quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Conselhos de mãe (a minha) que me ficaram para a vida (post desprovido de falsas modéstias)

Teria eu, talvez, uns nove ou dez anos, quando a minha mãe começou a falar comigo de forma adulta. Foi aí que aconteceu a nossa primeira conversa, toda ela também adulta, mas já lá vamos.

Primeiro vamos a isto que se segue como modo introdutivo.

A minha mãe era uma senhora, senhora no verdadeiro sentido da palavra, não uma senhora feita à pressa - isto para quem sabe o que é uma senhora feita à pressa - esse foi sempre um dos pontos que, mais tarde, quando atingi a idade de perceber o que significava ser uma senhora, mais me orgulhou, tentei seguir-lhe os passos quando atingi a idade de adulta ainda muito jovem, começou por transpirar na minha forma de vestir, se calhar demasiado clássica para uma miúda tão nova, no entanto acho que me ajudou no lado profissional, mérito, como já o referi por aqui, dos conselhos da senhora que tive o privilégio de ter por mãe. 

É por isso que torço um pouco o nariz quando as/os denominados stylists, função que, admito, e este admitir vem de braço dado com um assumido e antecipado pedido de desculpas por quem o seja, dizia eu que admito não perceber patavina o que faz exactamente um stylist. tendo em conta que dizem coisas como: uma pessoa deve vestir-se de maneira adequada para a sua idade. Eu que não sou isso de stylist nem nadaatrevo-me a reformular a coisa e a escrever que uma pessoa deve vestir-se de maneira adequada ao seu estilo independentemente da idade que tenha. A forma como uma pessoa se veste tem que ver com o seu estilo de vida, com a sua forma de estar na vida, com o seu corpo, ter a noção exacta do corpo que tem, terá muito pouco a ver com a idade. Se uma pessoa, seja mulher ou homem, acatar os conselhos dos tais stylists que se limitam a papaguear sem pensar, então entraríamos muito facilmente num género de farda. Ou seja, enquanto tens esta idade vestes isto, quando passas a ter uma idade dez anos mais à frente vestes aquilo, quando chegares àquela outra idade ainda mais à frente já não podes vestir nada daquilo que vestias antes. Esta sim, pode dizer-se sem qualquer hesitação, seria uma verdadeira ditadura da moda - estrangularia a alegria de viver, toda a piada de viver, enquanto o diabo esfregasse aquilo do olho. Gente catalogada e vestida por idades não é evolução, antes pelo contrário.

(Não me choca rigorosamente nada ver uma senhora de sessenta ou mais anos de saia curta se o seu corpo, pernas, continuarem em boa forma e se o seu estilo de vida o permitirem. Não me choca rigorosamente nada ver uma miúda de vinte anos de saia lápis, casaco cintado formal e saltos altos, se o seu estilo for esse. Tal como não me faz desfalecer ver uma senhora de mais idade de biquíni se estiver em forma e uma miúda nova de fato de banho completo também estando ela muito em forma só que o seu estilo não é fio dental ou biquíni muito reduzido na praia. E é isto)

Acabado o modo introdutivo... (isto é assumidamente uma chalaça)

A tal conversa séria que a minha mãe teve comigo aos nove ou dez anos foi no sentido daquilo que eu iria escolher ser quando fosse crescida. Disse-me que se eu escolhesse ser mulher-a-dias, seria um trabalho tão digno como outro qualquer, só que - e aqui entra o só que - preferia que eu escolhesse estudar, trabalhar até cair para o lado, para que um dia ganhasse o suficiente que me permitisse pagar a uma (o que acabou por acontecer) e, acrescentou, isso implicaria que para saber delegar, teria que saber fazer tudo muito bem, em casa também. Na sua forma peculiar, pragmática, de pensar e ser, a minha mãe sempre defendeu que uma pessoa que não sabe fazer, não sabe 'mandar'. Resta dizer que tive que aprender, obrigatoriamente, a fazer de tudo em casa, até aprender a passar camisas de homem e calças de fato, embora passasse o tempo todo a resmungar, a argumentar, que não pretendia casar e que se casasse ele que passasse as suas próprias camisas e calças porque eu também teria um trabalho fora de casa. Sim, era igualzinha à minha mãe sem saber, muito à frente a argumentar.

(isto é intemporal, sem dúvida alguma)

8 comentários :

  1. Sábias as palavras da senhora sua mãe.
    Provenientes, estou certo, de um conhecimento profundo sobre a vida.

    Pois ... refilar faz parte da vida.

    Um beijinho para si.

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    1. Aquilo era um regime muito pouco, ou mesmo nada, democrático, lá em casa :)))

      (lembro-me de ter chegado da escola, com uns sete anos, tinha ouvido uma amiguinha da escola tratar a mãe dela por 'tu', vai daí cheguei a casa muito contente e também resolvi tratar a minha mãe por 'tu', bem, não sei como é que sobrevivi ao terramoto seguido de um grande tsunami, lembro-me do ar sério e de me ter dito que, pai, mãe, avós, pessoas de mais idade fossem da família ou não, não se tratavam nunca, e sublinhou o nunca, por 'tu', aquilo ficou-me de tal forma colado às paredes do cérebro que ainda hoje, adulta mais do que assumida, raramente trato alguém por 'tu', a não ser amigos, colegas de trabalho, ex-qualquer-coisa, lá está, existem mães que nos fazem pôr em sentido só com uns olhos muito abertos, tipo faróis... ahahahah)

      Beijinho para si também, caro Observador.

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  2. Adorei a expressão 'não uma senhora feita à pressa'. Muito bom. :)

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    1. Marta, essa expressão dava um post daqueles bem engraçados de escrever, teria que ser pela via do engraçado porque se uma pessoa for pela via mais séria pode dar em desgraça ;)

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  3. A minha também foi assim e o meu pai igualmente e todos aprendemos bem cedo a ser "gente bem comportada/educada". Eu fugia à regra, às amarras e quantas vezes assumi as culpas dos mais novos e levei com um tsunami.
    Com as filhas fui pai e mãe e porque os tempos eram outros, nada impedia que lhes desse ferramentas para o rumo certo. Havia acordos nas saídas, ai delas que não fizessem o melhor que podiam no seu trabalho (estudos) e a mais nova fez apenas o 12º e foi trabalhar. A mais velha ainda hoje estuda p'ra caramba:)))

    Até voarem do ninho tudo era cumprido à risca e nas "complicações em que se metiam" eu tomava a atitude do segundo quadro que mostras:)))

    Dou-te um exemplo: deram à mais nova um gato o Sir POmpom. Acordo após ambas estarem com a sua remuneração monetária: a despesa da comida era paga por mim. Veterinários e "mariquices" para ele era suportado por elas. Quem ficou com ela? Eu e o mesmo durou 20 anos e uns meses. De um dia para o outro ficou como ficou e teve de ser abatido. Toda a despesa foi paga por elas.

    Essa dos "stylists" está bem vista, mas sempre as orientei (certa ou erradamente) que é na simplicidade com uma dose de decência que está a virtude. Quantas mães dão os mesmos conselhos e a malta troca de roupa em casa de amigas e vê-se o que se vê? Á pois é...calções com o rabo à mostra, saias a verem-se as cuecas etc, etc. e eles com as calças descaídas, com um andar "atrofiado" e daqui a uns anos a especialidade médica que dará mais lucro será a "ortopedia". Poderia falar de muito mais...apenas digo que hoje os netos seguem o mesmo trilho dos pais (o que me encanta por ser o tal fruto da educação que dei). Não sou avó de alterar as regras de educação dos netos, melhor dizendo das tais que permitem tudo ao menino ou à menina...uiiiii e brinquem e brinco muito com todos, mas estas duas mais próximas agora na fase do armário já lhes disse que quando precisarem de falar/desabafar têm em mim uma porta aberta. Enfim...tramado é ver e passar pelas mesmas coisas que passei com as filhas:))) e ainda dizem que a história não se repete? Enfim

    Sempre as acompanhei à escola a pé porque não tinha carro e devido ao horário que eu tinha ficavam com a Srª. da limpeza. No dia em que disseram/pediram...mãe podemos ir sozinhas? Lá foram e quando vinham e se queriam ir até à casa de uma amiga(o) o papel "estou/estamos na X ou no Y) tinha que estar pendurado no pequeno painel que ainda hoje tenho ali.

    Tornaram-se senhoras mães nada feitas à pressa e digo-te Maria que ainda hoje se for preciso dizer alguma coisa às filhas...atiro na hora e começo sempre por uma palavras chave: Atenção que...

    Gostei de estar por aqui e agora vou dar uma volta a pé para desanuviar o "pesadelo" de ontem com a ida ao hospital com a minha mãe. Estou cansada Maria e preciso de sol e vento nas trombas:)))

    Um abraço

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    1. Fatyly, gosto muito de a ler. E gostei muito do que li neste seu comentário. Gosto porque passa para o lado de cá todo um lado genuíno que muito me agrada.Tenho esta enorme fraqueza de gostar de pessoas genuínas, autênticas, que dizem o que têm que dizer sem ais nem uis, dizem, sem ser numa de vale tudo, não existe qualquer tipo de má educação. E gosto especialmente de pessoas que se atiram à vida dessa forma, com garra, independentemente da idade que tenham. Aqui entre nós que ninguém nos ouve, digo-lhe que me chateia muito, muito mesmo, chateia e falta-me a paciência para pessoas que chegam a uma certa idade e não tendo qualquer problema de saúde grave que as limite, não sendo ricas mas tendo algum dinheiro que lhes permita uma vida mais ou menos digna, pode não dar para grandes luxos, no entanto lá dá para o dia-a-dia, não é o que se quer mas infelizmente é o que muitos têm, dizia eu que, mesmo assim não passam o tempo todo a lamentar-se, ou seja, lamentam-se mas não é em modo muro, muro das lamentações, uma coisa ininterrupta, para essas pessoas é sempre tudo mau, nem sequer conseguem desfrutar de um dia de sol, de céu azul, de calor, de um passeio descontraído, de uma conversa informal, encontram sempre um defeito até naquilo que à partida não tem defeitos, que faz sorrir. A vida não é fácil, isso sabe-se, mas torna-se muito mais difícil quando as pessoas fazem questão de pesar toneladas, pesar toneladas no mau sentido. Dá para perceber que a Fatyly não teve e não tem uma vida fácil, só que a sua postura perante tudo isso, a forma como enfrenta, é de valor. Muito.

      Aceite um beijinho e tenha um excelente fim-de-semana :)

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  4. Gosto do seu jeito, Maria, sempre gostei. E...

    Receba um beijinho :)

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    1. Eu acho que o AC é, mas é, um cavalheiro. Passa uma enorme tranquilidade a quem o lê. As palavras também transpiram, no bom sentido.

      Beijinho e obrigada :)

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