quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

(hoje deu-me para analisar umas coisas)

Tenho sempre esta tendência para achar que a vida é mais do que aquilo que de imediato salta aos nossos olhos. Nem sempre aquilo que salta de imediato, salta bem. Por vezes não se sabe sequer andar, quanto mais saltar.

Um pequeno aparte para filosofar um pouco: na água que dizem ser mole e na pedra que dizem ser dura, a moleza da água repetidamente, insistentemente, a bater na dureza da pedra, vence-a. Atira-a ao tapete. Admito que gosto muito mais da estratégia da água. Pessoas existem que são água e pessoas existem que são pedra. Pedras em maioria e água em minoria. O final é bem capaz de  ser o facto de estancar a vida.

De volta à realidade: trocado por miúdos e não por graúdos, ou trocado por graúdos e não por miúdos, depende da leitura de cada um, o que quero dizer é que a forma como as pessoas reagem a determinadas situações revela muito de si. Imagine-se que alguém vê um outro alguém espancar um gato com um pau, se eu disser de imediato que pegava num pau e espancava a pessoa que estava a espancar o gato só para ela aprender a não espancar gatos, apenas digo que eu também era capaz de espancar, não importa o quê, mas espancar, e nestas alturas o espancamento também pode ser verbal, ainda que muitos achem que o lado físico é que deve ser penalizado em detrimento do lado psicológico. Eu, que não sou nada nesta vida, digo apenas que as pessoas que passam por violência verbal, a dita pode causar maiores danos do que a física. E se nesta altura do campeonato alguém me dissesse, ah, mas a violência física por vezes mata e a violência psicológica. a silenciosa, essa não mata efectivamente, tem esse lado positivo (?) de, apesar de tudo, manter as pessoas vivas. Eu, a tal que acabou de escrever ali mais em cima que não sou nada nesta vida, afirmo que se pode morrer de várias formas, a silenciosa, a que agride psicologicamente, é uma forma de morrer sem ninguém dar por isso. Pessoas existem que estão a morrer ali, ao nosso lado e... não damos por isso. Existe morte cirurgicamente, perversamente, pior do que essa? O ir morrendo rodeado de muita gente?

Por vezes dá-me para ler artigos escritos por profissionais, dá-me para ler pessoas que são comuns e dá-me para escrever coisas à minha maneira, eu que também sou comum e escrevo da única maneira que sei, esta maneira de estar no mundo que também acaba por ser construído com um meu ínfimo fio de cabelo. O meu fio emaranhado com muitos outros fios.
...

Antes de terminar deixo duas passagens do tal artigo que li ontem à noite:
" (...) é menos ofensivo um homem bater numa mulher do que uma mulher envergonhar um homem (...)"
(na primeira passagem chega-se à conclusão que envergonhar um homem, o que quer que isso queira dizer, é bem mais grave do que um homem bater numa mulher, o termo ofensivo é qualquer coisa que me ultrapassa)

"Se a violência for cometida num estado "emocional" e não tiver "graves consequências" ("só nódoas, arranhões", específica outra deputada), não se deve criminalizar o agressor."
(na segunda passagem usa-se a palavra agressor e a palavra agressor está ali só para enfeitar o cabelo da deputada, acho eu imbuída da ciência do achismo que a deputada deveria voltar aos bancos de escola só naquela de tentar perceber o que quer dizer "emocional" e o que quer dizer "só")

Se isto se passa na Rússia? Passa-se sim senhor. Isto da violência doméstica estar prestes a ser descriminalizada. E será que por se passar na Rússia não tem nada a ver com Portugal?!... Eu cá acho que tem, mas eu tenho as ciências todas trocadas.

6 comentários :

  1. Há coisas que uma vez analisadas nos deixam perplexos. Esta é uma delas.

    E lá estamos nós, tugas, a pensar que o mal só existe quando acontece com os outros. E se esse mal estiver a milhares de quilómetros de distância, tanto melhor, não é mesmo nada connosco.
    Pensamento errado, claro.

    Discriminalizar a violência doméstica é um absurdo, uma maldade, na linha daquela gente que de humano nada tem.

    Beijinho, Maria.

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    1. Caro Observador, eu, francamente, já não sei o que pensar. Ultimamente ao ler notícias, assusto-me, frequentemente, esta que li vinda da Rússia é simplesmente assustadora, tendo em conta que até são mulheres que estão à frente de determinadas leis, de determinados juízos que influenciam e muito a vida das pessoas.

      Entretanto quando digo que não entendo o facto do outro homem que agora é Presidente dos Estados Unidos, o tal do Trump, ter sido eleito por mulheres também, mulheres que devem ter uma auto-estima muito baixa quando elegem para gerir o destino de um país que influencia o mundo inteiro, um homem que desrespeitou as mulheres na sua campanha eleitoral de tal forma que, a mim, me deixa à beira da náusea. E também entendo as manifestações de outras mulheres que decorreram um pouco por todo o mundo, aquilo, se lermos bem, quer apenas dizer que se outras mulheres elegeram um Trump para as representar, nós, as outras, que não tivemos oportunidade de votar manifestamo-nos de uma forma simbólica, dizendo que embora sejamos mulheres também não concordamos com o voto das primeiras. Por vezes é preciso ler nas entrelinhas, penso eu de que...

      Beijinho para si também.

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  2. Os dois gigantes vão competir entre si pelo maior grau de estupidez? Um quer voltar a impôr a tortura, e a politica da terra queimada, o outro quer abolir a criminalização da violência. Começa-se pela feminina, porque os políticos sempre começam por atacar os mais fracos, para depois se generalizarem. Apetece perguntar Quo Vadis humanidade?
    O facto de ser lá longe, não nos pode descansar. Lembro-me sempre deste poema, que até à pouco tempo julguei ser de Brecht, mas que afinal parece ser de Martin Niemöller

    Indiferença
    Primeiro levaram os comunistas,
    Mas eu não me importei
    Porque não era nada comigo.

    Em seguida levaram alguns operários,
    Mas a mim não me afectou
    Porque eu não sou operário.

    Depois prenderam os sindicalistas,
    Mas eu não me incomodei
    Porque nunca fui sindicalista.

    Logo a seguir chegou a vez
    De alguns padres, mas como
    Nunca fui religioso, também não liguei.

    Agora levaram-me a mim
    E quando percebi,
    Já era tarde.

    Abraço

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    1. Elvira, vou começar pelo poema, não porque o coloco num patamar superior às suas palavras, mas porque o conheço muito bem e é, na minha opinião, muito, muito bom. A indiferença, seja ela em que sentido for, mata. Essa é que essa.

      Eu não queria acreditar quando hoje de manhã me deparei com mais essa do Trump querer impor a tortura. Ou seja, o homem está no poder há meia dúzia de dias e já se começa a regredir. Ou a cheirar a regressão. Isto não vai acabar nada bem, ele é a tortura, ele é a construção de muros... Uma pessoa não tem como não ficar apreensiva.

      Esta da Rússia deixou-me boquiaberta, li o artigo várias vezes, confesso, recusa-me acreditar no que estava ali à minha frente.
      ...

      Um abraço para si também, Elvira.

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  3. Li e reli o artigo e fiquei a pensar em muita coisa de que não gosto lembrar porque a violência doméstica onde incluo a mais vil ramificação - a psicológica, deveria ser penalizada e bem penalizada para os agressores, homens ou mulheres, embora existam menos mulheres a praticarem boxe.

    Fiquei agoniada e oxalá que essa tal de Helena Mizulina um dia não leve um enxerto de "coisas más, muito más" para saber/sentir o que é xarope para a tosse.

    Isto é na Rússia e nós por cá temos o mesmo flagelo. Algumas juízas são as piores em termos de penalizações porque são brandas para não dizer outras coisa mais feia. Há muito que fazer e uma das medidas com que não atino é a vitima que tem de largar tudo ir para abrigos credenciados (aqui teria muita coisa a dizer sobre as falhas, muitas falhas dos ditos organismos) e o(a) agressor(a) andar no bem bom e a usufruir do lar que era de ambos. É igualmente assustador tudo o que não é poupado às crianças/filhos que assistem e por vezes levam também com uma dose...fico por aqui.

    A violência doméstica é transversal a qualquer sociedade e quase sempre praticada sobre o elo mais fraco e em pleno século vinte e um ainda há culturas em que a mulher vale menos que um burro, em que as crianças meninas são simplesmente descartadas e tudo porque o guião mor é a religião um livro com milhares de traduções/interpretações que cada um usa conforme lhe dá mais jeito.

    Corta-se um pé ou uma mão a uma criança porque roubou umas simples laranjas. Matam mulheres à pedrada porque foi adultera e aos homens tudo lhes é permitido.

    Saio daqui agoniada e bem revoltada

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    1. A Fatyly foi buscar algo que já deveria ter sido resolvido de vez. Tanta legislação, tanta legislação e entretanto não se legisla quando é efectivamente necessário. Refiro-me a isto que escreveu:

      "e uma das medidas com que não atino é a vitima que tem de largar tudo ir para abrigos credenciados (aqui teria muita coisa a dizer sobre as falhas, muitas falhas dos ditos organismos) e o(a) agressor(a) andar no bem bom e a usufruir do lar que era de ambos"

      Pois eu também não entendo que seja a vítima a ter que se esconder e o agressor ficar a viver na casa como se nada se tivesse passado. Ainda dizem alguns políticos que vive-se muito bem em Portugal, que isto é muito calmo e muito bom. Nota-se que não são mulheres e que nunca tiveram que fugir para parte incerta com medo de perder a vida... Raios!

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