domingo, 26 de fevereiro de 2017

Janelas floridas (ou quando nos dá para deixar a imaginação à solta)


Uma das minhas paixões mais do que assumidas são janelas floridas. Gosto de ver ruas limpas, canteiros bem arranjados, jardins bem cuidados e, naquelas bairros típicos de Lisboa (ou arredores) janelas que deixam tombar em modo delicado flores miudinhas de variadas cores, todas misturadas. É um género de bálsamo para os olhos. Por vezes acontece em ruelas estreitas, sem graça alguma, surgir uma janela mais arranjada, com flores, sejam elas em vasos, sejam no próprio beiral, e, eis senão quando, a ruela parece ganhar outro brilho.  Pequenos pormenores por vezes emprestam à vida  um género de brilho maior.

Já me aconteceu, inúmeras vezes, passear a pé num dia em que é permitido passear sem hora marcada. com relógio no pulso só para enfeitar, dar comigo em momentos de puro luxo que  nada têm a ver com lados todos eles materialistas e, nesses momentos deixar o pensamento, a imaginação, voar.

Dou comigo a olhar uma janela toda ela florida, pintada de branco, e tento imaginar a dona daquela casa. Vendo tudo tão bem cuidado por fora, dá-me para achar que o resultado por dentro é bem capaz de ser semelhante - pode até nem ser, mas naquele momento se a imaginação é minha, quero que seja - sendo semelhante só pode ser uma senhora daquelas antigas em idade, de vida bem vivida, com aspecto muito limpo, casa imaculadamente arrumada, com napperons feitos à mão pela própria por tudo quanto é sitio, no ar uma mistura de  aromas que vai do sabão azul e branco à alfazema e à água de rosas. Se arriscar e deixar a imaginação à solta só mais um bocadinho quase que consigo sentir o cheiro do bolo de laranja acabado de sair do forno e, por entre a cortina toda ela dançante, um leve fumegar de um chá de limão daqueles de cor amarela, como o sol, que insiste em se encostar à parede de uma casa emoldurada com uma janela florida. Diria que o sol é bem capaz de andar a piscar o olho à camélia que gosta de se maquilhar logo pela manhã com uma cor que é de fogo. Vai dar incêndio quase de certeza. Incêndio por dentro, que é por onde começam os incêndios mais perigosos.

8 comentários :

  1. Acho que muita, mas muita gente quando passeia a pé nunca levanta a cabeça para apreciar o que mostras. Gosto imenso e pena é que não existam mais mas antes de tudo um pequeno grande pormenor: prender bem os vasos de preferência para o lado de dentro que elas, as belas flores sabem pendurar-se e assim quem passa não leva com o vaso em cima.

    Daí ter gostado imenso das ruas de Paris com prédios inteiros floridos, limpos etc. Também Amsterdão que a caminho de Roterdão tudo é florido, vestidos tradicionalmente, limpo, imensamente limpo.

    Dou mais asas ao pensamento quando me deparo com uma casa abandonada e vezes sem conta sento-me no que resta do muro e dou corda: quem viveu aqui? Para onde foram? Olha ali aquilo e outros pormenores,,,ou seja tento ser uma bailarina entre aspas esvoaçante a integrar-se num hipotético cenário!

    Aqui há duas aldeias que dá gosto ir...Gouveia e Vinagre. Esta última ser vista do eléctrico é algo tão mágico:)

    Beijocas e um bom domingo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fatyly, acredito que durante a semana a maioria das pessoas naquele corre-corre diário, não tenha tempo para observar os locais por onde passam. Agora, durante o fim-de-semana, nos feriados, nas férias, quero acreditar que as pessoas usam os olhos para a função que foi dada aos olhos, admirar e observar tudo que nos rodeia, que pode passar por ser bom ou nem por isso, neste caso de janelas floridas é o lado bom da vida que merece a nossa atenção. Penso eu. Quem diz janelas floridas, diz tudo o que nos despertar os sentidos. Eu acho que uma cidade, uma vila, o que quer que seja, se estiver limpo, cuidado, e ainda por cima com cor, neste caso flores que nem sequer precisam de muita manutenção, porque existem muitas, acaba por tornar os dias mais leves a quem passa. Lixo no chão, paredes riscadas com palavrões, com palavras pesadas, prédios pintados com cores demasiado garridas só naquela de disfarçar a pobreza que por ali existe, não funciona, ou se funciona a intenção sai furada. Espaços verdes, árvores, muita flor e, já agora, dar trabalho a jardineiros que bem precisam, era um vinte em um magnifico.

      (de vez em quando dá-me para ir a Campo de Ourique apanhar o eléctrico 28 só naquela de ver se o passeio continua a valer a pena, acho que tenho de pensar na resposta a dar...)
      ...

      "não leva com o vaso em cima" (ahahahah)

      Para si também, um bom domingo, Fatyly.

      Eliminar
  2. E a menina hoje deu uma de poeta e escreveu um texto tão belo que até Alberto Caeiro teria invejado.
    Maravilha Maria.
    Um abraço e bom domingo carnavalesco.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Essas palavras simpáticas vindas de alguém que sabe escrever como a Elvira, é qualquer coisa capaz de me animar o dia :)

      Obrigada, Elvira. Tenha também um bom domingo, com Carnaval ou sem ele.

      PS: Os domingos pedem textos um pouco mais tranquilos só naquela de dar descanso às notícias que nos esmagam quer queiramos, quer não, durante a semana.

      Eliminar
  3. Aqui está um texto maravilhosamente simples, onde se fala de flores, de ruas limpas e de outras coisas que nos agradam.

    Nada mais para dizer, na linha dos domingos que pedem textos tranquilos e, neste caso, pequenininhos.

    Bom início de semana, Maria.
    Um beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Admito que tenho um grande problema com uma fatia de Portugal e com algumas pessoas que vivem nessa mesma fatia, e isso passa por simplesmente não entender como é que um país tão pequeno está tão pouco cuidado, pelo menos uma grande área, está. Andamos por aí, nas estradas, e não se percebe o drama de plantar flores que depois tratam de sobreviver sozinhas. Existe lá coisa mais agradável do que ver bermas de estradas cheias de flores? Flores do campo, miudinhas, de muitas cores (?)

      (não tarda está aí o Verão e lá vão começar as queixas das matas pouco limpas e que acabarão por provocar novamente uma onda de incêndios, seguido de uma onda de indignações. A malta tem Ministros exactamente para quê? É que eu sou um pouco lerda das ideias e existem coisas que não entendo... e lá se foi a tranquilidade ao ar :))

      ("pequenininhos", espero que não seja sinónimo de pouco importante :)))

      Beijinho para si também, caro Observador.

      Eliminar
  4. Olha, olha, a Maria a mostrar o seu lado sensível ao belo, à harmonia, a tudo e tudo que esteja nos seus lugares, arrumadinho, limpinho que, é com quem diz, lindo de se ver.:)

    Partilho desse seu gosto, mas...? Maria, em Campo de Ourique - isto é apenas um exemplo, já vi mais - há uma janela, num rés-do-chão, que tem dois canteiros de flores, só que as flores, as pobrezinhas, são de plástico. Nem queira saber o que aquilo me "arrelia"! Que ideia é aquela? Aquilo serve para quê? Sabe o que me faz lembrar? Os jazigos que têm, dependurados, uns tristíssimos ramos de flores, muitos deles com anos de sol e, muitos, muitos de esquecimento daqueles que lá "moram".
    Neste momento - aposto -, a Maria está a pensar: lá está a GL sempre a ver o lado feio da "coisa". Não é nada disso, só que tendencialmente tenho um "olhar" talvez, como direi, mais abrangente, seja lá isso o que for.

    O texto? Um mimo! Porque é que escreve tão bem, diga lá?! Um prazer - sim, já disse, mas vou repetir - ler o que sai da sua mão, ou melhor, da sua sensibilidade.

    Boa semana.
    Beijinho, Maria.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. GL, eu sempre fui assim, aliás, tenho um lado todo ele demasiado metódico - se é que o termo metódico já não é por si só demasiado - tenho um lado compulsivamente arrumado, compulsivamente limpo, que convive com outro muito livre e espontâneo. Saio um pouco da ideia que se tem de gente dita normal. Tenho dificuldade em ser "normal" :)))

      Conheço muito bem Campo de Ourique, existiu um tempo lá mais para trás em que estive quase a comprar casa na rua perpendicular à rua dita principal, uma casa renovada que me apaixonou no primeiro momento, o negócio acabou por não se concretizar, ainda que eu ache que um dia, quem sabe... E acho Campo de Ourique um bairro muito bonito, conheço cada canto, cada loja, cada restaurante, mercearia, café, jardim, igreja, casas, ruas onde não me importava de viver e outras que nem tanto, costumo ir aos saldos/promoções a lojas de Campo de Ourique, compram-se coisas maravilhosas, de qualidade, que primam pela originalidade e pelo bom gosto, portanto dá para perceber que a minha paixão por aquele bairro é grande.
      ...
      Obviamente que existirão flores sem serem naturais em janelas, existem em todos os sítios de Portugal, de Norte a Sul passando pelas ilhas, é uma praga, há quem goste disso do plástico em flores, vá-se lá saber porquê.

      Obrigada, também, pela simpatia. Eu acho que não é escrever bem (escrever bem, escreve a MP e a CNS) o que acho é que se calhar se nota que isto das letras escritas é mesmo um grande amor, amor para a vida :)

      Tenha também uma boa semana.
      Beijinho, GL.

      Eliminar