quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"Eu não desisto de ti, Isabel" (Maria vai escarafunchar a plantação da pérola revestida a ouro)

Ontem, lá pela hora em que os ditados populares nos atiram para o canto em que todos os gatos, de certezinha, são pardos, contudo, nada parvos, dizia eu que a essa hora deliciei-me a ouvir um debate/entrevista entre Isabel Moreira e um padre que, confesso, não me recordo do nome. O debate teria como tema este da eutanásia que muita gente se recusa debater como se a morte, a doença, não fizessem parte da vida e nos recusássemos a enfrentar as palavras, quando as palavras e as discussões saudáveis que porventura possam surgir só nos tornam mais conscientes que somos simples mortais, logo, isso de esconder a cabeça na areia evitando temas desagradáveis é estranho. Estranho para mim, acho que não devo temer palavras. O cancro existe, infelizmente. Os acidentes que nos podem deixar dependentes de terceiros, acontecem, infelizmente. A morte existe. Ponto. Ou reticências, é como as pessoas quiserem encarar a morte. Se acham que nada mais existe após a morte, usam um ponto final. Se acham que poderá existir algo mais, é usar as reticências. Eu uso as reticências com um ponto final no fim.

Tendo eu nascido numa família em que os meus avós eram católicos e frequentavam a missa, a minha avó todos os dias e o meu avô apenas ao domingo, a Igreja Católica Apostólica Romana foi-me apresentada pelas mãos dos meus avós desde criança, portanto aprendi a respeitar a religião de cada um, as suas crenças, a sua forma de estar na vida, só que ontem à noite, no tal debate, o padre escolhido pelo canal de tv para dar a sua opinião em relação a este tema, o da eutanásia, não me convenceu, antes pelo contrário, apercebi-me que existe uma fatia da nossa sociedade, constituída por padres, que vive num mundo só deles, com ideologias hermeticamente fechadas, embora apregoem o amor entre irmãos, que seremos todos nós. A coisa não poderia ter terminado melhor quando no final da entrevista e, estando o padre a perder terreno perante os argumentos fortes, bem cimentados, de Isabel Moreira, este termina com um:

"Eu não desisto de ti, Isabel"

Que traduzido quereria dizer, não te deixo morrer, Isabel, mesmo que tu queiras, eu não deixo. Ora este foi um desfecho para um tema sério que, só deu para sorrir, porque rir pode ser considerado uma tremenda falta de respeito. Bom, vou escrever baixinho, a escrita também pode usar sons baixos, quando o padre disse aquilo lembrei-me de uma canção em modo pimba, esta. E se alguém me disser, ah e tal estás a faltar ao respeito... Não, não estou, asseguro que não estou, só se consegue celebrar a vida se conseguirmos encarar a morte de frente, se nos der para cantar porque nos ajuda a não desmoronar, que se cante. Sem medos.

6 comentários :

  1. Como lhe disse ontem, este é um tema que incomoda muita gente, e a mim em especial pelo que lhe contei. Eu sou católica, vou todos os domingos à missa. Já tive as minhas pegas com Deus, já me afastei, por duas ou três vezes. E se regressei, foi porque percebi que não era ELE quem estava errado. Mas uma coisa é a Igreja, neste caso a católica, podia ser outra qualquer, outra coisa são os seus administradores (será assim que se deve considerar um padre?) Muitos acreditam que nós temos que sofrer, porque Cristo também sofreu. Penso que Cristo nos queria felizes. Vários dos seus milagres provam a sua preocupação com as nossa felicidade.
    Voltando à Eutanásia, toda a gente adulta devia ser obrigada a decidir-se e isso ficar registado , sei lá no cartão de cidadão. E proceder-se-ia conforme a vontade da pessoa quando ela já não tivesse vontade. Não gosto de generalizações nem prós nem contra.
    Um abraço

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    1. Elvira, somos uma sociedade que tende a reagir e não a agir. O que é que eu quero dizer com isto? Tendemos a deixar assuntos que nos incomodam nas mãos de outros, à consideração de outros, é um género de "lavamos daí as nossas mãos", entretanto quando os outros, aqueles a quem demos permissão para debater os "nossos" assuntos decidem isto e não aquilo, reagimos de imediato caindo em cima deles. Só que, aí, talvez seja tarde.
      ...

      A religião também é um tema sério porque mexe com a fé das pessoas. Só que eu acho que existem padres que se fecharam num mundo só deles, um mundo que não existe mais, talvez seja por isso que o Papa Francisco está a ter a aceitação que tem por parte de tanta gente em todo o mundo. É um Papa que não foge aos assuntos por mais desconfortáveis que os assuntos sejam. Por mais dolorosos que sejam. Fossem os padres todos assim e, em vez da malta mais nova se enfiar em centros comerciais de manhã até à noite, se calhar de vez em quando até "visitariam" uma igreja só naquela de ouvir o que o padre tem para dizer. Admito que gosto mais de igrejas quando elas estão vazias, sento-me no último banco, ou o primeiro a contar da entrada, e fico ali uns minutos. Entretanto saio e vou à minha vida com menos uma pedra em cima.

      "Já tive as minhas pegas com Deus" é uma frase muito cheia de sentido. Usar a palavra "administradores" foi muito revelador, eu tendo a concordar consigo, porque também eu não acredito num Cristo castigador, um Cristo que diz que as pessoas têm que sofrer porque é no sofrimento que encontrarão a salvação. Só por isso isto ande tudo ligado...

      Abraço, Elvira.

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  2. Por que será que as pessoas que mais deviam apoiar a dignidade humana, fazem o contrário?
    Refiro-me à Igreja Católica mas também às Cristas desta vida.
    Francamente não me dá jeito acrescentar algo a estas poucas palavras. Se o fizesse, iria ser duro e causar alguma indisposição a certas pessoas.
    Beijinho, Maria.

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    1. Xiiii, nem me lembre disso que eu fiquei com os nervos em franja só de ouvir uma deputada que estava ao lado de Assunção Cristas lá no Parlamento. Não sei o nome da senhora deputada, mas acho que aquela senhora deveria tomar um, ou mesmo dois, copitos de vinho verde porque verde é sinal de esperança, esperança que existam pessoas que saibam dosear a agressividade quando querem expor ideias.

      (embora, por vezes, não esteja de acordo com Isabel Moreira, ontem, acho que esteve particularmente bem naquela entrevista/debate na 21ª hora_TVI24)

      Beijinho para si também, caro Observador.

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  3. Porque sabia que iria haver esse debate e porque gosto da Isabel (mais uma vez esteve bem e o que disse foi bem pensado e sentido), anotei e vi o video hoje de manhã.
    O padre Américo Aguiar nos seus 44 anos, para além do referes, para mim foi pouco convincente no que disse e na volta aplicaria a velha frase: olha para o que eu digo e não para o que faço. Não sei se estarei errada, mas acho que se pudesse fugir das "regras do Vaticano" viria para a fileira dos que concordam.

    Ele que me perdoe mas fiquei com essa sensação.

    Sobre o assunto já me referi no andar abaixo, assunto controverso como outros que já o foram e hoje são legalizados.

    Depois de tudo isto vou ver se consigo comer o meu jantar:pexxxiiinhhhooooo com bróoooiiiiculos e batatas:))) UFA:))))

    Beijocas

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    1. Eu apanhei por acaso este debate/entrevista, esteve muito bem, sim, Isabel Moreira. O padre não conseguiu de forma alguma fazer valer os argumentos da igreja em relação a este assunto. Foi fraco, muito fraco, parece que a posição da igreja continua a ser a mesma, o ser hermeticamente fechada, é urgente abrir uma janela, por muito pequena que seja. Abrir uma janela, neste caso concreto, é ouvir os argumentos dos outros, não jogar ao ataque, passo a expressão que pode ser um pouco agreste neste contexto. Nem é bem ataque, é mais anestesiar as pessoas quando se repete até à exaustão as mesmas expressões, as mesmas palavras.
      ...

      Achei piada àquele "Eu não desisto de ti, Isabel", foi um momento dado ao humor, que me perdoe o senhor padre, isto se tivermos em conta a expressão de Isabel Moreira. Hilariante :)))
      ...

      Bom jantar, Fatyly, parece-me muito bem escolhido. Peixe, brócolos e uma batata, ó ó.

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