quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ser rei em terra de mulas (ó p'ra mim a contar uma história minha e muito minha)

Ti Manel era muleiro. Muleiro, de mulas. Não confundir com moleiro, dono de moinhos. Ti Manel não era dono de grande coisa, só de mulas, quadrúpedes maciços que teriam emergido do cruzamento entre o burro e a égua. Não são só as éguas que são burras. Os burros também o são. São burros, por assim dizer, por isso é que resolveram casar com éguas na tentativa de passar despercebido. Sendo ti Manel muleiro, a sua vida era um desassossego, encosta abaixo, encosta acima. As encostas do ti Manel também se inclinavam para cima porque existiam dias em que o ti Manel cansado de descer só lhe apetecia subir. As mãos ressequidas e duras ajudavam-no a enfrentar melhor quem lhe estendia a mão e lhe puxava o tapete. Ti Manel sorria para dentro, porque para fora o sorriso poderia denunciar que sabia muito bem fintar os puxadores de tapetes. Ti Manel não gostava de tapetes, a vida tinha-lhe ensinado que tapetes em casa e fora dela só trazem aborrecimentos, escorregadelas e bichinhos com muitas patas. Patas por patas, as das mulas que são só quatro e as do cão que somadas às das mulas, davam a bonita conta de oito. Oito, sem contar com as outras patas todas das mulas do ti Manel. O cão barbudo que não se chamava oito, gostava de encostar o focinho aos joelhos do ti Manel no final do dia quando este chegava a casa e se sentava na poltrona grande e gasta, era nesse momento que se podia dar ao luxo de ser quem bem quisesse. Ti Manel escolhia ser rei, se já tinha a poltrona, o resto, pensava, viria no dia seguinte. Disso tinha ele a certeza. Disso e de subir encostas com mulas às costas. E da existência de patas. De mulas.

6 comentários :

  1. Muito interessante este texto. Lembrou-me o meu avô Manel, que não tinha mulas, mas tinha um burro, e 13 filhos. O burro chamava-se Tem-dias, e tinha dias que fazia um jeitaço quando o avô Manel encontrava alguém disposto a desfazer-se de alguma sucata que tinha em casa. Sim porque o avô Manel era negociante de ferro-velho que é coisa que não tem patas como as mulas, e dá muito menos dinheiro que elas, mas quando a coisa corria bem sempre dava um refeição mais ou menos decente para as quinze bocas que se sentavam à mesa, com a barriga tão vazia quanto a panela de três pés onde a avó Maria cozia meia duzia de berças, muitas vezes já amarelas do gelo do inverno.
    Um abraço

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    1. Eu diria, Elvira, que este seu comentário é mesmo, muito bom. Quase que o poderia colar à minha história. Ficaria perfeito. Obrigada. Adorei.

      Um abraço para si também.

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  2. Vidas duras, bem duras mas que no meio de tantos "tapetes escorregadios e mulas de duas patas" mantém-se em pé, sem a cabeça curvada numa de Ámen e todos os dias tem a sua hora do repouso do guerreiro sábio onde é rei e senhor de si próprio.

    Pode-se aplicar a todos que têm trabalho incluindo os reformados avós e não só...que tudo fazem em prol de...ladeira acima, ladeira abaixo!

    Foi a minha leitura e gostei muito desta história ainda tão real!

    Beijos

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    1. Fatyly, não existe só um Ti Manel, são muitos, muitos por aí espalhados e por vezes esquecidos. Eu gostei muito de escrever este texto, acho que uma vez por semana (se me lembrar) vou dedicar-me a um texto deste género. Se não for uma vez por semana, será, seguramente, uma vez por mês.

      Gosto que tenha gostado :)

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  3. Gostei muito do texto, Maria. Acho mesmo, com toda a convicção, que deveria escrever mais neste registo.
    Parabéns!

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    1. Gosto muito de o ver por aqui, acho que o AC sabe disso. A sua opinião em relação a este tipo de textos, sabendo que a pessoa que está desse lado escreve bem (e não, não costumo engraxar pessoas, passo a expressão) é para mim importante. Obrigada :)

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