quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Minudência é coisa que se mastiga devagarinho (Panteão Nacional)

Andava eu na minha vida, mãos umas vezes atrás das costas, no sentido de as proteger, se não for eu a proteger as minha costas, quem será?! Outras vezes de mãos à frente, neste caso só para me amparar na queda no caso de alguém me empurrar usando mãos profissionalmente bem fincadas. Andava ali, para cá e para lá, para lá e para cá. Nisto, atravessa-se um pensamento à velocidade da luz e esbarra com o meu nariz que, para o caso não é importante dizer mas, eu digo na mesma, sou possuidora de um nariz muito pequeno, para mal dos meus pecados nem sequer dá para andar com ele empinado. Cada um é para o que nasce e a mais não é obrigado (não acredito muito nisto que acabei de escrever, no entanto achei por bem aconchegar o texto com uma frase mal engendrada).

O tal pensamento à velocidade da luz que esbarrou com o meu nariz fez com que se desse uma reacção que acabou, também ela, por esbarrar com o tema do momento. A morte de Mário Soares. Ou de Soares. Ou do Dr. Mário Soares. Ouvi ao longo destes dias diversos tratamentos para uma só pessoa, no entanto para a morte, com essa não há nada a fazer, só tem um nome e os nomes são para serem encarados de frente, sem medos. É morte. Pode-se até amaciar um pouco dizendo que é o fim da vida, só que eu não acredito que seja e, vai daí, chamo-lhe morte. Mas este é outro assunto, é melhor parar por aqui. Ponto final e faça-se um parágrafo.

Toda esta lengalenga para escrever que esbarrei com o tema Panteão e não percebi umas coisas, nomeadamente isto:


Entretanto resolvi andar por aí a ler, sim, eu sei ler, lamento se desiludi alguém, gosto de ler e tenho esta mania de gostar de vento a fustigar-me o pensamento. Eis o que encontrei na estrada das letras:

« A lei prevê que as “honras do Panteão” se destinam “a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade» 

Mexendo e remexendo. Precisam, portanto, de vinte anos para a tal aprovação. Com um bocadinho de sorte o universo já foi ali dar um passeio  e esqueceu-se de voltar. 

12 comentários :

  1. "mãos umas vezes atrás das costas"
    Confesso que exta expressão me confunde. Atrás das costas não será no peito/barriga, etc?
    Ora estando atrás das costas como é que pode protegê-las, as costas?
    Adiante que isso agora não interessa nada.

    A questão que Maria coloca é pertinente.
    O ano passado o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou a lei que passava de um para 20 anos, o tempo que uma personalidade portuguesa possa merecer um lugar no Panteão.
    Entre esse tempo apenas poderá ser afixada uma lápide alusiva à sua vida e obra, cinco anos após a morte. Assim em 2022, se os partidos assim o entenderem, a Assembleia da República pode aprovar a instalação de uma “lápide alusiva à sua vida e à sua obra” no Panteão.
    Esta lei chegou depois de acolher os restos mortais da fadista Amália Rodrigues em 2001, três anos depois da sua morte, da escritora Sophia de Mello Breyner, que morreu em 2004 e transferida dez anos depois e do futebolista Eusébio, que chegou ao Panteão em 2015, um ano depois da sua morte.

    Se faz sentido? Depende do argumento utilizado, creio que não devidamente explicado, da Assembleia da República.
    Houve alguma movimentação/discórdia em torno do assunto, depois de Eusébio ter sido colocado no Panteão apenas um ano depois da sua morte. Entendeu-se, por aí, que não podia ser e tal, qualquer dia o Panteão virava regabofe e outros disparates do género.

    A meu ver, seria necessário definir o que é o Panteão, para que serve, e quem em que circunstâncias e contexto, teria o direito de lá aceder. Post mortem, bem entendido.

    Essa parte da lei que diz "perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade" pode levar a que um dia destes o Panteão esgote, de tantas pessoas que se têm distinguido pelos diversos feitos já explicados.

    É, a meu ver, um tempo exageradíssimo o que agora se aponta em relação a Mário Soares.
    Não nos esqueçamos que somos um país de exageros, do 8 e do 80, da alteração de leis quando e se dá jeito, e outras coisas que se aqui ditas me atirarão para um buraco negro de onde nem com cunhas de lá saio.

    Legisle-se mas antes de o fazer, pense-se. É o meu conselho.

    Ena pá, 'escrevi p'ra burro'! O melhor é ir andando.
    Um beijinho, senhora Maria :)

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    1. Caramba, caro Observador, são estes os momentos em que nos apercebemos que vale a pena ter um blog. Quase que uma pessoa esquece as partes menos agradáveis, tocou exactamente em pontos que me levaram a escrever este texto.

      E foi mesmo por aí, o facto da trasladação de Eusébio ter sido um ano após a sua morte, faz com que se olhe estes vinte anos para aprovação dos restos mortais de Mário Soares no Panteão como algo menor. Se um foi futebolista, considerado um dos grandes do futebol, não deixa de ser estranho, até arrisco escrever, confrangedor, que o fundador da democracia tenha como que esperar numa fila para ter direito ao seu lugar num local onde, como bem escreveu no seu comentário, é gerador de confusão, não se sabe muito bem como definir e para que serve realmente.

      É o tal 8 ou 80 que impera neste país que confunde, que transmite alguma desordem. Também eu acho de um exagero absurdo estes vinte anos. Se me dissessem que a coisa seria de dois anos, seria aceitável. Vinte é quase roçar o ridículo.

      Obrigada, caro Observador, por esta lição em forma de comentário, a malta deste lado agradece e até lhe bateu palmas :)

      PS: É melhor esquecer a parte das costas e da confusão. Não é importante. Sou eu que sou um tanto ou quanto dada a pinceladas de doidice aqui e acolá :))

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    2. Maria, por favor não diga que dou lições. Primeiro porque não dou, depois porque fico sujeito a que algum sindicato, desses que dizem representar quem dá lições, se intrometa, coisa que me tiraria do sério.

      "(...)pinceladas de doidice aqui e acolá"
      Tenho para mim que um pouco de loucura/doidice faz bem à saúde.

      Ahhh, vale a pena ter um blogue? Vale sim senhora. Go ahead!

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    3. Então, mas esta "lição" é no bom sentido. A malta também precisa de aprender umas coisas. Eu (e não só) cá gostei deste seu comentário e não se fala mais nisso :)

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  2. Não sou muito dado a esses endeusamentos de figuras. Nunca entendi muito bem os critérios de selecção das figuras que têm direito a ocupar um lugar no Panteão Nacional mas, sejam eles quais forem e em sendo lá o local certo para acolher os restos mortais das grandes figuras deste país, certamente Mário Soares tem lugar garantido. Já. No entanto, a manter-se a lei em vigor e dependendo da cor politica no poder daqui a vinte anos, pode demorar trinta ou... trinta e cinco. A história, essa, é que é instantânea e Mário Soares faz parte da deste país.

    Boa tarde, MM.

    Um abraço.

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    1. Também levantou uma questão bem pertinente: lei em vigor vs cor política. Poderá, de facto e de alguma forma influenciar, prorrogar, o prazo da dita trasladação.

      Goste-se ou não de Mário Soares, a verdade é que foi, é, um figura incontornável da democracia. Da nossa. Só por isso é que isto dos vinte anos me parece, no mínimo, estranho.

      Um abraço para si também, Impontual. Obrigada.

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  3. Bom há coisas que eu não entendo. A falar verdade, eu não entendo nada em relação e estes assuntos, mas também se eu disser que ao entendo nada dos critérios destes legisladores, deixo de ser só eu a saber que sou ignorante para passarem todos a sabê-lo. Dito isto, que na verdade foi só encher papel e ainda não disse nada, penso que o lugar do Mario Soares por tudo o que representou na história recente é no Panteão. Que me perdoem os Benfiquistas, mas com muito mais direito do que o Eusébio. Que se passe de um ano para 20, é outra coisa que eu não entendo. Lá está eu não disse que era ignorante? Porque não podia ser por exemplo, nunca antes de cinco anos, nem depois dos dez? Não seria mais justo?
    Um abraço

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    1. Não é uma questão de ignorância, Elvira, penso que muita gente (eu incluída) não percebe muito bem os critérios de legislação por estes dias.

      Eu até pensava que isto de achar estranho estes 20 anos seria coisa da minha cabeça, mas começo a pensar que não. Achei estranho não ouvir nada na comunicação social, ou então ultimamente estou um pouco desatenta.

      (é a sua opinião, refiro-me ao Eusébio, não tem de pedir desculpa a quem quer que seja)

      Um Abraço, Elvira.

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  4. A legislação muda conforme o "rosbife" que governa. Conheço o Panteão Nacional e as vezes que por lá andei a passear pensava, que lugar tão frio, mas tão frio e sinceramente gostei não por quem lá mora:))) mas pela obra. Igreja de Stª. Engrácia e parece que a tal Engrácia fez das suas porque o Panteão anda sempre em obras de St^. Engraça ou seja que nunca mais acabam. Acho que os inquilinos pela calada da noite devem fazer das suas:)))

    Já me desviei do assunto. Mas vou dizer alguns disparates ora vamos lá!

    Existem vários panteões e onde está o poeta Luis de Camões? Pois! o mesmo o tal Nacional foi criado para figuras que marcaram toda a história portuguesa. Se fizermos um apanhado dos vários vemos que até determinada data havia uma selecção, reis , príncipes, princesas num determinado igualmente em Lisboa, Camões e afins nos Jerónimos etc.

    Agora já falam no Mário Soares e porque não Salazar e já agora Alvaro Cunhal? Fazem parte da história e contra factos não há argumentos! Ponto!

    Por mim tudo bem, mas antes e em 2011 não foi autorizado a trasladação de Passos Manuel (o autor da ideia da construção de um Panteão) e de Marcos Portugal, que não ocorre devido a restrições orçamentais.

    Aquando da Amália, do Eusébio e da Sophia eu achei errado porque todos estes e cada um no seu estilo gostavam da liberdade, eram afáveis, simples e alguém lhes perguntou se um dia gostariam de ir para o Panteão?

    Eusébio até expressou que um dia que morresse gostaria de ser enterrado na sua Catedral. Sonhei? Haverá lá sepulturas? Antes dele o lugar era igualmente justo (pelo menos para mim) para o Matateu, ora pois!

    Amália fartinha de ser conhecida e foi de facto uma embaixadora, era a mulher mais simples e tão triste que ficaram alguns fãs: sabe menina agora vão levá-la para o "pEnteão" e já não posso levar-lhe a rosinha de que tanto gostava. O lugar deveria ter sido ocupado por outra ainda mais velha que a Amália.

    Sophia era poetisa e escritora e toda a sua obra é pautada pelo mar, a sua dimensão e liberdade. Também descreve as casas por onde viveu...e ver-se agora metida ali...hummm não sei

    Depois de tanto disparate que disse e por saber que o custo de cada trasladação "nóis todos pagamos", mas disso ninguém fala.

    Outra coisa com que não atino é a mudança dos nomes às coisas. A Ponte 25 de Abril deveria manter o nome anterior! O aeroporto Humberto Delgado deveria manter o Portela

    e já falam em mudar o nome da avenida da Liberdade para Mário Soares.

    "Ai Agostinho, Ai Agostinha
    Que rico vinho, Vai uma pinguinha?
    Este país perdeu o tino, A armar ao fino, a armar ao fino
    Este país é um colosso, Está tudo grosso, está tudo grosso
    Isto é que vai uma crise, isto é que vai uma crise!"

    Não te zangues comigo pf e um resto de boa tarde

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    1. Fatyly, penso que todos os lugares desprovidos de vida física são frios. É uma tranquilidade pesada. Forçada. É um sitio silencioso onde não apetece estar. Aquele silêncio todo rouba-nos vida, isto na minha opinião... Vou contar-lhe algo muito rapidamente (é um aparte, portanto) existe um monumento em Évora que provavelmente conhecerá, a Capela dos Ossos, monumento esse que eu não gosto. Gosto muito de Évora, conheço-a de uma ponta a outra, mas aquele monumento visitei-o uma vez e é o único local onde não pretendo voltar, isto porque logo à entrada (fiz questão de tirar uma foto quando lá estive) tem uma mensagem que diz: "Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos", lembro-me que quando li isto fiquei ali meio paralisada, não conseguia descolar os olhos da mensagem, saí rapidamente para apanhar ar, ainda me lembro do ar aflito de uma pessoa com quem estava na altura. Parece ridículo, mas aquele peso todo da mensagem, marcou-me. Jazigos também não gosto, fiquei com muito má impressão de jazigos que vi quando a minha mãe morreu, lembro-me de um dia fazer o caminho que levava à sua campa e a minha aflição ao ver jazigos com bonecos de crianças lá dentro pendurados. Acho que os cemitérios deveriam ser espaços com o maior número possível de árvores, relva e flores. As flores deveriam ser plantadas e não compradas e deixadas sobre a campa, são flores que morrem também. É demasiada morte junta. Deveria existir vida num espaço onde a morte entrou sem ser convidada. E é isto, também eu digo coisas sem sentido.
      ...

      Fatyly, é necessário não esquecer que, goste-se ou não de Mário Soares, existe uma parte fundamental, foi ele o fundador da democracia em Portugal, a ele devemos isto de, por exemplo, se estar a escrever num blog e escrever livremente. Livremente não é sinónimo de insultuosamente, porque foi isso que muita gente fez, se se tem algo a dizer a alguém e se formos gente com carácter não esperamos que a pessoa morra para atacar com impropérios, isso revela que somos (somos, salvo seja) gente de muito baixo nível, gente cobarde. Ouvi pessoas que, não gostando de Mário Soares, conseguiram separar águas, apontaram o lado positivo e apontaram o outro lado, aquele que não lhes agradou no percurso de Mário Soares. Gosto disso.

      Se nos libertámos de uma ditadura Salazarista e passámos a ser um estado de direito democrático, não faria qualquer sentido deixar que a ponte que liga a capital à outra margem permanecesse como Ponte Salazar, isso seria de uma incoerência muito grande, penso eu. Tal como também não faria sentido algum mudar o nome de AV. da Liberdade para Av. Mário Soares quando a palavra liberdade está intrinsecamente ligada a Mário Soares. Pontos de vista...

      Zangar-me consigo? Ora essa! Então porquê? Não faria qualquer sentido, repare que não leu em parte alguma que eu gosto ou desgosto de Mário Soares, referi que foi o fundador da democracia, e isso, quer queiramos quer não, é uma herança que vale toneladas de ouro daquele muito bom :)

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    2. Sim concordo que todos os lugares desprovidos de vida física são frios. Não faço o culto dos mortos como muitos o fazem já que os meus foram cremados. Um dia fui com uma amiga minha à campa da sua mãe no Alto de S.João e andei a ver os jazigos centenários e em total abandono. Quem foram e que familiares ainda terão? porque passando uma ou duas gerações tudo aquilo nada diz a quem fica.

      Conheço a capela dos ossos em Évora. Achei tão macabro, mas tão macabro mas o que me ficou retido foi o cheiro que não aguentei e saí:)

      Quanto ao que referes na segunda parte, mantenho a opinião de que não se deveria mudar o nome às coisas e claro que sim a liberdade está ligada a Mário Soares como fundador da democracia. Nunca disse o contrário e fechei de vez a gaveta de memórias nocivas e jamais em tempo algum parti para o insulto como li imensos. Tenho as minhas razões mas já é assunto encerrado.

      Beijos e um bom dia

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    3. Fatyly, penso que percebi que "a gaveta de memórias nocivas", terá a ver com a descolonização. Acho que faz bem em fechar a gaveta, ou penso que sim. Não sei. Nestas coisas não é possível saber o que vai dentro da alma das pessoas.

      Tenha um óptimo fim-de-semana, Fatyly :)

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