quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Era uma vez um Presidente da República, o seu discurso, uma avó, um avô, e um bolo de laranja

«A razão de ser de desconfianças e desilusões e descrença é outra. Tem a ver com o cansaço perante casos a mais de princípios vividos a menos. De cada vez que um responsável público se deslumbra com o poder, se acha o centro do mundo, se permite admitir dependências pessoais ou funcionais, se distancia dos governados, aparenta considerar-se eterno, alimenta clientelas, redes de influências de promoção social - económicas ou políticas -, de cada vez que isso acontece, é a democracia que sofre, é o 5 de Outubro que se empobrece ou esvazia.»

Assim discursou o Presidente de todas as portuguesas e portugueses, ontem.  Peço desculpa por desta vez colocar as mulheres à frente dos homens na primeira frase, é que, sinto-me um pouco cansada de toda a vida ter ouvido dizer que "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher". Com a entrada em acção do politicamente correcto mudaram o provérbio, pegaram nos bracinhos da mulher e colocaram-na delicadamente ao lado do homem no tal provérbio. Pois. O problema disto tudo é que se ficaram só pelo provérbio. 

(Adiante, que o 5 de Outubro não tarda a escapar-se por entre as nuvens. O dia, não o feriado)

Aquele excerto do discurso do nosso Presidente da República simboliza, para mim, evidentemente, a mudança que há muito já se esperava. Que a classe política tem que abandonar o cinzentismo, as promessas (não cumpridas) que só servem para embelezar campanhas eleitorais, a falta de princípios (nalguns casos), as frases feitas e por conseguinte bafientas, o desconhecer completamente a aspereza do dia-a-dia das pessoas que vivem lá fora, lá fora na rua, nos transportes públicos, nos espaços que se querem públicos mas que pecam por não serem vivenciados por todos aqueles que têm o futuro deles, e nosso, nas mãos. A bem dizer não estou muito preocupada com o futuro deles, já percebi que se sabem desenrolar muito bem, estou é mais preocupada com os que votam. Neles. Note-se que voltei atrás e não acabei a frase no... votam. É porque ainda há esperança. Penso eu. Esperança para voltar atrás e limar o que precisa de ser limado. 

Agora volto-me para a parte que não interessa a ninguém. A parte em que partilho algumas das minhas coisas. Poucas, porque isto de partilhar tem que ser bem doseado. São apenas situações que tiram de alguma forma um pouco de peso aos dias.

Estava capaz de fazer um bolo de laranja e enviar ao nosso Presidente, como faria a minha avó se aqui estivesse. A minha avó ainda é daquelas avós que usam carrapito muito bem feito no alto do cocuruto e um lenço que tapa discretamente os cabelos que só são soltos à noite sem ninguém ver. É uma avó discreta, nada dada a intrigas, nada dada a meter-se na vida alheia, odeia esse tipo de vizinhança, se for preciso diz-lhes das boas, e faz bolos como uma avó a sério. Ah, e vai à missa ao domingo mas, felizmente, não é aquilo de excessivamente moralista como costumam ser algumas senhoras da sua geração. Tem um pequeno defeito, é um pouco distante, e é aí que entra o meu avô que, infelizmente, já partiu definitivamente, entra para amolecer o coração a uma avó que sabe adocicar bolos mas por vezes se esquece de adocicar a vida. Uma fatia de bolo acabado de sair do forno, um pão também ele acabado de fazer e toda a gente se esquece desse pequeno pormenor.

Acabei a misturar Presidentes da República de quem se gosta, com avós a quem se ama e bolos de laranja que nos sabem pela vida. Afinal isto de viver até que tem momentos inesquecíveis. Inesquecíveis, não fosse o facto de as pessoas não saberem digerir bem as opiniões dos outros. Eu gosto deste Presidente, outros existirão que não gostam, eu respeito quem não gosta, já quem não gosta é perito naquilo de não saber lidar com contrariedades.

10 comentários :

  1. Pela enésima vez digo que Marcelo não foi o meu candidato. Também pela enésima vez digo que me sinto bem com Marcelo na presidência desta República que por vezes parece feita de bananas.
    Gosto dele, do seu estilo, da sua forma de ser e de estar, da maneira como faz política sem que se dê por isso.

    Marcelo tem espalhado, um pouco por todo o lado, uma quase magia. Sabe falar, sabe o que quer e sabe transmitir sem dor.
    Muitas das pessoas que diziam estar Marcelo a falar em excesso, já 'meteram a viola no saco'. Por motivos óbvios. Sobram meia dúzia de jornaleiros que teimam em seguir a voz do dono (leia-se patrão).

    Para conseguir que Marcelo coma algo feito por terceiros, é preciso paciência. O homem é hipocondríaco e tem receio de se meter numa alhada física, mesmo que quem 'lhe dê de comer' o faça com a melhor das intenções.

    A "parte que não interessa a ninguém" é interessante. Por isso, interessa. Poderá não agradar a gregos e a troianos mas é coisa a ter em conta. Quanto mais não seja porque ficámos a saber que a avó fazia bolos muito bons. Avó que terá "um pequeno defeito", mostrando-se "um pouco distante". Tranquilo porque, até determinada altura, o avô punha água na fervura e estava feito.

    Muitas vezes é agradável misturar (bons) presidentes com avós e bolos de laranja. Não vem disso mal ao mundo, bem pelo contrário.

    Outra realidade: a vida tem momentos inesquecíveis. O problema é que nem sempre sejam positivos mas, vendo bem, dos fracos (momentos) não reza a história.

    Deixo-lhe um beijinho porque Maria merece.
    Não me pergunte porquê. É que, de vez em quando, tenho fraco poder de argumentação :)

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    1. Faço copy/paste desta sua parte do comentário porque me parece muito feliz "da maneira como faz política sem que se dê por isso". Talvez seja essa a fórmula mágica de fazer política e, ao mesmo tempo, entrar de alguma forma na cabeça das pessoas levando-as a olhar para a política de outra forma.

      Muita gente ridiculariza aquela parte dos "afectos", eu vejo a coisa de uma forma muito positiva. Num país em que as pessoas não têm em muito boa conta os políticos, em que estão cansadas de discursos que soam sempre ao mesmo, muitos deles inacessíveis para um povo que ainda sofre, e muito, de iliteracia, de um povo desiludido, triste, sem grande conforto no seu dia-a-dia, obviamente que a história dos afectos é importante. Quando falo de afectos refiro-me a alguém que ao desempenhar o cargo de Presidente da República desce do centro do seu mundo e cumprimenta as pessoas de verdade. As pessoas gostam disso, disso de não se tratar de alguém distante, frio, cheio de si. Quando o povo é simples, é obrigatório que os políticos saibam "ler" o povo que têm. Tenho para mim que muitos dos políticos também sofrem de um outro tipo de iliteracia...

      Olhe que este seu comentário está muito bem embalado. Embalagem e conteúdo. Gostei.

      Beijinho para si também.

      PS: Fraco poder de argumentação??? Sim, sim, conte-me histórias :)))

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  2. Ora muito bem!
    Isto - e porque gosto muito de rectas, as curvas enervam-me, levam-me à náusea- isto, dizia eu é assim: gosto, e muito, do Homem, leia-se, Presidente. Ponto.
    Ó, ó! Um Homem que consegue descer à cave da vida e, no momento seguinte atingir o piso mais alto do edifício, que é a dita, só pode fazer a diferença.
    Ficar peloss pisos intermédios é desconhecer o todo, logo, a esses, coitados, nunca chegará uma bela fatia de bolo de laranja e, muito menos, conhecer avós que usam carrapito.

    Posto isto, duas vénias à dona deste espacito: uma pela apreciação presidencial, outra pela sorte de ter uma avó, com ou sem carrapito.

    Continuação de uma boa tarde, Maria.

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    1. A GL é um pouco diferente de mim nisso das rectas e das curvas. Eu enjoo um pouco é nas rectas, dá-me sono, gosto um pouco mais das curvas, obrigam-me a estar sempre atenta, entretanto a paisagem também é melhor. Isto de sermos todos diferentes, e o que é válido para este já não é válido para aquele, é muito mais interessante :)

      Cave não diria, porque isso remeter-nos-ia para um lado todo ele inferior e sombrio. Se calhar é melhor ficar por pisos onde já entra alguma luz. E tem toda a razão, concordo e muito consigo na parte em que "só pode fazer a diferença". Também acho que faz.

      GL, gosto da minha avó, mas sempre fui mais próxima do meu avô, admito. O meu avô na minha vida teve sempre o papel principal. Foi um homem que sempre soube gerir muito bem a dureza e a ternura. A minha mãe foi o meu pilar, a pessoa que me deu as bases para enfrentar a vida. O meu pai foi a pessoa que nunca me deixou cair, embora tivesse primado por alguma ausência. O meu avô... o meu avô foi a pessoa que me salvou, algo que ele nunca vai saber.

      Um resto de dia agradável, GL :)

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  3. Caramba, Maria (as minhas desculpas pelo "caramba"), só gosto de gente - penso que já sabe:) - com gente dentro, abomino envólucros cheios de coisa nenhuma, mas a Maria exagera.

    Que dizer de quem assim escreve afectos, amores, vida vivida?

    Dizer que foi um prazer conhecê-la significa alguma coisa? Para mim, sim, e muito.:)

    Uma boa noite, Maria.

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    1. (caramba, digo eu, GL, assustei-me e não foi pouco com aquilo do "exagera", pensei que podia ter escrito algo no meu comentário anterior que a tivesse deixado zangada comigo, ufa! obrigada pela sua simpatia e tenha também uma boa noite)

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  4. Fizeste aqui um magnífico post com tanta simplicidade que gostei imenso. O que dizer? Olha nem sei bem talvez:

    - Já andava cansada de Marcelo nos debates com a Judite de Sousa que me distraia pelo seu estado e perdia o raciocínio dele
    - Que continua igual a si próprio e acho que é um presidente humilde, perto do povo e que tenha muita saúde para "deixar a poltrona vermelha em bom estado devido ao pouco para quem o vier a suceder". A anterior estava completamente "escavacada":))

    Não aprecio torta de laranja mas posso comparar e dizer que tenho saudades do bolo de água e de rapar o tacho do arroz doce da minha saudosa Maria Rosa. Não me lembro dos meus avós paternos. Recordo com saudade a jinguba (amendoim) que o meu avô materno torrava tão bem. A minha avó não me gramava nem com molho de tomate e quando fazia doces eram dados apenas a alguns dos 29 netos que teve. Não morria de amores por ela e volto ao princípio:

    Parabéns Professor Marcelo de Sousa e continue com discursos simples pois o povo já precisava de alguém entendível como uma lufada de ar fresco. E continua a nadar muito bem, parabéns:)

    Um bom sábado

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    1. Fatyly, enquanto professor Marcelo e enquanto comentador, gostei de assistir ao espaço de comentário até um determinado tempo, entretanto existiu uma altura em que me desinteressei porque algo se estava a perder. Nunca me deu para criticar o facto de ser comentador num canal de tv, muitos o fazem, não percebi o drama. Existem, obviamente, bons e maus comentadores, como noutra área qualquer, cabe às pessoas escolher com os quais se identificam mais. E ainda bem que existe essa diversidade. Penso eu...

      Torta de laranja também não gosto muito, para não dizer, mesmo nada. Gosto é de bolo de laranja caseiro, feito com as laranjas do pomar de laranjeiras que na altura existia em casa dos meus avós. O bolo fica ali entre o ligeiramente húmido e estaladiço, quando se come uma fatia ainda morna, é qualquer coisa de muito bom. A minha mãe herdou esse dom para fazer bolos, também fazia bolo de laranja divinamente. Aliás, a minha mãe era bolo de laranja e bolo de bolacha, ainda não encontrei ninguém que fizesse bolo de bolacha como aquele. Nada seco, embebido em café na medida certa, tudo era feito na medida certa e, "a olho", como se costuma dizer. Já eu sou mais bolos a fazer bolos, gosto mais de cozinhar, doçaria não é o meu forte.

      O bolo de água que a Fatyly refere, não conheço. Um dia destes bem que podia dar a receita lá no seu estaminé. É apenas uma sugestão. Ah, teve uma Maria Rosa na sua vida que fazia arroz doce, isso são coisas muito boas de recordar :)

      Tenha também um bom sábado, Fatyly.

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  5. A escrita da Maria está cada vez mais apurada, e a referência ao bolo da avó aumentou, e de que maneira, a dimensão do texto.
    Gostei muito.

    Tenha um excelente domingo :)

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    1. Obrigada, AC, vindo de quem desse lado sabe, e bem, escrever, estas suas palavras são muito motivadoras. Inspiradoras, até.

      Tenha um óptimo domingo :)

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