sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Ti carunchoso e a sua planta que não gostava de luz aos quadradinhos (e as histórias dos tis continuam...)

Ti carunchoso era um género de Ti que passava os seus dias plenos de ar bafiento a regar a sua planta preferida denominada de antigamente é que era bom. Ti carunchoso levantava-se de manhã mesmo àquela hora em que a manhã já não vai longe, punha os pés cuidadosamente alinhados fora da cama, espreguiçava-se respeitosamente, bocejava paliativamente e pé antes de pôr o seguinte à frente do pé anterior que era igual a si mesmo, Ti carunchoso tossia com uma tosse muito bem organizada e, alta, tosse alta e nada hospitaleira a dele. Carunchoso sem Ti antes do caruncho, era coerente, tinha sempre os dois pés colados ao resto do corpo, corpo ressequido e agrafado ao mundo que já tinha sido e naquele momento já não era, só por isso aquele amor desmesurado à planta do antigamente é que era bom. 

Uma coisa, no entanto, afligia de morte e medo e muito mais medo antes da morte, Ti carunchoso, é que a planta do antigamente é que era bom não havia meio de florir. Ti carunchoso coçava a cabeça de um fio e meio de cabelo deprimido, e pensava naquele seu pensar com cheiro a palavras presas em celas aos quadradinhos que aquilo só poderia ser obra do demo sem ónio, só um demo sem ónio secaria uma planta de verde acabado à pancada que é um verde combalido e incapaz de viver mesmo que o alimento seja de água, água com a força a setenta por cento. Ti carunchoso teria a sua força a trinta por cento. 

Eu, da minha janela, observava todas as manhãs Ti carunchoso, manhãs essas com cheiro a torradas, cacau que é mesmo cacau e não a fingir que é, não sendo, manhãs que se vestem com um roupão quente e andam pela casa com o cabelo meio desalinhado nos sítios que não serão os certos,  mas nos sítios que lá se vão arranjando, nessas manhãs pensava que trinta por cento de força não serviria de grande coisa a Ti carunchoso. Nem a ele nem à sua planta que já tinha morrido e Ti carunchoso com tanto caruncho à volta nem se apercebia.

(a ver se dou um salto à casa de Ti carunchoso logo mais à noitinha e lhe levo uma planta denominada de apesar de tudo agora é melhor, parece que tem lá no meio uma flor minúscula de cor azul turquesa, talvez devolva ao riso amarelo de Ti carunchoso um branco mais branco não há, assim como o Tide que se tornou detergente e antes de ser detergente era polícia, usava um crachá onde a letra pê era dominante e predominante, coisas...)


6 comentários :

  1. Este seu texto oferece-nos a possibilidade de sor(rir) e de pensar. De sor(rir), pelaforma como está escrito. De pensar porque nas linhas e também nas entrelinhas se percebe a realidade dos factos.
    Fico com a sensação de que o "Ti carunchoso" é pessoa para já ter entrado na chamada terceira idade sem que tenha tomado as devidas precauções. Que é como quem diz ter parado no tempo mas num tempo cinzento escuro.
    Nunca Maria conseguirá devolver ao "Ti carunchoso" um "branco mais branco não há". Assim sendo, o que fazer? Sinceramente não sei.

    Num dia que não tem sido fácil, despeço-me em formato anti carunchoso.
    Um beijinho, Maria, com votos de um bom fim de semana.

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    1. Estes são dos textos que mais gosto de escrever. Aliás, eu gosto de escrever, independentemente do facto de o fazer bem ou nem por isso, gosto, faz-me muito bem (uns bebem até cair, eu escrevo e por vezes tenho consciência que também caio) e só por isso não preciso de penar para que a inspiração surja. Acontece naturalmente. Flui. Faz-me lembrar "slide" que gosto de praticar de vez em quando, no slide deslizamos por ali abaixo e a sensação de liberdade é imensa. Estes textos funcionam como slide em modo escrita.

      Ainda bem que sor(riu), que leu nas entrelinhas, é que as pessoas podem ser levadas a pensar que as palavras gostam disso de se meter nos copos e de uma ou outra "rave" :))))

      Beijinho para si também, caro Observador.
      (espero que o seu dia entretanto tenha melhorado)

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  2. Ti carunchoso pertence a um grande grupo de "tis". "Tis" bolorentos, o que só ajudava - ou ajuda? - a alimentar o caruncho, o tal responsável por todas as ângustias, e medos e espantos. "Tis" autómatos, obrigados a cumprir ordens. É que estes "tis" foram "programados" para criar as tais plantas (daninhas) do "antigamente é que era bom". E regavam-nas, e cuidavam delas com mil cuidados mas elas, ingratas, deram em começar a perder o viço, a definhar. E eles, os "tis", num desespero. Afinal, sempre tão dedicados, tão cumpridores, não mereciam mais consideração?
    Mas um dia, alguns que ainda não eram "tis", descobriram que havia sol. E abriram as janelas e as portas, e arejaram e remoçaram. E correram em busca de novas plantas. E regaram-nas, e falaram-lhes na linguagem que só elas entendiam. E? E aí renasceram, e desabrocharam, e floriram.
    E é assim, que os "tis" do futuro talvez estejam imunes ao caruncho. Não há a certeza, não, ainda não há isto porque a nova planta "apesar de tudo agora é melhor" ainda não está devidamente testada. Há uma série de questões em aberto, como que tipo de adubo as fará desenvolver de forma sadia, quais os cuidados que melhor resultam, que medidas seguir para que cresçam fortes por forma a multiplicarem-se como se não houvesse amanhã. Assim tem que ser, a bem do jardim.
    Elas, porque sábias, não duvidam que os "tis" carunchosos não são aconselháveis.

    Beijinho, Maria.:)

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    1. GL, as pessoas que continuam a usar orgulhosamente ao peito aquilo do antigamente é que era bom, por vezes são mulheres de uma geração em que eram consideradas produtos de segunda categoria, ou nalguns casos nem sequer "subiam" a esse patamar, por vezes eram simplesmente invisíveis e existiam para servir os homens, se possível de cabeça baixa, ora eu que felizmente não vivi no tempo de uma ditadura Salazarista, tenho, admito, muita dificuldade em compreender isto. Como é que eu sendo mulher, e se tivesse vivido no tal do "antigamente é que era bom", poderia defender algo que atentava contra a minha dignidade como mulher e como ser humano?

      Este texto fala exactamente disso, de uma guerra silenciosa entre gerações (gente do tempo da ditadura e que insiste em querer manter-se por lá e gente que vive num tempo de democracia) e por ser silenciosa faz estragos também de forma silenciosa. Existem as pessoas do tal antigamente é que era bom que não querem a mudança e existem pessoas de uma outra geração que percebem que a mudança é necessária, no entanto, por vezes, têm que baixar os braços porque os primeiros lhes colocam tremendos obstáculos no caminho. Não deveriam existir guerras entre gerações. O passado deveria andar de braço dado com o futuro, ora isto nem sempre acontece. Infelizmente.

      Bom domingo, GL. Beijinho para si também :)

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  3. Já tenho caruncho porque ter 66 anos não é ter 26 ou 36 ou 46, mas mentalmente sempre me meteram NOJO os "Tis carunchosos" que viveram "no antigamente é que era bom" sem terem dado corda à massa cinzenta porque o "dono daqueles tempos" assim o queria e perder os "Pês ou medalhas" seria impensável. Também aqueles e aquelas que trabalhavam no duro, faziam filhos como os coelhos, metidos uns sobre os outros, tal contas de um colar onde os Tis enfiavam nas Tis sem mas nem meio mas. Embelezavam-nas com porrada e fome, muita fome e dou graças a Deus por ter tidos uns pais que tive que ambos nunca se referiram com essa bojarda de que "antigamente é que era bom"!

    Os mais afortunados pois os tais da alta nunca deixaram a alta sociedade e rodeados de "tralha milionárias e colecções invejáveis" continuam na mesma onda sem se aperceberem que os tempos mudaram julgam-se os maiores e querem pôr todos a pensar e ou a andar no mesmo registo!

    Os tempos mudaram e continuam a mudar vertiginosamente. Eu já não pertenço à geração das filhas e genros e das netas então muito menos, mas faço o que muitos avós não fazem: falar muito, mas muito dos tempos horríveis do "antigamente" e dos "perigos de todas as gerações após"...e com uma ideia persistente e constante enquanto puder: NUNCA PERDER O COMBOIO DA EVOLUÇÃO DO PRESENTE E SOBRETUDO DO FUTURO e saber aceitar o que de tão bom é viver em LIBERDADE...mas com regras e longe, bem longe desses "Tis da trampa...desculpa carrunchosos" e fico-me por aqui para não dizer mais asneiras!!!!

    Um beijo desta que com imenso prazer se considera um TIR:)))

    Gostei muito

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    1. Fatyly, este tipo de caruncho não é igual àquele envelhecimento próprio da idade, que acabará por acontecer a cada um de nós, isto se tivermos sorte. Este tipo de caruncho de que falo no texto é venenoso, não interessa nada, convém uma pessoa manter-se afastada o mais possível. É um caruncho que está colado à pele de pessoas que não conseguem enxergar o futuro porque não querem sair de um passado cheio do antigamente é que era bom lá para os lados de uma ditadura Salazarista.

      Tem toda a razão, isto do antigamente é que era bom não é só defendido por pessoas mais pobres, existe gente rica que é exactamente igual nesse ponto.
      ...

      Olhe que isso da Fatyly ser baptizada como uma senhora em modo TIR, pegou e bem. Mal sabia eu quando a chamei de senhora TIR que iria ficar para a história da Internet blogosférica :)))

      Tenha uma boa noite, Fatyly. Obrigada.

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