sexta-feira, 3 de março de 2017

O tamanho de uma formiga (também eu resolvi escrever à chuva)

A natureza é mãe e quando uma mãe lhe dá para se zangar à séria aquilo normalmente começa logo pela manhãzinha quando a manhãzinha ainda anda ali à volta dos - são só mais cinco minutos, são só mais dois minutos para juntar aos cinco que já passaram, são só mais mais dez minutos e, tudo somado em minutos, já o dia comeu ao pequeno-almoço dezassete minutos bem torrados.

Hoje, a mãe natureza acordou-me por volta das seis que já eram horas, batendo violentamente nas paredes de casa como se estivesse zangada comigo, esta mania da perseguição que por vezes me assola faz-me pensar de imediato como se também eu tivesse seis, não em horas, mas em anos, em desgraças imensas que se traduzem em disparates que não consigo vislumbrar com um édredon de Inverno em cima da cabeça e do corpo também, porque o corpo, por vezes, lá muito contrafeito não tem como não ficar ali bem colado àquela que o comanda. 

Às seis já a chuva estava furiosa, o vento furioso estava, e eu, encolhida continuava. Fui até à janela pé ante pé, corri os pesados e aveludados cortinados de tons verdes meio secos, verdes da cor da natureza, comprei-os neste tom não porque tenha esperança de ser salva num dia que será o derradeiro, mas porque me agrada trazer para dentro de casa a cor de uma mãe que se diz vestida de sabedoria. 

O meu respeito é  imenso por esta mãe natureza, esta noite esse respeito cresceu ainda mais, e cresce sempre que o vento é muito forte e me abre muito os olhos, sempre que a chuva pontapeia tudo o que lhe aparece pela frente, sempre que as ondas em vez de me mostrarem um mar calmo, sobem vertiginosamente, olham-me de cima, e dizem-me que tenho que ter mais cuidado quando faço aquilo de pisar uma formiga. 

(imagem daqui)

8 comentários :

  1. Mais um momento Maria em grande.
    Gostei, imagine-se um 'like' grande colocado sem hesitações.
    Apenas um pormenor, ou uma dúvida se preferir: também há édredons de Verão?

    Mas ... espere lá, choveu muito? Devo viver noutra latitude pois não dei por nada. Apenas quando me fiz à rua percebi que o chão (e tudo à volta) estava molhado. Teria sido da chuva?

    Que fique bem claro que também respeito a Natureza.

    Beijinho, caríssima.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Antes de tudo o resto tenho que agradecer o seu 'like', caro Observador, soube a uns rebuçados que comprei há pouco com sabor a fruto silvestres :)

      (há édredons de Verão, sim senhor. Aliás, em minha casa, desde sempre, mal termina o Inverno o édredon de Inverno vai para a lavandaria e ponho o de Verão, que é bastante mais fino, logo não tem como função aquecer, lá está, é Verão, mas tem como função apenas aconchegar as noites que, de um momento para o outro, ou, num dia ou outro, podem ficar frescas. O mesmo processo é feito mal termina o Verão, sou uma pessoa muito organizada e isso... eheheh)

      Se choveu? Caramba, aquilo por volta das seis da manhã foi assustador. Apetecia era mesmo ter uma casa no subsolo e ficar por lá em modo protecção. A natureza em modo mãe quando lhe dá para ficar furiosa, é de fugir.

      Beijinho para si também, caro Observador.

      Eliminar
  2. Gostei tanto deste teu conto aconchegante e com cheiro a rosas. Parabéns Maria!

    Agora vou dizer-te o que senti e ouvi pela madrugada: a minha tosse é fina demais, porque resolve despertar às 5,30 da manhã. Levantei-me, fui tomar um chá e de repente a mãe natureza enfureceu-se e resolveu provocar uma queda de granizo que até me assustou. O vento era de tal forma que ouvia o som do micro da CP a dizer que havia atraso de 25 minutos e relembrei a inúmeras molhas que levei. Fui à janela e só via coisas a voar do lixo.

    Mas hoje por estar completamente partida estou de "vacances" porque o meu genro ficou com a filha que ontem foi ao hospital de ambulância porque na aula de ginástica fez uma entorse muito grave no pé, mas os bombeiros pensavam que tinha partido mesmo e imobilizaram. Um dia lindo e fui a primeira a chegar ao pé dela e como o pai chegou entretanto foi ele na ambulância com ela e eu fiquei de retaguarda. Foi cansativo para mim e para os pais.

    Por vezes temos de fazer pausas, mas por enquanto a mãe natureza não está p'ra aí virada continua a chover a potes, o vento está bravo e juntou-se um frio de rachar.

    Um abraço e obrigado por este belo momento de leitura!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Fatyly, se forem rosas chá, ainda melhor:)

      Granizo? Isso quer dizer que pelos seus lados ainda esteve um tempo mais agreste do que por aqui. Eu tenho cá um respeitinho por vento forte, que nem lhe digo, é vento forte e trovoada. Quando tudo isto acontece em simultâneo é porque a mãe natureza está furiosa com o ser humano. Tenho para mim que tem muita razão para estar...

      (um grande beijinho de melhoras para a sua neta)
      (goze as suas "vacances" :)))

      Um abraço para si também, Fatyly. Bom fim-de-semana.

      Eliminar
  3. Um texto muito bonito, sobre o temporal que se abateu durante a noite ( pelo menos na minha zona)
    E eu que tinha uma consulta no hospital do Barreiro, 21 de Setembro de 2016, adiada por carta, para 21 de Outubro, adiada por telefone para 7 de Dezembro, adiada no Guichê depois de mais de duas horas de espera, para 17 de Fevereiro de 2017, novamente adiada por telefone para hoje (não é uma lenga-lenga, é mesmo verdade) lá saí de casa ás 8 horas e mal tinha dado meia duzia de passos debaixo de chuva, eis que um condutor simpático pensou que eu não tinha tomado o duche matinal, e isto de ir para o médico sem tomar duche não é boa coisa, vai daí o senhor muito simpático, deu-me o duche ali mesmo quase na paragem do autocarro. A água é que estava assim um bocado turva, mas pronto, lá apanhei o autocarro. Mas graças a Deus, tive consulta, estava tudo bem, e o médico querendo talvez compensar-me, ou se calhar não gostou do meu ar enlameado, passou-me a requisição para o CPAP até Junho de 2018. O que me deixou mais descansada porque parece que pelo menos até essa data ele sabe que eu vou cá andar. E como sou uma sortuda saí do hospital, às 11 horas sob uma chuva diluviana, o que me deixou logo a roupa lavadinha e sem lama.
    E ainda dizem que não há dias de sorte.
    Abraço e bom fim-de-semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom - quer dizer, não é nada bom - Elvira, uma pessoa lê a sua aventura pelos caminhos de Portugal, mais propriamente no hospital do Barreiro e, até se encolhe, não de frio, mas de... que raio é que se passa com o sector de saúde para existir tanta consulta adiada (?)

      (se estava tudo bem com a sua saúde, pelo menos isso para compensar de alguma forma tudo o resto)

      Isso de carros que passam a toda a velocidade em dias de chuva sem se importarem com as pessoas, mostra todo o nosso grau civilizacional. Nisso, Portugal, também deve estar nos primeiros lugares de um qualquer ranking.
      (eu, quando ando a pé em dias de muita chuva, se vejo poças de água e se por acaso não consigo fugir dali a tempo, arranjei um truque que funciona - pelo menos tem funcionado até agora - estico o braço e faço um gesto para abrandar, quase sempre abrandam, alguns chegam a desviar-se um pouco para a outra faixa se entretanto não vierem carros em sentido contrário... um dia virá algum que não o vai fazer e é bem capaz de me acontecer o mesmo que lhe aconteceu, xiii, isso é capaz de não ser nada fácil de digerir)
      ...

      "E ainda dizem que não há dias de sorte" (ahahahah)

      Obrigada pela parte do "texto muito bonito". Abraço e tenha um bom fim-de-semana.

      Eliminar
  4. Ó Maria, então não é que esta noite sonhei consigo? Como é que se sonha com quem não se conhece? Pois, para esse "mistério" não tenho resposta.

    Mas sonhei, porquê? Porque a mãe natureza, noite fora, parecia estar determinada a partir o estor da janela do meu quarto, a escancarar a dita, tudo isto numa fúria que fazia temer o pior. No meio deste desatino, já bem desperta porque a isso era obrigada, recordo este seu delicioso texto. E sorri, e abençoei a dita mãe que inspirou a caríssima Maria.:)

    Diga-se, em abono da verdade, que inspiração, sensibilidade e arte nesta coisa da escrita, é algo que a Maria tem, ó se tem, e em abundância !:)

    Tenha um bom dia, menina do engenho e arte.:)

    Beijinho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. GL, o que me veio de imediato à ideia quando li o inicio do seu comentário, naquela parte do "esta noite sonhei consigo", foi: isto é que é não ter pontaria nenhuma, com tanta coisa boa para se sonhar e calha ter uma Maria a desarrumar os sonhos :)))))))))

      (esta noite por aqui foi muito calma, choveu apenas de forma muito ordeira e tranquila, prefiro, de longe, assim)

      Bom sábado, GL e obrigada pela simpatia :)

      Eliminar