quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Falar de eutanásia na primeira pessoa

Tenho para mim que falar de eutanásia deveria ser falado na primeira pessoa. Calçar os próprios sapatos. Os que mais apertam. Os que mais incomodam. Os que mais provocam ferida.

Ou seja, o que quero dizer é que devo ser eu a decidir o que quero fazer da minha própria vida, quando a vida me impedir de viver com dignidade. E dignidade para mim passa por não depender de máquinas, nem de terceiros, de terceiros que me ligam a elas obrigando-me a uma existência que nesse dado momento já não faz sentido. Já não faz sentido para mim, pode fazer sentido para os que me amam, só que acho que amar alguém é  respeitar a vontade desse alguém, embora a vontade desse alguém vá contra a minha própria vontade. Esse é o amor maior, deixarem-me adormecer para sempre porque a dor de viver em estado faz-de-conta já não é suportável nem sequer na hora de dormir e voltar a acordar. Acordar para um mundo que já não reconheço. Que nunca mais reconhecerei.

10 comentários :

  1. E uma questão complexa. Eu não consigo pensar nisso de animo leve. Em 2009, meu pai tinha 92 anos , uma doença de circulação que lhe provocava dores horríveis, pois o sangue não conseguia passar para os membros inferiores. A perna esquerda foi amputada pois começava a gangrenar. Durante um tempinho esteve melhor, habituou-se à cadeira de rodas. Era um homem, pequeno de tamanho, mas com uma força de vontade incrível e grande vontade de viver. Porém quando a perna direita ficou na mesma e voltaram as dores horríveis, tanta vez me pediu para lhe pôr na mesa de cabeceiras todos os medicamentos que tomava e para ir para minha casa durante umas horas. Pediu-me a chorar, pediu-me por aquilo que mais amava.
    Eu nunca teria coragem de o fazer, mesmo sabendo que dada a sua vontade de viver, para mo pedir, o seu sofrimento tinha que ser inenarrável.
    Foi internado para amputar a perna direita. Na véspera da operação, pela meia noite, tirou o soro o cateter de morfina, tudo.
    Quando a enfermeira veio, (contou-me ela) pediu-lhe que o deixasse morrer. Ela chamou o médico e puseram-no em coma induzido. No dia seguinte na sala de operações a anestesista disse que não arriscava a anestesia e ele voltou para o quarto. Horas depois morreu. Segundo o médico, simplesmente ele desistiu de viver. Não aguentava o sofrimento. Tinha 92 anos.
    Com o avanço da medicina vivemos muitos mais anos, mas nem sempre isso se pode classificar de viver.
    Penso que devíamos ser nós a tomar essa decisão e a transcrevê-la enquanto somos capazes de decidir.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Elvira, li este seu comentário assim com a respiração meio suspensa. Obrigada antes de mais por ter a coragem de escrever sobre algo que, imagino, lhe deve custar muito. Sãos estas as verdadeiras partilhas, aquelas que sei serem genuínas e que merecem todo o meu respeito.
      ...

      As suas últimas duas linhas do comentário vai ao encontro daquilo em que eu também acredito:
      "Com o avanço da medicina vivemos muitos mais anos, mas nem sempre isso se pode classificar de viver.
      Penso que devíamos ser nós a tomar essa decisão e a transcrevê-la enquanto somos capazes de decidir."
      ...

      Um abraço para si também.

      Eliminar
  2. Imagino que poucos serão os que não concordam consigo, Maria.
    Eu não me incluo nessa lista, na dos que não concordam.

    Depender de máquinas, nunca! Exactamente na linha contrária do 'homem da Regisconta' que era 'aquela máquinaaaaa'!!!
    Se calhar não devia ter escrito isto. Ou não tem importância nenhuma? Bem, agora já está e eu não sei como apagar.

    Um beijinho para si, senhora que de vez em quando aqui nos traz coisas muito interessantes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Aí é que se engana, falo da parte em que escreveu que "Se calhar não devia ter escrito isto"... já consigo perceber quando está a escrever muito a sério embora lá pelo meio aquilo tenha entornado um pouco. Portanto não se preocupe com isso de apagar.

      Beijinho, caro Observador.

      Eliminar
  3. "(...)já consigo perceber quando está a escrever muito a sério (...)"
    E o observador sou eu ... :)))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O meu pai quando o assunto é sério e não sabe muito bem onde meter as mãos, por vezes também entorna um pouco as palavras. Portanto já me licenciei na coisa. Em relação à eutanásia, para meu grande espanto, quando lhe perguntei o que pensava foi bastante pragmático. Disse-me ser a favor se o caso implicasse ficar ligado a uma máquina para sempre. Que isso não era viver. Eu, como filha, calei-me.

      Eliminar
  4. Tema seríssimo, aliás, mais do que sério, perigoso.
    Maria, não tenhamos ilusões. Essa portita pode levar a caminhos sem retorno, pode dar a aso ao uso e abuso de meios pouco ortodoxos de acabar com a vida de muitos, sendo o grupo privilegiado, o eleito, o dos velhos, claro.

    Quer saber? Falar em eutanásia aplicada a crianças leva-me ao desespero. Ah, e tal as crianças doentes crescem/amadurecem mais depressa - facto inquestionável, este -, como ouvi alguém dizer esta manhã num programa de rádio, logo têm discernimento para decidir sobre o que fazer com a sua vida e morte. Como? Apetece dizer: importa-se de repetir?
    Maria, isto por si só, é de uma inconsciência atroz.
    Convido todos esses iluminados a visitarem um hospital pediátrico, qualquer que seja a especialidade, repito, qualquer que seja a especialidade, olhem aquelas crianças/adolescentes e aprendam o que é vida.

    As minhas desculpas, Maria, mas vou à náusea com esta questão.
    Se em relação aos adultos tenho reservas, salvo aqueles que estão conscientes, que sabem muito bem o que querem, no que respeita às crianças?!...

    Voltemos aos adultos.
    Li há pouco, via Net, uma notícia segundo a qual uma atleta (amputada?)tinha pedido para após uns jogos em que participou lhe fosse aplicada a eutanásia. Agora? Agora afirma não estar preparada? Em que é que ficamos?!

    Vou-me embora, a soprar, mas vou-me embora.:(

    Beijinho, Maria.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. GL, por o tema ser sério é que decidi falar na primeira pessoa. Porque quando se trata da nossa própria vida, só nós é que sabemos o que queremos fazer com ela em casos onde o sofrimento e o estar ligado a uma máquina para sempre, não é viver, é prolongar o sofrimento e manter um ser humano em agonia contra a sua própria vontade. Ser adulto é tomar decisões que, não serão as ideais, mas serão aquelas que não nos deixam outra alternativa, ou a existir outra alternativa, essa alternativa não é viver com dignidade. Ninguém me está a matar. Ninguém me está a "oferecer a morte" como ouvi uma senhora política (?) dizer hoje, caramba, isso é manipular a cabeça das pessoas de uma forma muito pouco honesta. Se eu estou consciente e é aquilo que quero, não será um político ou um padre (com todo o respeito que tenho por padres) que deverá decidir a minha vida, ou a minha morte. Desde quando é que um tema tão sensível e desfecho do mesmo, fica nas mãos de pessoas que não conheço de lado algum? Desde quando é que ponho a minha vida nas mãos de políticos que falam, falam, falam, e não dizem coisa alguma de concreto. Só me baralham, porque a bem dizer não estão muito preocupados comigo, nem sequer me conhecem, eu sou mais um número entre tantos números. Não é como alguns deputados disseram hoje que as pessoas precisam de ter um final de vida com cuidados e assistência, não, isto está errado se for contra a vontade dessas mesmas pessoas, as pessoas precisam é que se lembrem delas na altura de receberem a reforma, que se preocupem com elas quando nas suas casas entra frio e morrem a tentar aquecer-se, é com isso que os políticos têm que se preocupar, oferecer qualidade de vida enquanto as pessoas estão realmente vivas e não ligadas a uma máquina. Isto fica tudo muito bonito para o filme dos deputados, mas quem sofre realmente são as pessoas.
      ...

      Se tivesse um filho numa situação que saberia não existir retorno em termos de saúde, e sendo eu mãe, responsável por ele, obviamente que em tempo algum me passaria pela cabeça desligar uma máquina. Essa questão nem sequer se colocaria.

      Tal como também não se coloca casos de depressões, uma depressão é uma doença que pode ser curada com acompanhamento médico. Recupera-se ainda que, de quando em vez, se possa ter uma recaída. Portanto falar de eutanásia associada a depressões é coisa sem sentido algum.

      Eutanásia para mim "faz sentido" se a decisão for minha e só minha, se se tratar de uma doença terminal ou se se tratar de prolongar a vida por meios artificiais. Eutanásia faz sentido se algum familiar meu tiver preenchido um testamento vital aquando das suas faculdades mentais, ou num caso em que tendo testemunhas é da sua expressa vontade ter morte assistida num caso em que uma doença o mantém vivo se uma máquina assim o permitir, portanto em estado vegetativo. São casos pontuais, muito sérios, em que deverão existir regras muito rígidas de modo a assegurar que não seja um acto leviano. E é isto, na minha opinião, aquela que vale o que vale.

      (obviamente que entendo aquilo que a GL escreveu, só que os exemplos que trouxe é exactamente aquilo que não se quer ver associado a um tema tão sério como a eutanásia, daí compreender a sua revolta)
      ...

      Beijinho para si também, GL, gosto muito de a ver por aqui, quer as suas opiniões vão ao encontro, ou de encontro às minhas. A falar é que as pessoas se entendem :)

      Eliminar
  5. Um assunto bastante controverso, mas perante o enorme sofrimento do ser humano acometido por algo irreversível, sim e sim, sou totalmente A FAVOR DA EUTANÁSIA. Direi que ao adormecerem essa pessoa (o tal coma induzido) que por si só acalma mas quem deseja morrer...acaba por partir em paz, sem dor e não é preciso a medicação letal.

    Maria, enquanto dadora de sangue eu circulava pelo hospital e nem imaginas os cenários que vi. Nem consigo descrever...já para não falar no cenário de guerra!!!!

    Hoje já temos o Testamento Vital que só ainda não o submeti porque tenho de nomear alguém - médico, familiar, amigo - e encravei porque fiquei deveras irritada com isso. Diz no site do SNS que fica registado na base de dados e acessível a qualquer médico e será que fica num país em que quem tem um acidente, dá entrada no hospital onde são feitos exames e mais exames? É transferido para o da sua residência e com ele(a) vai toda a papelada e o tal cd e quem o recebe sujeita o doente/utente à mesma bateria de exames? Ou seja...só não morrem com dores porque enfim, mas há quem desmaie. Portanto falta alinhavar umas arestas e irei submeter e dar uma cópia às filhas e genros!

    Também temos a musicalidade dos cuidados paliativos. E vagas? Os continuados não são a mesma coisa e mesmo nestes onde há vagas?

    A minha maior amiga de quase 40 anos teve uma filha que morreu aos cinco anos com uma leucemia que foi descoberta aos dois anos. Sei que a medicina evoluiu muito, que o IPO de Lisboa não é o mesmo de há 30 anos, falo apenas das instalações porque o pessoal médico e auxiliar sempre foram o que são - EXCELENTES. Acompanhei-a assim como ao pai sempre mas o maior horror foi nos seus últimos 28 dias de vida em casa. A morfina já não fazia efeito e os pais estavam de rastos e 28 dias com ela ao colo a desfazer-se...e não consigo dizer mais nada. Nesse período e ao longo dos anos essa minha amiga diz: que se fosse hoje decidiria para porem termo ao seu sofrimento, porque com cinco anos não teria poder de decisão.

    Nós colegas fazíamos turnos para levar um de cada vez a tomar um café, a darem vazão às lágrimas...e a vizinha que foi ama da pequenita, ficou sempre com o segundo filho porque só os via a irem abaixo de dia para dia.

    Tinha o filho sete anos, felizmente saudável, quando o marido se suicidou e até hoje ela não tem qualquer justificação do porquê?

    É alegre como eu, optimista como eu...com duas netas lindas e quando falamos do assunto da Eutanásia, estamos em total sintonia. Como tal ainda é só falatório, estamos igualmente em sintonia em termos de dúvidas quanto ao Testamento Vital que é bem explicito em que situações e não numa de "matem-me porque não quero viver mais".

    Não sei se me fiz entender!

    Um enorme abraço







    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fatyly, eu gostaria muito de falar dos cuidados paliativos e falar cara a cara com alguns deputados que estão a desviar o tema para um lado, na minha opinião, que pretende evitar falar profundamente do que realmente interessa. Só que, para falar dos cuidado paliativos teria que entrar num campo muito privado, o facto da minha mãe ter morrido com um cancro que, disseram os médicos, ser um dos mais cruéis, se é que uma doença terminal não é só por si demasiado cruel.
      ...

      Sabe que acho estranho que muitas pessoas pensem que este é um problema dos outros, o falar dos outros e não do "eu", como se não existisse qualquer probabilidade de algo lhes acontecer. Encolho-me nesta parte.
      ...

      O usar a palavra "matar" por parte de algumas pessoas não é inocente. Nada inocente. Sabem que "matar" terá um impacto destruidor na opinião de terceiros. É manipular, na minha opinião.

      Obrigada, Fayly, por escrever o que pensa em relação a este assunto, acho que é muito importante falar dele.

      Um abraço para si também.

      Eliminar