quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Jacintos, ervas aromáticas, lagartixas, osgas, um gato de olhos verde água, galochas e saltos altos

Bem podia designar a minha vida de bipolar. Ora sou de Lisboa, cosmopolita assumida. Ora sou do campo, um campo relativamente perto da cidade, onde calço as galochas, as luvas de jardinar, ponho o chapéu na cabeça para me proteger da chuva e da humidade - não gosto de estar doente e um chapéu impermeável na cabeça ajuda e muito -, nuns dias pego na enxada e limpo o quadrado de terreno nas traseiras, arranco ervas daninhas pela raiz, corto galhos de árvores que teimam em arranhar o céu, se deixasse até se instalariam no sofá sem pedir licença, galhos de árvores existem que são parecidos com muita gente, uma pessoa dá-lhes uma mão e quando damos por eles já treparam por ali acima, já tomaram conta de tudo, ora, uma simples serra, desbastar, tem um efeito bastante eficaz, falo dos galhos, nas pessoas convém usar outro tipo de ferramenta. Corto a relva, desta vez à frente, já tirei carta de condução de carrinhos de cortar relva, nunca na vida pensei que alguma vez saberia conduzir tal coisa, arranco os cogumelos de cor branca que teimam em crescer escondidos entre a relva, não faço a menor ideia de como se reproduzem por ali. varro as passadeiras, o varadim, de tudo aquilo que teima em cair no chão, é o Outono a dar cartas, deixá-lo à vontade mas não à vontadinha, tudo o que cai do pinheiro manso, as folhas secas das plantas, as flores secas da trepadeira, é limpo, aprendi com a minha mãe e embora já cá não esteja, prometi que tomava conta de tudo. Pretendo cumprir. Tenho cumprido.

Aprendi a conviver lado a lado com as lagartixas, com as osgas, no inicio aquilo causava-me alguma confusão, admito, agora elas sabem qual é o seu lugar e eu sei qual é o meu, se a natureza faz questão de as ter por cá por alguma razão é. Gosto de ver o gato branco de olhos verde água que foi ficando, o espertalhão, existe comida grátis por ali e como qualquer português, seja gato ou não, desde que seja grátis, ninguém os arreda dali.  O gato é inteligente, mia e mia, é capaz de me azucrinar os ouvidos durante horas se eu não lhe dou atenção, olha-me com aqueles olhos de: eu aqui, um gatinho indefeso, quase a morrer de fome, sem ninguém que fale comigo e, tu aí, má, nem sequer me dizes, bom dia gatinho... Isto sou eu a tentar imaginar o que o gato é bem capaz de pensar em determinados dias. Alguns homens usam a mesma táctica, daí se conclui que homens e gatos frequentaram a mesma escola.

Tornei-me cliente de centros de jardinagem, quem diria, arranjei com as minhas mãos canteiros em modo rústico que é o modo que gosto mais de ver em canteiros, plantei tomilho de limão, o aroma é qualquer coisa de muito bom, manjericão, segurelha, oregãos, salsa, hortelã, alecrim, jindungo. 

A minha última aquisição barra paixão são jacintos, bulbos que se plantam na água, queria porque queria ter dentro de casa flores sem ser das que morrem passados uns dias, em modo aromatizante, gosto muito de casas arejadas, a cheirar bem, um aromatizante natural é capaz de ser uma boa ideia, vai daí desloquei-me a um centro de jardinagem, disseram-me que dentro de casa só sobrevivem os jacintos mas que o perfume pode ser muito intenso. Bom, pensei, algumas pessoas também não gostam de pessoas que usam perfume, ora, eu que gosto muito de perfume coloco algumas reticências e vou plantar os jacintos, logo verei se o perfume é intenso ou não. Comprei três bulbos, pus umas pedras brancas no fundo de uma jarra redonda, transparente, os bulbos em cima das pedras e um pouco de água - existe a  necessidade de verificar todos os dias se a água secou, se assim for tem que se deitar mais um pouco  -, esperei e esperei, neste momento já despontaram e, não há duvida que ver a natureza dar um ar da sua graça é simplesmente magnífico. A ver quando é que os jacintos florescem, estão no bom caminho, parece-me, comprei três cores e misturei, branco, amarelo e cor de fogo. Bonito, bonito, é ver cores misturadas, seja na natureza, seja nos seres humanos, a perfeição encontra-se exactamente centrada nesse ponto. Uma cozinha toda ela branca só é gira, harmoniosa, se existir por ali uma jarra com malmequeres amarelos; pratos, copos, de cor turquesa, laranja, verde...
*
Um dia destes dou comigo a baralhar tudo. Baralhar no sentido de passear no Chiado de galochas sujas de terra, luvas de jardinar enfiadas nas mãos e calças de ganga esfarrapadas. Entretanto andar na terra, trepar árvores, cortar relva, de enxada numa mão e serra na outra, de saltos altos. Uma bipolaridade citadina-ó-campestre.


(Jacintos de água)

8 comentários :

  1. Eu acho que tens o melhor deste mundo.a cidade mas melhor ainda o campo, em que nos sentimos livres, e como me sinto em casa da minha mae!

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    1. Marina, confesso que quando a minha mãe me fez prometer que teria de ser eu a tratar do jardim e de tudo à volta da casa, visto que dai a uns tempos já não estaria por cá, aquilo deu-me um medo horrível, sempre vivi em Lisboa, com uma vida do mais cosmopolita que se possa imaginar, hoje faço tudo com muita facilidade, até me pôr em cima de árvores e desbastar, quem me vir nas ruas de Lisboa acha que sou daquelas mulheres que tem medo de partir uma unha... como as aparências iludem, ó se iludem.

      (tenho acompanhado os bolinhos que faz com a sua mãe :)

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  2. Olha, olha! Que prendada é a Maria!...
    Prendada? Qual quê?! Afoita, destemida - sim, que isto de trepar a árvores, conduzir carrinhos de cortar relva, conviver com osgas, lagartixas e outros rastejantes - não é para qualquer um, neste caso, uma.
    E depois sabe de jardinagem: ó pró resultado dos bolbos - e sabe de era - ó pró exemplar que acompanha os bolbinhos - e muito mais sabe a Maria.

    Sabe andar na cidade, toda janota, assim como sabe andar no jardim, feita uma autêntica jardineira.

    E sabe, se sabe, que a vida é um todo, é o somatório de experiências várias e, ela, Maria, faz questão de viver todas por inteiro.

    Gosto, de forma muito particular destas "Marias". Abomino, irremediavelmente, as pseudo, aquelas que de vida sabem nada.

    Faça o favor de continuar por aí, sim?! Pode passear no Chiado de galochas, pode ir para o jardim de saltos de agulha. Baralhe, confunda, misture. O resultado?!

    Depois dirá, pode ser?!

    Beijinho.

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    1. Nem é bem ser prendada, GL, é mais ser dada ao perfeccionismo, coisa que por vezes me deixa a cabeça quase a explodir, ainda não percebi como é que contorno isto, não me parece nada saudável... A ver se encontro um manual qualquer que me torne numa pessoa mais... mais... nem sei que palavra usar... vai na volta mudo um dia destes e entretanto não vou gostar nada. Também tem a ver com a promessa que fiz à minha mãe, aquela casa, o jardim, eram a sua paixão, enquanto eu conseguir tratar de tudo, muito bem, no dia em que não conseguir lá terei de arranjar outra solução.

      Sim, sim, trepo a árvores, desenho arbustos com a serra eléctrica, corto relva, planto, estou feita uma verdadeira mulher do campo... ahahahah - no ano passado, no Verão, caí de um escadote com uma altura considerável, o meu pai nunca correu tanto na vida, pensava ele que eu tinha ido desta para melhor, se lhe disser que nem com uma nódoa negra fiquei, pois, devo ter um qualquer anjo da guarda, pelo menos nestas coisas :)

      Não sabia nada de bulbos ou bolbos (são sinónimos), pedi ao senhor do centro de jardinagem para me explicar. Tenho esta mania de fazer muitas perguntas.

      Isto de andar na cidade mais arranjadinha é mérito da minha mãe, mal deixei de ser estudante e entrei para o mercado de trabalho, teve uma conversa séria comigo na base do: 'minha menina...", quando começava as conversas desta maneira sabia que vinha lá trovoada :)))))

      Beijinho para si também, GL, e tenha, se possível, um Natal à sua maneira muito perto daqueles que ama (amanhã dou um salto ao seu espaço para o escrever).

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  3. Preâmbulo: adorei ler o que a Maria escreveu, apesar de, em certas linhas, sentir que ainda não assumiu completamente o modo de vida que escolheu. :) Mas isso fica para mim.
    Complementar vivências não é tarefa fácil, apesar do lugar-comum de certas afirmações: fixe, é tão bom viver no campo, longe da opressão do cimento!
    Alguns tendem a resumir a vida a modas, como se viver fosse estar de acordo com os padrões das pessoas que nos rodeiam. Não, a essência da vida, por mais complicada que pareça, resume-se, parece-me, à capacidade de simplificar as coisas, de encontrar prazer nos pequenos gestos, de partilhar, de despoletar afectos…
    Pois é, isto que escrevi, apesar de parecer simples, é capaz de ser complicado para muitos. Urge, pois, saber filtrar o que nos interessa, o que faz bem à nossa mente, aquilo que nos faz viver em harmonia com as coisas…
    Parece muito complicado? Lamento, mas a vida é alheia a promoções, tem o bom hábito de premiar os que se esforçam por a entender. E isso não é fácil, dá trabalho. :)
    Termino, Maria, reforçando o que escrevi no primeiro parágrafo: adorei o que escreveu.

    Um beijinho, Maria :)

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    1. Este é um comentário que vou guardar muito bem guardado porque tem um significado muito grande, muito especial, para mim. Foi, sem duvida, um enorme presente de Natal. Obrigada.

      (tenho para mim que o AC será dos poucos nisto da blogosfera que lê cada linha, cada parágrafo, e apanha até aquilo que não se escreveu mas que está algures subentendido)

      Muito obrigada, novamente, obrigada sobretudo por estar tão atento, também tenho essa 'mania', ainda que não tão apurada.

      Aceite um beijinho e tenha um óptimo Natal bem perto daqueles que mais são importantes para si :)

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  4. É muito difícil tirarem-me o pio, mas conseguiste com este texto cheio de tudo principalmente da essência que deveria revestir ou transformar o cérebro de muitos humanos onde tudo cheira mal e de uma hipocrisia...enfim! Nada na vida acontece por acaso e seres citadina e estares a conseguir uma vontade de quem já partiu...é de analtecer e dizer: bravo.

    Sou mais do campo mas trabalhei no coração de Lisboa e aos fins de semana ia com as filhas serra acima, serra abaixo...e pior de tudo era tirar o verdete das suas roupas:) Elas ainda hoje falam desses passeios.

    Identifico-me com a tua simplicidade em termos de limpeza e modificações e felizmente na casa da filha posso dar vazão o que me teima derrubar, ou seja...o melhor remédio que encontrei para aliviar o que sabes. Não trepo às árvores, não sou condutora do corta-relva, mas tornei-o a situação conforme a minha idade permite "meto a mão e os pés na terra e aqui vai disto" e depois sair e mais tarde ouvir deles...como tudo cheira tão bem e até o quintal canta de alegria:))

    A-D-O-R-E-I e muito obrigado por este momento delicioso.

    Beijos

    Não tenho muita simpatia pelos jacintos mas talvez seja mais defeito meu:)))

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    1. Fatyly, para mim promessas são para cumprir, e se são para cumprir o facto de as pessoas já terem partido definitivamente - como é o caso da minha mãe - não me desobriga dessa parte. Obviamente que é muito complicado, aquilo dá muito trabalho, no entanto admito que sinto uma enorme satisfação, um enorme bem-estar, quando no final posso até estar completamente de rastos - não se pense que não é trabalho duro, porque é, garanto - mas esse estar de rastos tem o carimbo de trabalho cumprido, promessa cumprida, mãe lá no céu sorridente :)

      Tem toda a razão quando usou o termo 'aliviar', e não é que é um verdadeiro antídoto para um dia-a-dia por vezes stressante, com problemas, ansiedade, e outras coisas que tais. Entretanto mantém-se a forma, não há nada melhor para emagrecer, para se ter um ar saudável que, fazer jardinagem a sério, limpar terrenos, sujar as mãos, os pés, até a alma... no final tomar um duche, vestir roupa lavada e perfumada, sabe pela vida :))))

      Ainda não sei se gosto ou não de jacintos, foi a primeira vez que comprei, e comprei, como escrevo no texto, porque dizem que é muito perfumado, a ver vamos...

      Beijinho, Fatyly, tenha um muito bom Natal junto da sua mãe, filha, netas e todos aqueles que ama.

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