segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Na senda do continuar a não raciocinar bem (ou a recusar-me ir atrás do que os outros me querem vender)

Imagine-se um homem casado que todos os dias chega a casa e espanca a mulher. Umas vezes espanca-a porque o dia não lhe correu bem no trabalho e precisa de descarregar a raiva em alguém, se casou e existe um ser humano ali à mão, os casamentos também servem para estas coisas, toca de dar um murro e um pontapé na legítima que muitos gostam de chamar de esposa (eu não suporto o termo esposa/esposo, coisa que para o caso não tem importância alguma). Ah, agora sim - pensa - sinto-me mais aliviado, vou ali beber uma cerveja com os amigos para comemorar. E vai. Infelizmente também volta para no dia seguinte voltar a repetir a dose de espancamento na mulher. Hoje, sendo já o dia seguinte, o espancamento deve-se ao facto de no trânsito se ter chateado com um ser qualquer a quem chamou coisas impróprias. Sente-se irritado, a cara da mulher pode muito bem servir de saco de pancada para lhe aliviar a tensão que o trânsito lhe provocou. Já está, agora consegue respirar melhor, embora tenha partido o nariz à pessoa que lhe trata da roupa, lhe faz a comida, educa os filhos, dá comida ao cão, apanha as laranjas quando a laranjeira diz que é hora de o fazer. E ela faz, sempre sem reclamar, nem sequer reclama daquele a quem um dia disse sim em frente ao padre, sim, que o amaria para sempre e que nunca lhe seria infiel. Nem sequer foi necessário jurar que jamais o espancaria, ela sabe que quem ama não espanca, não está escrito em lado algum, não é preciso jurar no dia do casamento em frente ao padre, no entanto deixa-se espancar entre quatro paredes onde ninguém tem acesso ao amor dos outros. Ai o amor. Ai o espancamento associado ao amor. Ai.

No entanto este mesmo homem que espanca a mulher protegido pelas quatro paredes de uma casa branca e muito bem arranjada por fora, é do mais encantador, do mais simpático, do mais educado... na rua, lá fora onde não existem paredes e tudo se pode ver, até ajuda as vizinhas a carregar as compras para casa, dá-lhes boleia quando as vê ali a pingar na paragem de autocarro num dia de muita chuva, tem sempre uma palavra amável, de consolo, de força para com os outros, mesmo assim chega no final do dia a casa e volta a espancar a mulher, parece que a mulher lhe perguntou o porquê de o ver a falar uma hora com a dona Felismina à esquina do café, e ele, sendo um homem, não gostou de ser questionado lá nas coisas dele, portanto toca de dar dois murros na mulher para aprender a não o incomodar numa hora em que só quer paz e sossego. 

Este também é o homem que no Natal de cada ano que cai em cima de quem os apanhar, compra comida para dar aos "pobrezinhos". E que faz festas aos cães dos outros e nunca ao dele, ao dele nem sequer se lembra de lhe dar água e alguma comida, a sorte é que o cão pode sempre contar com aquela que mesmo sendo espancada nunca o abandona e não lhe dá um osso só no Natal, nem água só no Verão quando o calor é insuportável. Ninguém sabe que ela o faz, lá está, as quatro paredes não permitem que ninguém saiba de coisas que não interessam a ninguém.

Se perguntarem aos que não vivem com ele dentro de quatro paredes o que pensam deste homem, quase toda a gente dirá que é a melhor pessoa que conhecem. Um santo, mesmo daqueles que se põem lá no altar. Só lhe falta as asinhas para voar em direcção ao azul do céu. 

E por falar em céu, ou inferno, quando este homem morrer pergunto-me o que irão escrever na lápide.
Talvez um: aqui jaz o homem mais encantador que alguma vez existiu... 
Talvez um: aqui jaz o homem mais cruel que alguma vez existiu... 

6 comentários :

  1. Proposta para a lápide: aqui jaz o homem mais 'faz de conta' que alguma vez existiu.
    É simples e não cai mal. Penso eu de que, tendo em consideração que hoje é ... isso mesmo, 2ª feira!!!

    Beijinho

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    1. Fazer de conta não me parece dramático se a coisa não envolver o sofrimento de terceiros. Não é o caso. Portanto o que propõe, a tal coisa de "o homem mais 'faz de conta' que alguma vez existiu", é demasiado brando, ou então não, tendo em conta que dizem ser Portugal um país de brandos costumes. Se calhar estava na altura de mudar os costumes e começar a chamar os bois pelos nomes. Um homem encantador, só pode ser designado por encantador se o encanto existir e persistir, quer fora, quer dentro, de casa. E é isto.

      Nestes assuntos de violência (doméstica e não só), de dissimulação, é necessário cada vez mais que o quer que se diga caia mal. Muito mal mesmo. Isto está tudo muito bonitinho por fora, mas demasiado desarrumado, sujo, por dentro.
      ...

      (beijinho também para si)

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  2. Sinceramente Maria, eu gostava de ler este post como uma história qualquer. Mas não consigo. Porque ele trás atrelado a história de muitas mulheres, todos os dias vítimas de violência. E de muitas mais que já repousam nos cemitérios com ou sem lápide. E porque eu conheci um homem assim. Encantador com toda a gente, e que um dia só não matou a mulher, porque o filho chegou a casa na hora certa, para enfrentar o pai. Essa mulher, era minha tia.
    Um abraço e uma boa semana

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    1. Encantador. Esta palavra, ultimamente, causa-me alguns sobressaltos. Está na hora das mulheres se dedicarem a decifrar alguns sinais. Sem entrar em generalizações, obviamente.

      (lamento pela sua tia, deve ser aterrador casar por amor com um homem e, esse mesmo homem, anos mais tarde, ser o causador de viver diariamente com medo, medo até de respirar, já nem falo do medo de ficar sem a própria vida)
      ...

      Boa semana, Elvira. Abraço para si também.

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  3. Pelo muito que já escrevi sabes bem o que penso sobre o assunto. Agora já aparecem muitos homens que padecem da mesma violência doméstica e quando elas o fazem são muito mais calculistas e de uma frieza atroz.

    É um crime público e sendo homem ou mulher, o facto real e porque há muitas mais mulheres a sofrerem horrores é que a lei, melhor dizendo a penalização deveria ser: eles presos e bem presos mesmo até serem julgados e não elas a terem de largar tudo, partirem com ou sem filhos e esconderem-se como se num estalar de dedos passassem de vítimas a condenadas. (não sei se me fiz entender).

    Na lápide eu escreveria:
    - Aqui jaz o homem feijão frade

    O feijão frade que me desculpe por gostar muito dele, sobretudo com um ovo cozido, resmas de cebola e salsa e o seu amigo atum:)))) (isto foi para aligeirar a dor que sinto quando recordo que me safei a tempo e horas)

    Um bom dia

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    1. Não existe comparação possível, o número de vitimas do sexo feminino é muito superior ao masculino. Vejam-se os últimos anos em que dia sim dia sim se ouvem notícias em que mais um homem matou a mulher/namorada. Não se ouvem casos de homens que pedem o divórcio e são mortos logo de seguida pelas ex-mulheres.

      Olhe que tenho dúvidas em relação a isso da frieza...

      Na parte em que diz que são as vitimas a ter que abandonar a casa, a sua vida, tem razão. Sofrem de maus tratos, entretanto eles ficam aconchegados na casa e elas têm que andar por aí escondidas como se fossem criminosas. Tanta lei, tanta lei, e para o que é preciso não se fazem leis duras de forma a penalizar quem deve ser penalizado e proteger quem deve ser protegido.

      (aligeirar também pode ser uma questão de sobrevivência, portanto aligeire à vontade :)

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