e diminuem em qualidade e sobretudo em quantidade. Já para não falar do péssimo estado de muitas carruagens no que toca a limpeza e não só. A juntar a isso são as maravilhosas greves e os horários sempre atrasados. Que eu saiba não há carros nas linhas férreas o que já não posso dizer o mesmo no atraso de autocarros muitas das vezes pela falta de civismo de tantos automobilistas que deixam o dito mal estacionado. Ainda ontem apreciei três autocarros a apitarem porque um fulano tinha ido aos correios...e que esperem. Veio a polícia e com tudo isso perderam mais de meia-hora.

    Um post digno de ser lido e como tal meu obrigado:)

    Beijos

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    1. Fatyly, perde-se toda e qualquer noção da realidade, do país onde vivemos, das cidades onde habitamos e até das ruas onde moramos quando passamos única e exclusivamente a andar de carro. Pessoas existem que saem de manhã fechadas hermeticamente dentro dos seus carros, carros esses saídos de dentro das suas garagens, garagens que se encontram fechadas dentro de portões que por sua vez têm muros altos ou vedações de chapa, altas também e... obviamente que mal conhecem a calçada das ruas onde moram, se aquilo tem um ou outro buraco, aliás, só dão pelos buracos se se enfiar um pneu do seu carro lá dentro. E é isto. Como é que é possível conhecer um país, melhorar um país, contribuir para o desenvolvimento de um país, se não nos damos ao trabalho de ir lá ver de perto as ruas do nosso país, os transportes públicos do nosso país. Ah e tal transportes públicos, que horror, isso é só para os pobrezinhos! A vida dá tantas voltas que por vezes os riquinhos transformam-se em pobrezinhos quando menos se espera, pois, nada é definitivo nesta vida, nem o bom, nem o mau, parece uma frase feita, só que as frases feitas por vezes teimam em cair em cima de qualquer um em modo chuva torrencial.

      (lembro-me do meu instrutor e das lições de condução, fazia sempre questão de me levar para rotundas daquelas bem complicadas em hora de ponta, no centro de Lisboa, imagine o meu pânico, enquanto ele tranquilamente me dizia que eu precisava de aprender era de me desenvencilhar daquelas coisas, andar numa estrada livre, sem carros à frente, sem grandes complicações, era fácil, difícil era rotundas em hora de ponta, estacionar em ruas muito íngremes, circular em ruas estreitas com curvas apertadas e coisas do género, ensinou-me também que para se aprender a respeitar um peão, convém também sermos peões, e pronto, grande instrutor aquele)

      Ah, isso de carros mal estacionados impedindo a passagem dos autocarros dentro das cidades deveria dar em multa daqueles mesmo a doer. Isso e carros estacionados nas passadeiras, em terceira fila, estacionados com metade do carro no passeio e metade da traseira do carro na estrada. Gente que chama nomes a outra gente quando saem de casa mal dispostos, atrasados como sempre e toca de descarregar nos estranho; se se levantaram tarde passem a levantar-se mais cedo ou não se levantem mesmo se é para chatear os outros, não tenho paciência alguma para este tipo de pessoas, punha-as a dar banho ao cão para sempre.

      Obrigada eu por também acrescentar e muito a este tema, Fatly.

      Tenha um óptimo sábado :)

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