terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sopas de cavalo cansado (vinho tinto num dia em que caem litros de água do céu)

Reza a história que - nalguns intervalos deste texto também decidi rezar - lá mais atrás no tempo, gente do campo, agricultores, não existindo supermercados online nem grandes contas bancárias no sitio dos bes e não dos vês que esticassem o suficiente no sentido de lhes permitir comprar comida da boa, dariam aos seus filhos, naquela idade em que os filhos precisam de grandes orientações por parte de pais o menos possível desorientados, pão embebido em vinho tinto em tigelas de cereais sem cereais. Faça-se um parágrafo para beber água.

O sítio, não do Pica Pau Amarelo, mas o sítio da sabedoria popular, portanto um sitio com cor de vinho, diria que vinho e pão servido a crianças de tenra idade como se fosse uma sopa tomada ao pequeno-almoço, lhes daria força para enfrentar o dia. Um dia de trabalho por vezes, porque isso de escola e vinho tinto ao pequeno almoço era bem capaz de baralhar as ideias às crianças. Já bastaria crescer com aquele gosto do vinho na boca e saber que quando fossem grandes, provavelmente, e no máximo, conseguiriam ser um alguém - ainda que muitos teimem no apelido de ninguém - a tombar em vielas escondidas com garrafas empunhadas em mãos ásperas, de cor vinho escuro, a quem o destino decidiu ser cruel quando garantiu que nascessem sob a orientação de pais que, conhecendo o sol, não conheciam a cor amarela, mas sabiam que lá teriam de se habituar a cores de fundo de garrafão quando o garrafão, para eles, já está meio vazio.

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Dei comigo a pensar nisto das tradições aliadas à renovação, e vai que um dia destes alguém com o propósito do empreendedorismo, em vez de pão embebido em vinho tinto ao pequeno-almoço feito à maneira para crianças, se lembra de substitui o vinho por vodka. É normal, pensarão eles, temos que obrigar as crianças a crescer rapidamente só naquela de não se perderem por ai, não em vielas, mas em avenidas que vão desaguar a todos os lados. Ou a lado nenhum.