quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Maria, eu portanto, vou falar muito à minha maneira da foto vencedora do ano - World Press Photo

Faço entrar a foto que não foi a premiada, mas a foto do Embaixador ainda vivo. 
Não terá grande impacto.
Não terá nada de artístico.
Tão pouco interesse jornalístico.

São apenas duas pessoas vivas, 
embora a pessoa em plano de fundo se prepare para roubar a vida à da frente.


Agora faço entrar a foto que foi a premiada, a foto do ano segundo a World Press Photo.
Aquela que nos convida a dissertar sobre o seu lado artístico. Jornalístico.


Já deu para perceber que esta é a imagem premiada, com um pequeno senão, foi recortada por mim de forma a que se evitasse ver o Embaixador morto no chão, indefeso, exposto para todo o mundo poder ver de uma forma absolutamente fria. Sendo fotografia, arte, recuso-me pensar que arte é isto, arte dificilmente poderá passar por isto, arte é beleza, arte não pode ter como imagem de marca o terror. 

Alguns poderão concentrar-se no facto de ser apenas uma fotografia jornalística e, só por isso, ser merecedora do título de fotografia do ano. Bom, a esses alguns eu ousaria perguntar munida do meu lado emocional e não racional, porque existem assuntos para os quais o meu lado racional, por muito que eu tente, mantém-se desactivado, ousaria perguntar, dizia eu, e se...

... o homem morto na foto fosse o pai, irmão, avô, marido, namorado...
continuariam a achar que a foto deveria correr mundo como sendo uma excelente foto?

Já agora, só mais uma pergunta:
Premiando este tipo de fotos não se está, de alguma forma, a dar voz a terroristas? 

15 comentários :

  1. Reagi muito mal quando soube que a World Press Photo tinha considerado a foto em causa como a 'foto do ano'.
    Não compreendi, nem compreendo, como pode o júri que a WPF designou para o efeito ter tomado esta decisão.
    É verdade que não se vê sangue mas também é verdade que a violência está estampada no cenário. Depois, ligando a imagem à ocorrência, o mínimo que consigo sentir é indignação.
    Sinceramente, não me apetece alongar o comentário. Isto é mau demais para ser verdade.

    Respondendo à sua pergunta: "Premiando este tipo de fotos não se está, de alguma forma, a dar voz a terroristas?", só posso concordar.
    E mais não digo.

    Tenha um muito bom dia.
    Beijinho

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    1. Eu admito que fiquei bastante perplexa com tudo o que fui ouvindo, lendo, acerca desta foto e o seu direito a ser foto premiada pela World Press Photo na categoria de foto do ano. Os discursos mais ou menos intelectualizados à volta de assuntos que, a mim, só me remetem para o lado negro da vida, o lado que convém sabermos lidar com ele, porque ele existe, é um facto, quer queiramos quer não, existe, só que premiar fotos que mostram assassinatos ao vivo e a cores, é coisa que nunca vou entender por muito que me esforce. Nem sequer vou entrar na verborreia de a catalogar de foto artística porque isso despertaria em mim instintos primitivos, também, só naquela de fazer pendant com gente dada à poesia e que sendo dada à poesia é igualmente capaz de uma frieza capaz de nos fazer retroceder em vez de nos fazer avançar.

      Na minha opinião, não é necessário ver sangue, o facto de se ver um homem caído no chão, sem vida, homem esse que foi morto em directo, pelas costas, à traição, por um terrorista, com todo o mundo a assistir, já é suficientemente bárbaro para que não lhe fosse atribuído prémio algum. Quero cá saber do lado jornalístico. E desde quando é que o lado jornalístico se sobrepõe ao lado humano?!
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      Beijinho para si também, caro Observador.

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  2. Por estas e por outras é que a violência cresce todos os dias. Por esta e por outras se publicam videos de espancamentos. O mundo está doente Maria.
    Um abraço

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    1. Eu tenho esta teoria muito minha, que violência gera violência. Portanto seguindo esta minha teoria, mostrar vídeos de espancamentos estimula o lado negro e escondido de alguns, tal como premiar fotos de assassinatos poderá despertar o lado negro trancado dentro de outros só à espera de um pequeno incentivo para se mostrar ao mundo. Entretanto é uma forma de se dizer que os terroristas já ganharam, isto de os mostrar ao mundo de braço levantado, dedo em riste, em modo ameaça, é simplesmente imprudente. Dar-lhes este tipo de visibilidade é francamente muito mau. Visibilidade em modo foto premiada.

      Também acho que está doente este mundo. Moribundo. Mesmo.

      Um abraço para si também, Elvira.

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  3. Quando vi a foto do ano ia-me dando uma travadinha e pensar mas o que anda na cabeça destes juris/jurados no que toca a avaliações do quer que seja? Não sabem a velha máxima que violência gera violência e acirra ainda mais os tresloucados e não só?

    A do ano passado foi magnífica e respondendo às tuas perguntas:

    - Claro que não venceria! Mas o que na foto ainda está vivo (foi abatido e agora está morto) com esta foto irá virar um herói, um justo vencedor/lutador por causas e neste caso julgo que era por Alepo, vindo de uma cultura/forma de ser e estar, com que não alinho, jamais votaria nesta foto.
    ..................

    para mim seria esta:
    https://www.worldpressphoto.org/collection/photo/2017/spot-news/walid-mashhadi
    ou esta
    https://www.worldpressphoto.org/collection/photo/2017/spot-news/walid-mashhadi
    ou esta que para mim é igualmente "um abre-olhos"
    https://www.worldpressphoto.org/collection/photo/2017/contemporary-issues/lalo-de-almeida/08

    Desculpa o enorme comentário.

    Beijinhos

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    1. Fatyly, esta foto, a meu ver, espelha a crueldade, o terror, e embora não discorde que, ao acontecer a tragédia de o Embaixador ser morto pelo terrorista, os jornais a publicassem junto com a notícia escrita, nada contra, agora completamente diferente é premiar a dita fotografia como foto do ano. Ah e tal é uma foto jornalística e foi bem captada... Essa parte daria pano para mangas.

      (logo mais à noite vou ver os links, obrigada)

      Tenha uma boa noite, Fatyly. Beijinho para si também.
      (não existe nada para desculpar, já sabe que está à sua vontade :)

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  4. Maria Madeira, nem com o recorte (muito propositado) consigo gostar da foto. Continua a reter um lado muito negro, em ascensão.

    Abraço

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    1. Eu sei, Impontual, tem toda a razão, nem com recortes a foto é fácil de digerir, só que aqui foi apenas para conseguir passar o meu ponto de vista.

      (também gostei do seu texto, o que escreveu há uns dias, que falava deste mesmo tema, daí ter comentado)

      Abraço para si também.

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  5. Bom dia, Maria , mais uma vez :)

    A Maria acredita que não tenho uma opinião formada em relação a este prémio? Eu que costumo ter ideias tão fixas. Talvez a minha opinião formada seja precisamente essa: não ter uma opinião formada. E não tenho porque consigo entender todos os argumentos, tanto os que são contra como os que são a favor do prémio. Porque percebo que as pessoas estão a analisar "a coisa" e a interpretar segundo pontos de vista totalmente diferentes e usando critérios totalmente diferentes... Não vi ninguém , das pessoas que ouvi comentar, fosse contra, fosse a favor do prémio, que fosse a favor da violência ou que apelasse à violência. Vi pessoas dignas e idóneas, todas a avaliar o prémio por pontos de vista totalmente diferentes , a usar critérios diferentes. Duvido também que o júri que atribuiu o prémio o tenho feito com intenção de apelar à violência. Tenho ideia de que o presidente do mesmo júri terá votado contra... Acho que estou certa... Mas o presidente de um júrí não decide sozinho, senão não existiam outros membros dentro do mesmo... Há grandes discussões sobre "Afinal, o que se está ali a premiar?" e isso é discutível, mas de certeza que não é o acto em si... Ah, é verdade... Desengane-se quem pensa que é por premiarmos fotografias de rosas, que a violência desaparece do mundo... Acho que é um bocado por aí...

    Abraço :)

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    1. Olá São,

      Acções geram acções, todos sabemos disso, ou pelo menos espero que a pessoa quando chega àquele estado dito adulto já perceba o que quer isto dizer. Também não é à toa que se sabe que muita coisa é manipulada de forma a atingir um determinado fim. Nada é feito de forma inocente, existe sempre um ou outro interesse meio escondido pelo meio, seja ele qual for, e sendo assim eu volto a insistir nestas duas perguntas:

      1. E se o homem morto na foto fosse o pai, irmão, avô, marido, namorado... continuariam a achar que a foto deveria correr mundo como sendo uma excelente foto?

      2. Premiando este tipo de fotos não se está, de alguma forma, a dar voz a terroristas?

      São duas perguntas directas que merecem também duas respostas directas.
      ...

      Para mim uma foto de um assassinato que é premiada, uma foto de terror que é premiada, uma foto de um terrorista que ameaça inclusive o resto das pessoas quando levanta o braço em modo de vitória ao acabar com a vida de um ser humano da forma mais cobarde que existe, deixa-me a pensar que caminhamos no mau sentido e quando caminhamos no mau sentido é sinal de que o futuro é bem capaz de nos premiar também com um lado todo ele muito negro. Eu acho que existe todo um lado insensível do ser humano que está a vir ao de cima de forma assustadora, ou seja, o retrocesso começa a dar cartas.

      Uma fotografia de rosas dificilmente despertará instintos assassinos em alguém, uma fotografia de alguém a ser decapitado pode acordar instintos assassinos em alguém. Eu tenho para mim que tudo se encontra dentro de nós, em menores ou maiores proporções, e encontra-se até se dar um clic qualquer, existem botões que convém não se experimentar a ver se funcionam.
      .
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      .


      Abraço para si também, São :)

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    2. Eu compreendo todos esses argumentos contra, Maria, mas, repito, também compreendo os argumentos que já ouvi a favor do prémio... Acho que para ter uma opinião mais fundamentada tinha que ouvir os critérios do júri e saber o que realmente está a ser premiado... Ao premiar-se a fotografia, premeia-se o jornalista, ao fim e ao cabo...

      Hum... Acções geram acções? Talvez, em certos casos, mas repare no que aqui está... Não é um adolescente tresloucado que desata aos tiros na escola onde foi vítima de bulling... Não é o marido traído que abre fogo contra o amante da mulher... Não: é um acto de terrorismo típico (???) dos nosso dias, da guerra que, quer queiramos quer não, estamos a viver... Acho que só poderá identificar-se com aquele terrorista quem já tiver uma mente de terrorista e, contra isso.... As palavas proferidas por ele mostram o tipo de crime que é... Um gajo que fosse matar o amante da mulher (para usar um exemplo "banal") não falaria em Alepo... Enfim... Trata-se de um acto terrorista da guerra que estamos a viver... Levado a cabo por um homem de fato e gravata... Alto, São, que foste tu dizer? É isso que muita gente não quer que se diga, também :D ...

      Mesmo a Maria admitiu no post sobre o Trump que não devemos fugir da realidade, desanuviar... Bom, já me perdi (eu às vezes lembro-me de algo que quero dizer à frente, digo logo, antes que me esqueça, depois volto atrás e Às vezes ando assim de trás para a frente :D )

      Vejamos, tendo em vista o caso específico não me parece que comportamento gere comportamento, sinceramente, pelos motivos que já referi... A coragem do fotógrafo foi grande, isso sem dúvida... Se se quis remirar também a coragem do fotógrafo, então, aí sem dúvida que estou 100% de acordo... É preciso ter muito sangue frio e coragem para, numa situação daquelas, se lembrar de pegar numa máquina fotográfica e fotografar o momento, ainda que se seja repórter fotográfico... quando a reacção natural seria fugir ou esconder-se! Porque , ao que sei por pessoas que já viveram situações semelhantes, primeiro que se perceba que o alvo é só e somente aquela pessoa alvejada, ainda demora um pouco. Não é imediatamente que se percebe isso... Ora, num momento desses pegar numa máquina fotográfica é de grande coragem... Outro argumento que já ouvi a favor é o facto de ser uma fotografia totalmente verdadeira, sem retoque, sem preparação, sem várias tiradas antes e depois. Pelo que dizem, coisas rara... A maioria das fotografias que se vê por aí são montadas para o momento ("faça uma cara de sofrimento... Olhe para baixo... Incline mais o rosto...") e depois tiradas do meio de 20 ou 30 dos momentos que antecederam e que se seguiram... Não foi o caso...
      (continua)

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    3. Mas para mim o mais importante da fotografia, o que eu quereria mostrar se a usasse em algum trabalho é a imagem do terrorista: um homem branco, de fato e gravata... É perturbante, não é? Há aí qualquer coisa que muita gente não gosta que se veja... Que imagem temos de um terrorista? é esta? Não é. É de fulanos de cara tapada, vestidos de negro, com capuzes, pelos olhos, visivelmente morenos, de barba... Enfim, tudo menos isto. um amigo meu esteve recentemente em Paris, como jovem turista que vai só de fim de semana, levava uma mochila e não consegue contar as vezes que foi revistado, que o mandaram abrir a mochila e virar os bolsos do casaco, assim para o largo... Não viu ninguém de fato e gravata ser revistado... E, afinal...

      Em relação às duas perguntas que a Maria faz:

      2- Se o homem morto fosse familiar ? Isso dependia da pessoa, da sua personalidade. Até podia dar o caso de até querer que se divulgasse mais, naquela ideia de "Olhem o que fizeram ao meu ente-querido"... Como poderia não querer, repito: depende da pessoa. A menina da foto do Vietenam , a que fugiu nua, nunca se importou que a foto corresse o mundo... Ao que sei, ela ainda vive, com muitas marcas, mas nunca se importou de ser o rosto de uma guerra... Poderia não ter gostado, mas não se deu o caso...

      2- Não acho que se esteja a dar voz a terroristas. A ideia, pelo contrário, parece ser, chocar... Mas essa parte já é discutível... Provavelmente, eles também querem que a fotografia seja vista e aí reside o senão... Mas a ideia não me parece que seja dar-lhes voz...

      Boa Sexta-Feira. Abraço :)

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    4. São, temos que pensar pela nossa cabeça, não estou nem um bocadinho interessada nos critérios de um júri que resolve premiar este tipo de fotografia. Não se premeia fotos onde transpira terrorismo e onde um ser humano foi morto à traição para todo o mundo ver. Usar a foto nos artigos onde se falou daquela notícia especifica, acho que é o papel de um jornalista, o seu trabalho, e o seu trabalho termina ali.

      Vou pegar nesta sua parte do comentário:
      "Acho que só poderá identificar-se com aquele terrorista quem já tiver uma mente de terrorista"...

      Pois, sabe que muitos jovens estão a ser aliciados, em todo o mundo, para se juntarem a grupos terroristas, por vezes jovens que até podem ser nossos vizinhos, portanto não é de todo descabido dizer que convém não carregar em determinados botões. Isso da mente de terrorista tem muito que se lhe diga, desviando-me um bocadinho do tema, ainda que continue colada a ele, diga-me a São a razão de homens supostamente pacatos e "boa gente" de repente pegarem numa arma, numa faca e, matam mulheres, vizinhos, qualquer ser humano que naquele exacto momento lhes apareça pela frente? Ah, pois é! Isso de "mente de terrorista" está tão escondido dentro das pessoas que é completamente impossível saber quem é quem nos dias que correm.

      Se o fotógrafo foi corajoso? Não sei. Tenho muitas dúvidas. Vamos supor que o fotógrafo tem dois filhos ainda muito pequenos. Vamos supor que tivesse apanhado também com uma bala do terrorista e tivesse morrido. Agora vamos supor que os filhos pequenos ficam sem o pai que é quem os protege. Pergunto-me se a paixão do fotógrafo são os filhos ou a profissão? Isto reportando-me a este caso específico, porque eu acho que se fosse comigo trataria de me manter viva só naquela de os meus filhos ainda precisarem muito de mim. Mas isto sou que sou muito estranha.

      São, isso do fato e gravata já deveria estar completamente ultrapassado, pois se até em Portugal as burlas aos mais velhos são efectuadas, ao contrário do que acontecia há alguns anos, por pessoas muito bem vestidas, como bom ar e que não têm grandes problemas com isso de bem falar. O mundo mudou e as pessoas continuam a querer manter os olhos postos no passado.

      Digo-lhe desde já que acredito que a maior tortura para os familiares daquele Embaixador é bem capaz de ser ver esta foto premiada. Para os seus filhos, netos, mulher, mãe... Portanto por vezes é preciso tentar calçar os sapatos dos outros para despertar para a vida. Olhar a foto é uma coisa. Sentir a foto é outra.

      Ser contra o premiar esta foto, não é, de todo, exercer censura, muito longe disso, esse é um argumento demasiado fraco, eu continuo a achar que é dar voz aos terroristas. Opiniões...

      Abraço para si também, São. Tenha um bom fim-de-semana.

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  6. O prenúncio da barbárie.

    Fique bem, Maria.

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    1. Infelizmente, tendo a concordar.

      Tenha uma boa noite, AC.

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