domingo, 5 de março de 2017

(ontem aconteceu-me uma coisa muito estranha, aqui, nisto dos blogs)

Este é um texto muito ingrato de escrever, só que não tenho como não o escrever. 

Pelo que me tenho vindo a aperceber, o mundo dos blogs é todo ele pintado de cores, cores essas escolhidas pelos próprios autores que podem ir do mais profundo dos cinzentos ao mais purpurina dos rosas. E os blogs dos entretantos.

Blogs em que o principal objectivo talvez seja misturar-se com um mundo  que há uns tempos lá mais para trás era apenas frequentado por alguns com o crachá de opinion makers, que em bom ou mau português significará - pessoa capaz de fazer uma tão boa lavagem ao cérebro de muitos que acabará por influenciar esses muitos que o ovo nasce nas prateleiras de um supermercado qualquer e não lá do sitio directo das galinhas. Eram esses alguns que emitiam opiniões e, as pessoas sentadas nas cadeiras, sofás, lá de casa, apenas podiam assistir abanando a cabeça em modo afirmativo, como se dissessem - sim, concordo - ou abanando a cabeça em modo negativo, como se dissessem - não, não concordo. Era este o mundo nada virtual, era este o mundo real. Entretanto apareceu o mundo virtual, e este mundo também todo ele feito de pessoas com opiniões que já se podem desatar, achou que tinha ali uma ferramenta interessante, uma ferramenta que daria voz própria a letras. Acho que deve ter sido por essa altura que nasceram os blogs, mas não tenho bem a certeza. Como num mundo real, blogs existem que são mudos em opiniões, preferem a poesia e o romance, na vida real também há quem prefira, embora seja muito difícil sobreviver de olhos completamente fechados e estar sempre a ir de encontro a paredes de betão. Nos blogs é fácil sobreviver num mundo só de poesia e romance e tartes de frutos vermelhos e sapatos se sola muito vermelha como os próprios frutos que lhe dão cor. Bom, se calhar é melhor não divagar mais porque a ser assim sou bem capaz de tecer uma colcha de conteúdos de blogs que nunca mais acaba... (termino com reticências)

A parte do título e da coisa estranha, é que ontem no final da tarde resolvi estar ali uns vinte minutos neste mundo da blogosfera e dei comigo a seguir um link, fui parar a um blog em que a autora morreu. Antes deste desfecho trágico, tinha escrito um post em que explicava aos que a seguem que estaria ausente por uns tempos explicando a doença e os tratamentos que iria fazer, infelizmente não sobreviveu, só que o post ficou ali escrito com os comentários das pessoas que lhe desejaram as melhores. Nada mais natural, o que a mim me fez confusão é que as mesmas pessoas sabendo do desfecho trágico da autora do blog, voltaram a esse mesmo post e deixaram um comentário como se a pessoa as pudesse ouvir, ou até, quem sabe, responder. Foi muito aflitivo aquele momento em que estive a ler os comentários que chegaram ao ponto de alguém deixar um link directo para o seu próprio blog (não percebi a intenção), e outros que diziam que um dia se voltariam a encontrar no céu. Dei comigo a sentir o coração bater muito depressa, a não perceber nada daquilo, a não saber se as pessoas já não percebem o que é real e o que é virtual. A morte, infelizmente foi real, aqueles comentários após a morte, no blog da autora, não deveriam nunca ter acontecido. Ou a acontecer existem flores virtuais que se deixam. Flores, virtuais, apenas. 

13 comentários :

  1. Ser-me-á permitido acompanhá-la neste seu pensamento, nesta sua ideia.
    Aceite um beijinho, segunda feira é já ali.

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    1. Foi muito aflitivo aquilo, caro Observador, nunca me tinha deparado com algo semelhante, nem sequer sabia que coisas destas poderiam acontecer.
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      Beijinho para si também.

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  2. Suponho que sei a que blogue se refere, cuja autora faleceu na Sexta Feira. Não era leitora do referido blogue, mas cruzava-me diariamente com a autora em vários blogues que frequento. Tomei conhecimento da notícia, fui ao seu blogue, e também eu achei estranho as mensagens, tanto mais que eles tinham os seus blogues de luto, (alguns ainda têm) como homenagem à autora. Por isso penso que talvez os comentários sejam uma forma de mensagem para os familiares, ou talvez saibam que a autora o apreciaria. Aquele grupo é muito unido, não são apenas amigos virtuais, eles cultivam a amizade, e reúnem-se duas vezes por ano para conviverem. Daí que talvez o que a quem está de fora, pareça estranho, para eles seja lógico, não sei.
    Um abraço e resto de bom Domingo.

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    1. Elvira, pois aí é que está, a ser uma mensagem de condolências para os familiares (e se os familiares tiverem conhecimento do blog, muitos não têm, não sei se será o caso), o comentário não poderia ser directo para a autora que, infelizmente, já não se encontra viva. Essa é a parte um bocadinho arrepiante e, estranha, penso eu.

      (penso que as pessoas estão a chegar a um ponto em que já não percebem o que é real e o que é virtual... real é o grupo se reunir e ir ao velório/funeral, da amiga... acho que alguém da família deveria tirar o acesso ao blog como forma de respeito por uma pessoa que morreu. Estas coisas afligem-me de verdade, confesso.
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      Abraço para si também, Elvira.

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  3. Bem isto da blogosfera pode ser mesmo um bairro...porque estive lá e agora estou aqui
    E vou tentar explicar...o que não é fácil
    eu não sou nada forte, e preciso de acreditar que há um depois
    quando passei por uma perda há alguns anos foi a essa ideia que me tentei agarrar
    e foi importante saber que havia outros que também sentiam a falta da pessoa que eu tinha perdido
    não é confundir o real com o virtual
    mas querer dizer adeus, e dizer àqueles que lhe eram próximos que também sentimos a sua falta


    (por outro lado, impedir comentários pode ser uma boa ideia para prevenir comentários negativos, mas também aqui e se a morte é o fim, estes vão sobretudo ferir os que cá ficam)


    uando eu passei por uma perda há alguns anos ajudou-me ter a esperança de haver um depois, e eu que evitava ir a funerais percebi que muitas vezes irmos lá pode ser importante para os ficam - eu pensava antes que se o meu amigo morreu, já lá não estava e não fazia sentido fazia ir lá, mas quando passei por essa perda, foi tão importante saber que não estava sozinha na minha dor, que outras pessoas sentiam a sua perda

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    1. Gábi,

      Precisar de acreditar num "depois" (leia-se por depois, a existência de algo após a morte) não significa ser fraco ou forte, terá a ver com a crença de cada um, o que, à partida, tem de ser respeitado. Também eu não acredito num fim que passa por ser "apenas" o desaparecimento de um corpo, físico. A passagem pela vida não faria sentido algum se assim fosse, só que, esse é, na minha opinião, o grande mistério que encerra isto do universo.

      Na parte do real e do virtual, divergimos. Não é mau, é olhar o mesmo assunto com outros olhos. Uma coisa é estar presente no velório, no funeral, estar ali como se se precisasse de sentir a presença da outra pessoa uma última vez, olhá-la uma última vez. Outra bem diferente, isto na minha opinião, é um blog que se encontra num espaço virtual onde todos têm acesso, e esse acesso neste caso passar por deixar entrar numa esfera muito privada posturas mórbidas. Quer queiramos, quer não, existe gente fria que se alimenta disso. A família deveria ter tirado o acesso ao blog, ou então alterar para blog pessoal dando apenas acesso aos amigos. Eu apenas resolvi falar disto porque, de facto, me afligiu.
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      Beijinho, Gábi.

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    2. Penso que percebi melhor a ideia, sobretudo pela parte de não se fechando o blogue, poderem passar por lá pessoas menos boas.
      um beijinho, Maria Madeira

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  4. Mas... caríssima, são os meandros dos próprios blogues!
    É a essência. Acho que se cria uma espécie de «intimidade virtual» e, sendo um blogue algo «vivo», acho que, pelo menos nos primeiros tempos, talvez seja compreensível que as pessoas que se acostumaram a frequentá-lo gostem de continuar a comunicar com posts escritos como se a autora ainda os pudesse ler. E porque não? Se calhar seria também o que a autora podia desejar. Dizem que o espírito vive eterno... Acho que, por vezes, quando se escreve assim, se calhar é ao espírito da pessoa que se dirigem as palavras.

    Digo eu, que procuro sempre entender um pouco as coisas que, em princípio, podem fazer alguma confusão. Um dos primeiros blogues que segui o autor, que veio a falecer, sempre deixava escrito que o que o deixava contente era deixar o blogue como legado. Porque o pretendia vivo ou um testemunho. E, nesse sentido estava a incluir outras pessoas a continuar a interagir com as suas memórias.

    Abraço.

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    1. Portuguesinha, a parte dos "meandros dos próprios blogues" deixou-me meio confusa (?). A "essência" também.

      Um blog, na minha opinião, é feito pela pessoa que lhe dá vida, a partir do momento em que acontece uma tragédia, como foi o caso, essa vida desaparece. Terminada a vida, automaticamente termina o blog. Penso eu. A partir do momento em que a autora morre é demasiado estranho que se continue a deixar comentários como se a pessoa pudesse responder. Existiu por lá um comentário muito estranho, um que deixava um link directo para o blog da pessoa, ora, existe ou não existe um nome para isto? Ou sou eu que vejo coisas onde elas não existem?

      (se alguém não expressa os seus próprios desejos no caso de acontecer isto ou aquilo, não se deve supor coisa alguma, no caso de que fala, do autor que morreu e deixou algo por escrito, é algo completamente diferente)

      Abraço para si também

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  5. (São, lamento mas não vou publicar o seu comentário pelas razões mais do que óbvias, nem sequer vou aprofundar o óbvio. Deixe-me que lhe diga que sempre a recebi bem aqui no blog. Deixei que fizesse publicidade ao JRS. Deixei que fizesse publicidade ao LPN. Li emails seus, longos, quando desabafava sobre a sua vida, respondi quase a todos mesmo quando o cansaço, à noite, quase me impedia de o fazer. Dei-lhe sempre força em relação ao seu filho. Cheguei, inclusive, embora não saiba, a escrever para alguém com algum poder nisto de ajudar problemas iguais ao seu para ver se a conseguiam ajudar. Entretanto a paga que tenho é um certo rancor do seu lado com comentários que pretendem arrasar alguém que nem sequer conhece pessoalmente. Por mim, chega, existem muitos blogs por aí na blogosfera, muitos blogs que pode visitar, onde pode comentar da forma que mais lhe agradar, eu, pelo meu lado não me posso dar ao luxo de ter alguém que passa para este blog e para as pessoas que o lêem más energias. Lamento. Seja feliz. Cuide si e, sim, tente desligar-se um pouco do mundo virtual e viva no mundo real, vai ver que muita coisa muda, para melhor)

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  6. Senhora São, com muita pena minha não consegui ler os dois comentários que voltou a escrever hoje neste post - a senhora está com uma fixação qualquer com este post - um amigo meu que tem acesso a este meu blog apagou-os definitivamente sem me deixar ler os ditos, diz que a senhora está muito desequilibrada e que se calhar é melhor procurar uma vida, ajuda médica e isso.

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  7. Senhora Conceição, mais 4 comentários às 15h00. Ó senhora, largue-me e, já agora, largue este post, largue este blog. Vá comentar para outro. A senhora está evidentemente descompensada. Vá trabalhar um bocadinho. Boa!

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