domingo, 1 de janeiro de 2017

Cirurgicamente lá se vai matando a esperança... (e ainda agora é dia primeiro do ano)

Dediquei algum do meu tempo nesta quadra festiva que inclui Natal e Ano Novo a ouvir, ler, pessoas. Um passatempo como outro qualquer, tendo este a mais valia de nos abrir horizontes com uns e fechá-los, trancá-los a sete chaves com outros. Quando me refiro a fechá-los, trancá-los, a eles, os horizontes, refiro-me a pessoas que nos matam cirurgicamente a esperança. Parecem ser terroristas em modo individual. Perigosos de uma outra maneira.

Se uma pessoa se concentrar na forma como os terroristas agem, vemos que eles estudam minuciosamente os seus alvos e, alguns dos seus alvos têm quase sempre em vista momentos em que as pessoas se querem divertir. Momentos em que querem, ainda que por breves momentos, esquecer dias mais difíceis, vai daí vão a uma discoteca, vão a um concerto, vão a uma festa, vão ver fogo de artifício num final de ano, bebem um pouco para além da conta, é um facto, talvez seja um modo de anestesiar dores que não saem nem com dois litros de lixívia embebida num pano áspero. E as pessoas têm direito a isso. Têm direito a divertir-se sem prestar contas a ninguém mas, lá está, os terroristas daqueles mesmo a sério, os que matam mesmo a sério e os outros em modo individual que não matam a sério mas também gostam e muito de matar esperanças, não gostam de ver gente divertir-se, de ver gente ter esperança num ano novo ainda que se saiba que não é novo mas faz de conta que sim, portanto toca de arranjar um processo qualquer tendo em vista estragar o momento.

E como?
Os primeiros entram de rompante em discotecas e usam armas que num segundo rouba a vida das pessoas de modo definitivo. Arremessam camiões de encontro a multidões em concertos. Fazem-se explodir em praças onde por vezes a multidão se junta para olhar o céu e ver fogo de artifício. Fuzilam a sangue frio pessoas numa praia paradisíaca qualquer. Já usam, inclusive, o traje de pai Natal para, assim, roubar a seu bel-prazer vidas. 

O que é que isto tem em comum com os segundos? Tem em comum que não gostam do cheiro a esperança (a capacidade de relaxar, sorrir, rir) que emana das pessoas que teimam em viver à sua maneira. Pessoas de bem com a vida têm mais auto-estima, são de alguma forma mais fortes, sabem defender-se melhor, penso eu... São pessoas que dão mais trabalho no processo de as destruir. São, só por isso, um alvo a abater. Para os terroristas de qualquer espécie, sejam eles de primeira ou de segunda instância, a preferência vai para gente vulnerável, gente que se encolhe, gente que baixa os olhos e os ombros e a vontade de viver, gente que segue cegamente outra gente ainda que o caminho escolhido seja sombrio.

Falemos agora dos segundos... Os segundos, bem, os segundos são aqueles que não sendo terroristas a sério naquilo de matar efectivamente, também não se sentem bem quando os outros se divertem. E vai daí odeiam o Natal, odeiam o Ano Novo, odeiam ver gente alegre, odeiam ver gente a praticar o divertimento só porque sim. Aquilo para eles não faz sentido nenhum. Odeiam e é um odiozinho impregnado de essências pequeninas e mesquinhas.

Eu também tenho receio em modo xxl destes segundos. Estes são aqueles que se serpenteiam por aí muito bem disfarçados. Por vezes até têm um bom corte de cabelo e tudo. Uma pessoa vê-se grega para perceber quem é quem.

Já dei comigo a pensar se estes segundos não serão primos afastados dos primeiros?... Afastados pelas circunstâncias da vida mas muito próximos na formação de ideias. Se calhar estou a exagerar um bocadinho, se assim for ainda bem, não me agradaria nada pensar que pode existir um qualquer vestígio de verdade nisto de me pôr a ouvir, ler, certas pessoas. Já faltou mais no sentido de as ver de karasnikov na mão a matar garrafas de espumante e pacotes de passas. Diria que são os sanguinários dos tempos modernos.

10 comentários :

  1. 2016 deixou-me um bocado azeda. De modo que ando assim um bocado a modos que como os terroristas dois. Por isso deixo aqui apenas um voto. De que 2017 seja para si aquilo que quer que seja,
    Um abraço

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    1. Não me consegue convencer na parte de que anda a modos como os terroristas dois. Nãããã... Os terroristas dois são intrinsecamente gente com mau fundo, como diria a minha avó. Estar azeda porque o ano de 2016 a deixou desiludida não a catapulta para esses lados.

      Por mim bastava-me que fosse bem diferente, para melhor, obviamente, do ano de 2016.

      Abraço, Elvira, tenha um ano de 2017 luminoso. Porque isso de ser feliz penso que já o é um bocadinho, pelo menos na forma como fala do seu marido :)

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    2. Obrigada Maria. talvez eu devesse estar calada, mas às vezes falo de mais. Feliz? Pois eu sou. O meu marido, é o meu homem, o meu companheiro, a minha fonte de inspiração, o ar que respiro. Mas a saúde tem-me pregado umas boas partidas. E neste 2016 perdi um familiar e duas grandes amigas. E isso torna-nos um pouco azedos. Peço desculpa. Abraço

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    3. Não, Elvira, não é nada disso.. (ó meu Deus, por vezes não sei o que responder às pessoas desse lado)... O que quero dizer é que não tem que pedir desculpa por coisa alguma e nem tão pouco ficar calada, apenas me lembrei de um seu comentário que deixou por aqui, não me lembro em que texto, onde escreveu umas linhas muito bonitas em relação ao seu casamento e ao seu marido. Portanto liguei tudo e pensei que apesar da vida pregar partidas bem fortes de quando em vez, é bom ter ali ao lado um braço para amparar :)

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  2. Quantos aos primeiros dizes tudo e só acrescento que sobre o efeito de drogas/alcool o extremismo faz das suas tornando-os maléficos e com armas na mão tudo fazem à socapa.

    Quantos aos segundos, de fatinho, laço e ou gravata, com vestidos com resmas de brilhantes, de barriga cheia querem ser os reis da parada e tentam de mil e uma forma derrubar e preencher de lodo e estrume o espaço de cada um, numa de...eu é que mando/faço/avalio e o raio que os parta.

    Condeno totalmente a forma de actuar dos primeiros onde a mente enraivecida e já tão distorcida não há volta a dar e pimba com eles se forem apanhados.

    Não gosto dos festejos do fim do ano. Longe vão os tempos de festarolas mas não condeno quem pula, canta, dança e manifesta a sua alegria. Tal como os banhos de mar no primeiro dia do ano e via tv ainda dei uma sonoras gargalhadas com o que vi.

    Também escutei as pessoas e vi alguns telejornais e o malhar de aumentos, impostos, cortes etc, etc, fizeram estragos o tal "cirurgicamente matarem a esperança". É isso que pretendem um povo rendido e para se conseguir vencer temos que cada um tratar da esperança, do acreditar e sobretudo do sorrir para que pacificamente consigamos boiar acima da inveja, incúria, crítica e rebaixamento de muitos que proliferam na sociedade. São igualmente perigosos com a sua Kalashnikov invisível.

    Dou-te um pequeno exemplo do que acabo de dizer e desde já peço desculpa por ser um pouco dura: nas minhas conversas com Deus, chamei-o à atenção para não estragar a festa de milhões de portugueses, já que se o tal senhor, sim esse, com direito a boletins médicos diários com informação de coisa nenhuma, as festas não se realizariam pela lei ou leis que temos. Não ocorreu e ainda bem porque o mundo é de todos e é pena que uns sejam MAIS do que outros e sempre de olho na casa do vizinho.

    Bom 2017 e todos os dias temos coisas boas e más e não dou ouvidos aos que teimosamente nos entram casa a dentro gritando coisas que metem medo ao susto e como tenho um botãozinho tão simpático...desligo e não lhes dou oportunidade alguma:))

    Um bom dia e já chove:)

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    1. Fatyly, o segundos não andam só de "fatinho, laço e ou gravata, com vestidos com resmas de brilhantes, de barriga cheia". Puro engano. Também os há noutro formato. Um formato em modo pacato, humilde, e com uma auréola de boa pessoa. Passam despercebidos. Ah pois!

      As pessoas precisam dos festejos de final de ano, é um gesto simbólico, é como se se cortasse com tudo o que foi ruim do ano que passou e se tivesse direito a um recomeço. Funciona como alavanca, por assim dizer. Nada mais do que isso. Não existe isso da obrigatoriedade em se divertir nessa noite, a coisa dá-se naturalmente. E é muito bom ver gente com os olhos a brilhar lá por volta da meia-noite como se acreditassem que algo vai mudar. É a tal esperança que não se pode roubar às pessoas, antes pelo contrário, deve-se incentivar. Ter capacidade de nos divertirmos torna-nos muito mais saudáveis. Capazes de enfrentar melhor o lado menos positivo. Penso eu de que...

      (de qualquer forma é bom estar minimamente informado, não entrar em paranóias, obviamente, mas jamais enfiar a cabeça na areia e pensar que o mundo são flores e pássaros esvoaçantes, isso também pode ser a morte do artista)

      Tenha uma boa semana, Fatyly.

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  3. Tudo o que seja terrorismo é condenável. Não me apraz distingui-los, naquela dos 'primeiros' e dos 'segundos' porque, a meu ver, têm o mesmo denominador comum.

    Sabe, Maria, ainda não consegui perceber o que leva a comunicação social a dar mais destaque e tempo de antena a uns do que a outros. Isto do ponto de vista dos actos terroristas em geral. De alguns nem nos dão conta. Como se o terror fosse passível de ser classificado.

    PS pequenino: faça o favor de trocar a karashnikov pela kalashnikov não vá Mikhail Kalashnikov ficar ofendido :)

    Beijinho, excelência, com votos de um maravilhoso 2017.

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    1. A diferença é que os primeiros matam efectivamente e os segundos matam lentamente sem nos apercebermos sequer. São perigosos cada qual à sua maneira, ainda que ache que dos segundos podemos, de alguma forma, escapar. Se calhar se a malta andar mais atenta, digo eu, mas que sei eu...

      A comunicação social tem como dever relatar factos, portanto só podem informar em relação aos primeiros. Os segundos serão alguns, muitos, de nós. Penso ser isto.

      (Não troco nada, caro Observador, aquilo foi mais ou menos propositado, eu cá acho que ainda não percebeu a minha forma de escrever :))

      Beijinho para si também e uma boa semana.

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  4. Boa noite, Maria :)
    Antes de mais desejo-lhe um excelente 2017 :)
    Em relação aos primeiros, nem vale a pensa falar, pronto.... Os segundos... bem, os segundos, eu acho que a Maria se está a referir a um tipo muito específico de pessoas , ou então eu não estou a entender. Quer me parece que a Maria fala por meias palavras ... Ou então sou eu que não estou a perceber onde a Maria pretende chegar. Eu não vejo mal nenhum em as pessoas não gostarem do Natal. Eu gosto e , sinceramente, já muitas pessoas me têm perguntado como é que eu ainda gosto do Natal, mas gosto, e agora? Gosto da luzes nas ruas, das ruas com decoração de Natal e sempre com música de Natal, gosto de ouvir e ver as pessoas na azáfama, a fazer as compras, a perguntarem umas Às outras como vão passar o Natal (esta parte irrita-me um bocadinho, mas já lá vou, e é mais em relação à passagem de ano). Gosto de ver as pessoas passar com sacos cheios de embrulhos, pronto, gosto disso tudo. É um bocado incongruente tendo em conta que estou sozinha, que passei a noite e o dia de Natal sozinha (valeu-me a componente a que a Maria chama virtual, mas que foi o meu bálsamo. O meu filho e vários amigos me telefonaram, através do messenger para puderem fazer video-chamada e brindes e isso tudo e nos vermos uns aos outros). Por acaso na passagem de Ano até podia ter ido para vários sítios com amigos... Mas não tinha dinheiro para isso e sou contra gastar tudo numa noite, só porque é passagem de ano e depois passar o mês de Janeiro todo a tinir. como se fosse obrigatório a pessoa ir a algum sítio nessa noite. Para mim não faz qualquer sentido! Nenhum mesmo!

    Acho que as pessoas que não gostam do Natal estão no seu direito. Não somos obrigados a gostar de tudo. Já foi tempo em que eu achava que as pessoas que não gostavam do Natal eram más pessoas porque não gostavam deste tempo alegre e de paz. Depois fui falando com as pessoas e percebendo que , na maior parte dos casos, o que se passa é precisamente o contrário. São pessoas que não gostam do Natal precisamente porque acham que é uma época de hipocrisia, em que as pessoas que não se falam ao longo do ano, depois no Natal é só beijinhos e abraços, quando ao longo do ano viram a cara se a pessoa precisar de ajuda ou de conforto. Acho que é por isso que a maioria das pessoas que não gosta do Natal tem essa filosofia de vida. Eu acho que estas datas existem precisamente para marcar épocas, sei lá... Não me consigo explicar melhor... As pessoas estabelecem metas, fazem planos até ao Natal, até ao aniversário, até às férias, etc.... São datas estratégicas, pronto. Mas compreendo a forma de pensar das pessoas que acham que tudo não passa de uma quadra hipócrita, que incentiva ao consumismo e isso tudo. Em relação à passagem de ano, por acaso há coisas que me irritam. Já gostei imenso da passagem de ano e ainda gosto. Mas aos 48 anos e olhando para trás vejo que a maioria das minhas passagens de ano forma um desperdício de dinheiro por uma desilusão! As expectativas eram sempre muito altas e depois no dia seguinte punha-me a pensar "Mas... Gastei tanto dinheiro para ... Aquilo???"... Hoje irrita-me muito quando, ao aproximar-se a data, cada pessoas que encontro me pergunta "Então?? Onde é que vais na passagem de ano??" ... Não perguntam se vou a algum lado. Não. Perguntam ONDE vou. Como se fosse obrigatório ir a algum lado. Como se ficar em casa fosse algo que estivesse completamente fora de questão. E depois, quando respondo "Não vou para lado nenhum, vou ficar e casa..." olham-me com uma cara de horror como se eu tivesse acabado de dizer que ia matar alguém "Não vais a lado nenhum????".... Como se fosse uma obrigação socio-cultural ir a algum sítio nesse noite e ter forçosamente que me divertir! Isso irrita-me, sinceramente.

    Agora, se há um tipo específico de "haters" que tenta boicotar o Natal dos outros, isso já não sei... Acho que a Maria se está a referir a um tipo muito específico de pessoas, mas não sei...

    Abraço e um excelente 2017 :)

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    1. Olá São,

      Eu cá acho que não "falei" por meias palavras, mas se a São acha, aceito. Não tenho outro remédio :))

      Este texto não tem nada ver com pessoas que, pura e simplesmente, não comemoram o final de ano. Longe disso, acho que dá para perceber. Seria um bocado absurdo chamar de terroristas a pessoas que não gostam de festas... Este texto, se o ler bem, tem a ver com pessoas específicas que odeiam e nesse odiar tentam rebentar (rebentar é a palavra certa) com a alegria, com os sonhos, com a esperança, dos outros. Tao simples quanto isto.

      Este texto é, sobretudo, sobre terrorismo/terroristas. As várias caras, chamemos assim, do terrorismo. Há os que matam efectivamente e há os que matam silenciosamente.
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      Abraço para si também e tenha um excelente ano, São, de verdade :)

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