sábado, 6 de janeiro de 2018

«A Insustentável Leveza do Ser»

Cito, com a reverência necessária e com as aspas devidas, um dos títulos de um livro que há muito tempo mora cá por casa, no entanto apenas fui buscar o título deste livro para escrever sobre um assunto que anda por aqui a moer-me a cabeça desde o Verão. Parece que não vou falar sobre o livro? Bem...

No Verão passado encontrei sem querer, e daqui se deduz que o mundo, neste caso um país, não é assim tão pequeno como se imagina. Pode acontecer que num belo dia de Verão, num qualquer sitio, numa qualquer esquina, de repente ouvimos alguém chamar o nosso nome, olhamos à volta, o nosso nome nem sequer é assim tão original, só que, mais vale perceber se aquilo nos diz respeito e, realmente dizia, a pessoa que estava à minha frente de sorriso no rosto, olhando-me atentamente, sabia o meu nome, o problema aqui é que eu não reconhecia a pessoa em questão. Raios! - pensei lá para dentro de mim, o que é que faço agora, não conheço esta pessoa... Fui salva pela própria, não sei se propositadamente, se só naquela de apressar a situação que já se tornava confrangedora.

Seguiram-se os: Há que tempo que não te via... Por onde tens andado?.... Que é feito de ti?... Ainda moras em Lisboa?... Tens filhos?... Ainda trabalhas na mesma empresa?... E a tua mãe?... E o teu pai?... Um infindável número de perguntas a que não conseguia responder porque mal estava a tentar responder a uma pergunta, já a pergunta seguinte me atropelava sem dó nem piedade. Quis sair dali a correr, não consegui. Temi que os dois beijos pregados à força, voltariam a ser pregados à força na hora da despedida, isto se a despedida acontecesse na próxima década.

O que se seguiu a determinada altura deixou-me ko, ko que é como quem diz o golpe foi tão certeiro que me deixou fora de combate em cinco segundos. Perguntou-me a pessoa, que tinha sido uma amiga que eu nunca quis para amiga lá por coisas de não me parecer uma pessoa muito verdadeira, só que esta suposta amiga sempre quis porque quis fazer parte de um grupo de amigas que não tinha coragem de lhe dizer não, não confiamos em ti. Está muito diferente agora, de menina de cabelo escorrido com um ar alvo, angélico, transformou-se em mulher, versão punk, bom, será um punk em modo light, digamos assim, o cabelo está espetado pelo menos, o nariz também, pelo menos o nariz continua, para além de empinado, espetado, nada mau nisto de acrescentar coisas à vida.

De repente pergunta-me em modo light também: sabes que a (nome de uma amiga que fazia parte do grupo, grupo esse que acabou há anos, cada uma foi à sua vida) se suicidou? vi no facebook... e apressou-se a relatar mais coisas lá do facebook como se a morte de alguém fosse uma coisa para ser falada de forma tão leviana, tão leviana como é ser anunciada num facebook e reproduzida à porta de um supermercado.


Mensagem a reter:
Não sei se já referi que o livro «A Insustentável Leveza do Ser» é um livro que merece ser lido.
(quem não quiser ler o livro é concentrar-se no título do mesmo)

8 comentários :

  1. Desculpará V. Exa. mas fico com a ideia de que já li isto algures.
    Estarei a sonhar? Dir-me-á a caríssima Maria.

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    1. (xiiiii, já percebi que isso hoje para esses lados está um bocadinho cinzento mais cinzento não há, anime-se caro Observador, se faz favor e obrigada também :))

      Este comentário é muito estranho, admito que não percebi. Leu algures exactamente o quê, caro Observador? É que se for o livro é natural, está à venda em qualquer livraria perto de si, de mim, de quem quiser apanhar. Se for o texto, é impossível, todos os textos escritos por aqui, sejam eles assim assim, ou assim assado, são da minha autoria, goste-se ou não é o que há.

      Eu acho mesmo que está a sonhar. Perguntou e eu respondi (ahahahah)

      Bom sábado :)

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  2. Li há muito o livro e achei que o seu autor Milan Kudera (se não me falha a memória) descreveu uma trilogia que sinceramente não me fascinou.

    Não consigo associar o conteúdo do mesmo com este teu "encontro imediato em terceiro grau" e falar de um suicídio como descreves é mesmo de gente desmiolada .

    Não percebi mas...

    O teu texto levou-me mais para aqueles encontros comuns de antigos alunos de...antigos isto e mais aquilo e fazia a mesma figura porque passados 40 anos é difícil lembrar quem quer que seja a não ser que tivessem ao peito uma foto antiga.

    Ou

    Já me aconteceu encontrar pessoas e enquanto me cumprimentam de forma efusiva e bombástica, ficar a pensar: será de Angola, Brasil(não) ou de cá? Encetam uma conversa e remato logo a situação: não me recordo nada de si, não haverá confusão? Outras vez


    es sim e recordo que foi atendido(a) por mim. Quando começam a falar de coisas "insustentáveis" como essa "punk Ligth" eu despeço-me educadamente com um prazer em ver-te e xau, xau ó vai te embora.

    Traduzi o quadro e nem imaginas no que deu...fica apenas o café e...xôooooo psicopata...credo Maria hehehehe

    Não leves a mal mas é a mais pura verdade e aguardo pela lição:))))

    Uma beijoca

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    1. Nessa leitura do livro como é que a Fatyly interpretou a parte do título, a parte da tal insustentável leveza do ser? Eu, admito, interpretei muito à minha maneira, vai daí consigo transportar a coisa para uma parte desta situação. Já se sabe que sou um pouco estranha :)))

      Deixo-lhe isto em modo de despedida de comentário:
      “Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

      :)

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  3. Não és nada estranha pelo menos para mim e o certo é que cada um poderá fazer uma interpretação diferente do quer que seja.

    Eu interpretei que realmente é insustentável uma relação com quem vive num mundo irreal/faz de conta/fingido/perigoso do que com quem é verdadeiro. Ou seja: a leveza interpreto pela leviandade e tudo que ela poderá acarretar de nocivo/ficção/mentira!

    Escolho "o peso" que é o que tem feito de mim a mulher que sou e olhando para trás na minha já longa vida, digo...que foram muitos ó se foram e agradeço, mas também por vezes penso...como me sabia bem descansar um pouco mas sem "levezas versus leviandades".

    Não sei se me fiz entender e agora vou dormir as habituais 7/8 horas seguidas isto se não sonhar com o "kudera":))))

    Fica bem Maria e continua a baralhar-me e ou desafiar-me porque quero aprender todos os dias até ao dia da partida carimbado no meu passaporte:))))

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    1. Tenho para mim que por muito verdadeiros que sejamos, nunca o somos completamente para os outros, conseguimos sê-lo talvez e quando estamos sós. Se fossemos completamente verdadeiros na nossa relação com os outros, o mundo e tudo o que ele encerra era capaz de não sobreviver até amanhã de manhã. Mas deixemos estas coisas tão confusas, para lá :)
      ...

      Digo-lhe, Fatyly, que este grupo de amigas se formou teríamos todas uns 15/16 anos, estudantes, com muitos sonhos e tal, foi com alguma estranheza que pude confirmar que uma pessoa que não me inspirava qualquer tipo de confiança naquela idade, se mantém na idade adulta, a superficialidade continua intacta. A forma como se comenta a morte de alguém, a leveza, a quase indiferença, como se se estivesse a comentar um vestido, umas botas, vistas no facebook, deixou-me aquilo de ko. Daí a imagem que coloquei ali pelo meio, aquilo quer apenas dizer que as pessoas que não estão de alguma forma ligadas ao mundo digital - neste caso do texto, ao facebook - são quase vistas como seres com um qualquer desequilíbrio patológico.

      Durma bem, com 'deras' ou sem :))

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  4. A vida, para quem tiver a veleidade de a querer entender, é coisa muito séria. Contudo, e apesar de às vezes sentirmos vontade de nos isolar, não somos ilhas. Precisamos de estabelecer pontes, embora selectivas, só assim, num conjunto de vontades e sentires, o puzzle se começa a preencher. Porém, não somos todos iguais, e ainda bem. No nosso afã de procurar entender, de procurar fazer bem, somos desafiados constantemente por um numeroso exército de efémeras, aparentemente felizes por tudo e por nada, que se satisfazem no que ouvem, no que vêem, no que parece bem... Parecem leves, estas efémeras, mas pesam que se fartam, suma forma quase insustentável.

    Tenha um bom domingo, Maria :)

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    1. Este seu comentário, para quem quiser ler com muita atenção, saborear cada palavra, cada sentido que encerram as frases ligadas tranquilamente a outras frases, é simplesmente maravilhoso. E resume muito bem tudo aquilo que quis transmitir com este meu texto que, se calhar, foi um pouco, ou mesmo muito confuso para algumas pessoas. Preciso de lhe agradecer. Obrigada por continuar atento desse lado.

      Bom resto de domingo, AC :)

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