quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Talvez o problema nos dias que correm se deva ao facto de tudo romancear, de tudo heroicizar

Dou comigo, ultimamente, a ouvir as pessoas em modo slow motion - já sei, isto dos estrangeirismos tira do sério muita gente, só que tenho coisas bem mais sérias em que pensar, estrangeirismos não fazem parte do pacote de coisas sérias, empregar uma ou outra expressão em inglês não me parece grave desde que não se entre no campo do ridículo, do snobismo. Convivo com a língua inglesa e com a língua portuguesa desde que me lembro, misturam-se por vezes sem sequer eu dar por isso, talvez, também, consequência da profissão que abracei desde sempre. Não uso cá dessas coisas de preconceitos em misturar seja o que for, desde que bem doseado, aquilo só enriquece, e eu nada tenho contra a riqueza, ao contrário de muitos que acham que este mundo seria melhor se se mandasse fuzilar tudo quanto é gente rica, pensam eles que o mundo ficaria melhor, eu tenho uma leve impressão de que não ficaria. Tenho esta tendência de achar, se calhar mal, que o mundo ficaria melhor, bem mais justo, se deixassem de existir pessoas a viver em condições miseráveis. Não é "matar" os ricos, é dar a mão e elevar os mais pobres, esse parece-me ser o caminho da evolução, da dignidade que se quer. Isto de querer descer no sentido da igualdade, em vez de subir para tornar a igualdade um dia possível, não nos vai deixar sair da cepa torta, nunca (vou riscar a palavra nunca para manter a esperança acesa). Pessoalmente gosto bastante da expressão "para baixo todos os santos ajudam". Somos um país de santos que nunca mais acaba. Convém perceber que a palavra santo está bêbeda de ironia.

Em relação a romancear. Ora, não vamos muito mais longe e veja-se a situação de morrer um ditador e o discurso de muitos ser na onda de romancear o facto. Entretanto, como se não bastasse, ainda atiram para cima aquilo de heroicizar. Nesta altura do texto e só para rimar, falta-me o... ar. Nem sequer vou falar de Trump e de ter ouvido hoje de manhã que irá ser um bom Presidente para os Estados (desu)Unidos. Ah e tal, mas ele disse a propósito de Fidel que foi um "ditador brutal", pois disse, só que a ditadura veste-se de várias formas. E também muda de pele várias vezes por ano. Como as cobras. Odeio serpentinas. Odeio o Carnaval. Mas gosto de papelinhos de vários cores que tornam os nossos dias mais coloridos. Ups! Romanceei...

6 comentários :

  1. Gostei do romance que acabo de ler :)

    Não aos estrangeirismos? Sim, sempre que o termo tenha a possibilidade de ser usado em formato tuga.
    Mas ... uma dúvida, posso? Snobismo não cheira a estrangeirismo? É só uma pergunta. O termo snob é de origem inglesa, aportuguesado como snobe e brasileirado como esnobe, e tal e tal e tal.
    Esqueça lá isso, Maria. Foi uma divagação.
    Também gosto de romancear mas só às terças, quintas e sábados :))

    Beijinho

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    1. Não sou muito dada ao romance, caro Observador, deixo isso para quem percebe da nobre arte de bem saber deitar poeira para os olhinhos dos outros. Como diz a canção de Ivete Sangalo... pooooooeiiiiiiraaaaaa-a-a... pooooooeiiiiiiraaaaaa-a-a... l(É)vantou poeira...

      O problema é que o formato tuga por vezes é ridículo e destrói o sentido de uma expressão, de uma frase, de uma palavra. Convém não traduzir à letra. Vejamos aquela expressão do "it's raining cats and dogs", se eu for traduzir à letra a coisa fica num "está a chover gatos e cães", ora, isto é do mais ridículo, mais parvo, que existe. It's raining cats and dogs nada mais é do que está a chover torrencialmente. Não gosto de coisas tugas, gosto de rigor nalgumas situações, as traduções devem ser sempre rigorosas, destruir a expressão única que só ela do it's raining cats and dogs é matar o espírito que a mesma encerra. Penso eu...

      Snobismo é o abraço apertado que acontece quando o snobe e o ismo se encontram para tomar um café :)))

      Beijinho para si também.

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    2. Ora ora ora, se o "it's raining cats and dogs nada mais é do que está a chover torrencialmente", por que motivo não dizemos simplesmente "está a chver torrencialmente"?

      É verdade que o formato tuga pode tender ao ridículo mas depende de nós evitar que tal aconteça.

      Tenho para mim que quando o snobe se encontra com o ismo, o mais sensato é um chá de camomila :))

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    3. A resposta está no meu comentário lá mais em cima, na parte em que escrevi isto: "destruir a expressão única que só ela do it's raining cats and dogs é matar o espírito que a mesma encerra". Dizer está a chover torrencialmente é a coisa mais normalzinha-inha possível, uma pessoa já tem que aguentar com a rotina, se entretanto não existirem situações diferentes morre-se muito antes de termos morrido efectivamente.
      ...

      Agora ridículo e com doses abismais de afectação é talvez falar/escrever desta forma:
      Vou calçar os sneakers e fazer um pouco de jogging, a seguir vou dar um salto ao sunset party para um drink naquele hall fantástico. Tenho ainda de ver no meu closet qual o outfit mais adequado, ou talvez telefonar ao meu stylist. O meu look tem que estar impecável.

      Bah! Coisa mais snobe do que isto não existe.
      ...

      (as pessoas lá de uma geração mais atrás também diziam/dizem "boate" ou lá o que é, e a tal da "boate" nada mais é do que casa nocturna, então por que raio não dizem casa nocturna? ah pois é! e champagne, porque é que as pessoas que não gostam de estrangeirismos não dizem vinho branco espumante? pois...)

      :)

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  2. Fidel foi herói com Che ao derrubarem a ditadura, mas Fidel tornou-se ditador igual ou pior ao antecessor, daí eu jamais "Romancear ou heroicizar" este que já foi para "os quintos dos infernos" e outros que poderiam seguir o mesmo caminho. Impressionante é ver o ar nos discursos feitos...tal como o do tal de Maduro que pôs um país quase sem pão e água

    Quanto ao uso de "expressões estrangeiras" é algo que não me incomoda desde que as entenda e se não as entender procuro a tradução. Mas quando falam/comentam/opinam sobre a situação ou situações que nos apoquentam deveriam ter mais cuidado no abuso das mesmas porque a maioria das pessoas não entende nada e fico fula com tamanha falta de sensatez e manias armados em pavões ou pavoas!

    Não tenho nada contra os ricos, excepto todos os que se tornaram pelas piores vias: roubo, corrupção, má gestão etc e tal. Pior do que isso é continuarem na caminhada da impunidade sem fim à vista. Incluo aqui muitos políticos e há uns quantos já de pantufas...que...plufff-plufff-acho-que-nem-as-minhocas-irão-gostar-deles-na-dita-coisa-que-levam-sete-palmos-de-terra!

    Sempre que posso ajudo quem mais necessita, seja a carregar um saco, ir buscar o jornal e tabaco (aqui têm de pagar) porque já não conseguem andar com o enorme peso da idade. Aproxima-se o Natal e as campanhas já começaram a ganhar asas e todos, mas todos os televisivos é "quem dá mais".

    Hoje quando liguei a tv ouvi algo que não sei se percebi bem: o Estado deixou de dar a contribuição anual a várias Instituições de Solidariedade e se o fizeram é porque de facto são tudo menos de "Solidariedade" porque as duas que conheci e juntamente com dois fulanos da anterior governação da Junta da Freguesia daqui...está bem, está ó-ó-ó-ó...pobre de quem precisava de comer, porque para além do calvário em termos de papelada...só recebiam "*****".

    Não sei se Trump será um bom presidente porque o homem deu mostras de coisas de meter medo ao susto, mas não acredito numa eventual faceta de actor ou palhaço (uma vénia a todos os palhaços que fazem as alegrias das crianças).






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    1. Fatyly, este seu comentário está muito bem arrumado. Parece-me muito bem.

      Quanto a ditadores, nada a dizer, ou muito existiria para dizer, só que uma pessoa começa a pensar depois de ter ouvido tudo o que ouviu nestes últimos dias, coisas na onda de aplausos e discursos que colocam ditadores no mesmo patamar dos verdadeiros heróis que, acho, não vale a pena gastar mais energias com isto de tentar perceber o porquê de quase ninguém falar dos milhares de inocentes que morreram nas mãos de ditadores. Se calhar não é importante...
      ...

      Isto dos estrangeirismos, como em tudo na vida, bem doseado e desde que faça sentido num determinado contexto, nada a opor. Com um bocadinho de sorte muitos portugueses gostariam que Portugal funcionasse como a vizinha Espanha onde tudo é dobrado para espanhol.

      Existe gente que gostaria de exterminar tudo quanto é gente rica, inteligentes eles, sem dúvida alguma... Obviamente que a riqueza, a existir, terá que não ser proveniente de fontes duvidosas, aí terão que existir mecanismos para perceber a diferença. Defendo que o sentido da vida não é descer, o sentido é subir, e sendo a subir a coisa é dar condições para que as pessoas que não as possuem tenham uma maior qualidade de vida. Começar por emprego para todos...

      Quanto a esta sua parte do comentário: "o Estado deixou de dar a contribuição anual a várias Instituições de Solidariedade", admito que não ouvi nada acerca.

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