segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Ser insensível está na moda

Por vezes dou comigo a pensar que precisamos de levar muita pancada (não no sentido literal do termo), de passar por muitas tristezas que incluem perdas irreparáveis, de nos sabermos equilibrar quando nos puxam o tapete uma e outra vez, de perder tudo sem conseguir ganhar nada durante algum tempo, de sermos atraiçoados e mesmo assim acreditar, não importa em quê, mas acreditar, para se conseguir brincar com assuntos sérios sem roçar o perigo de sermos insensíveis para com os outros. 

Isto, na minha opinião, é ser insensível para com os outros. Humor corrosivo. Não, obrigada 


Tudo isto a propósito do sismo que aconteceu recentemente em Itália e do humor praticado por um jornal que tem todo o direito de se manifestar, ressalve-se o facto de não terem que sofrer nenhum tipo de represálias, no entanto quem não gosta deste tipo específico de humor tem o direito de o demonstrar da forma que melhor o entender. Eu escolho as palavras escritas e um tom baixo. Por vezes é necessário baixar o tom, não em sinal de submissão, mas porque se tem a perfeita noção de que o volume que se pratica neste momento por todo o mundo está demasiado alto.

Cartoon e trecho da notícia pelas mãos do DN:

23 comentários :

  1. Maria, se eu lhe disser que estive perto de 5 minutos a pensar se havia de comentar, acredita?
    Decidi pelo meu melhor. Ou seja, comentar forte e feio mas com contenção verbal. Pelo meio, o facto sempre importante de hoje ser segunda feira ... e tal, sabe como é.

    Esses provocadores do 'Charlie Hebdo' precisam que lhes apertem os calos mais uma vez.
    São nojentos, não têm respeito por nada nem por ninguém, não merecem existir.
    Ao contrário de milhares (milhões?) de pessoas, nunca disse 'Je suis Charlie'. E à medida que o tempo passa, apetece-me gritar 'je déteste charlie'.

    Não me lembro dos 'heróicos' Hebdos terem feito uma capa a satirizar o atentado de que foram vítimas. Serão mesmo satíricos todo o terreno ou apenas com o mal dos outros?

    Poupe-me, Maria, please! Não publique destas ... ui, ia dizer uma asneira ... coisas à segunda feira. Pode ser?

    Um beijinho e boa semana.

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    1. Este não é um tema fácil, tendo em conta também o meu texto, acredito que possa de alguma forma levar as pessoas a não saber o que escrever em forma de comentário. No entanto existe uma linha do texto que dá abertura para que cada um dê a sua opinião livremente, seja em tom baixo, seja num tom menos baixo, esta: "quem não gosta deste tipo específico de humor tem o direito de o demonstrar da forma que melhor o entender". O caro Observador escreveu no tom que achou adequado para o tema em questão. Quem é que o consegue condenar? Eu não.

      Também nunca disse, nem escrevi, "je suis Charlie", isso não quer dizer que aprove o gesto de matar cartoonistas como aconteceu no atentado terrorista de 2015, pese embora o facto dos cartoons (na minha opinião) serem, numa grande maioria, envoltos num tremendo mau gosto. Este cartoon que aqui trouxe é o exemplo disso.

      Não deixa de ser curiosa a parte em que escreve no seu comentário que "Não me lembro dos 'heróicos' Hebdos terem feito uma capa a satirizar o atentado de que foram vítimas. Serão mesmo satíricos todo o terreno ou apenas com o mal dos outros?". Olhe que esta dá mesmo que pensar...

      Tenho para mim que humor, humor daquele mesmo bom, tem como intenção fazer sorrir, rir, eu olho para este cartoon e só consigo lembrar-me que existiu gente que morreu debaixo de escombros. Em que parte é que isso dá para rir???

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      Boa semana para si também, caro Observador. Beijinho.

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    2. Não defendi novo atentado. Limitei-me a dizer "precisam que lhes apertem os calos mais uma vez".

      Em que parte dá para rir? Se encontrar, diga mas duvido que encontre.

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    3. Eu sei, caro Observador, que não disse, mas sabendo o que a casa gasta convém ir com cuidado. Existe gente que lê e gosta de fazer interpretações muito "embrulhadinhas" só para embrulhar os outros.

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    4. "(...)sabendo o que a casa gasta(...)".
      Eh eh eh, convém mesmo ter cuidado.

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  2. Não gosto deste tipo de humor, se é que se pode classificar assim, pessoalmente penso que de humor não tem nada.
    Abraço

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    1. Existem pessoas que são fãs deste tipo de humor, humor ácido, eu também dispenso. Incomoda-me. Se a vida real por vezes já é muito ácida, por que raio vou perpetuar essa acidez na área do humor que se quer descontraída?!

      Abraço, Elvira.

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  3. Olá, Maria :)
    Acho que as pessoas fizeram uma grande confusão com a frase "je suis Charlie"... Agora até já houve gente esganiçada que veio dizer "Bem feita para quem andou a dizer je suis Charlie. Tomem lá!"

    Vamos lá ver uma coisa: pelo menos eu entendi assim. Quem andou a gritar "je suis Charlie" não era necessariamente apreciador do tipo de humor do referido jornal. Mas do que não era certamente apreciador era que o facto de não se gostar do tipo de humor desse direito a entrar por uma redacção a dentro e começar a matar pessoas!!... Eu também não sou apreciadora de humor negro, mas isso não faz com que ache bem que se matem pessoas por o usarem!!! Para isso, deixem de comprar o jornal, não leiam, não divulguem...

    Entretanto, o jornal veio dizer que o que estava ali a ser satifizado não era as mortes das pessoas, mas sim as construções aldrabadas que se fazem em Itália, pois as empresas de construção naquele país estão nas mãos da Máfia e, como tal aquilo é ao estilo "três de areia, um terço de areal e outro tanto do mesmo material"... Faz sentido, embora não deixe de ser humor negro.. Mas o humor negro é mesmo assim. É uma publicação legal. Quem não gostar, não compre, não leia, manifeste o seu desagrado. Mas não desate a matar pessoas. Foi assim que entendi e continuo a entender a frase "je suis Charlie"

    Um Abraço e boa semana :)

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    1. Olá São,

      Olhe, nem sequer me vou meter neste seu comentário de tão bom que está.

      E sim, também li essa explicação por parte do jornal. Não a comprei, tal como nunca compraria o jornal. Até podem ter razão, mas nada justifica o mau gosto que transpira neste cartoon. Não se brinca com a morte de pessoas que perderam a vida em tamanha agonia. E é isto.

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      Abraço, São. Boa semana :)

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    2. Eu não comprei nem deixei de comprar... É possível que as construções tenham sido o alvo... O humor negro, por muito estúpido que seja, normalmente tem um alvo... Eu recordo-me, há uns tempos, quando, DO NADA, se lembraram de retomar as buscas da Maddie, um dia apareceu no Facebook uma fotografia, em que um homem levantava uma daquelas tampas redondas do saneamento básico e gritava lá para baixo "Maddie, estás aí???"... Muita gente disse que era estúpido estarem a gozar com uma história tão triste, etc... Mas na verdade, o que estava ali a ser satirizado, ridicularizado, não era o desaparecimento da menina, mas sim o ridículo de terem retomado as buscas, de repente, sem haver nenhuma pista, nenhum facto novo, nenhum indício... Era isso que estava a ser gozado... O humor negro é assim... Mas foi só um aparte... Seja como for, matar pessoas, NUNCA!

      Abraço :)

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    3. São, acho que no principal estamos totalmente de acordo. Matar pessoas, nunca.

      Gostar ou não gostar de humor ácido, é outra história, as pessoas são livres de gostar do que bem entendem. Até que gostaria que alguém comentasse e dissesse que gosta deste tipo de humor, deste cartoon, só naquela de eu entender o que me está a escapar nesta coisa que tem o propósito de nos fazer rir.

      Isso da Maddie, parece-me tremendamente estúpido, ou então sou eu que não sou suficientemente inteligente para perceber determinadas coisas.

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    4. Mas eu já tentei explicar o humor negro, Maria, ou melhor dizendo, a minha visão dele. Também não sou apreciadora, mas volta e meia há uma ou outra piada que me faz rir, ou que, pelo menos, acho pertinente, o que me faz pensar que outras pessoas acharão outras pertinentes... O que acho é que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, o humor negro tem sempre uma base, um alvo, um alicerce, não se fazem essas piadas negras (ou ácidas) só porque sim... Eu quando um amigo me disse que o Charlie Hebdo tinha feito um cartaz a gozar com a tragédia em Itália, eu pensei que fosse piada por Itália ser, a bem dizer, a sede da Igreja Católica Romana, o Papa vive lá... Eu às vezes vejo ironias quando, cá em Portugal, acontecem acidentes a caminho de Fátima.... Naquela ideia de "Então de que vos valeu a fé"... Não me lembrei das construções "aldrabadas" ... Depois é que ouvi essa explicação. Se faz sentido? Faz. Eu acho que faz, embora também não seja apreciadora de humor negro, ácido... Mas percebo os alvos, normalmente...

      Maria, completamente estúpido foi a humilhação por que a nossa Política Judiciária passou, quando a polícia britânica veio para cá pôr e dispor e controlar tudo. Só nós, portugueses, para permitimos uma humilhação dessas. Eles não vieram ajudar, nem colaborar, eles vieram controlar tudo e por a nossa PJ fora de acção, porque eles é que sabiam, eles é que eram os espertos, eles é que tinham os meios. Não contentes com isso, ainda foram, para deixar claro que quem mandava eram eles, retomar as buscas, tempos mais tarde, só porque sim, para passar um atestado de estupidez à nossa polícia. É do conhecimento geral e senso comum que nestes casos, só são retomadas as buscas quando surgem factos novos, novas pistas, novos indícios. Foi ridícula, portanto, a acção deles e tinha que ser exposta ao ridículo. Não era o desaparecimento Maddie que era o alvo desse cartaz. Já toda a gente sabia que ela tinha desaparecido. O que estava ali a ser ridicularizado era a ridícula retoma das buscas, só por arrogância e sobranceria.

      Por falar em britânicos, se há tipo de humor a que eu não acho piada nenhuma, NEM SEQUER ENTENDO, é o humor britânico. E não me considero burra... Acho que as pessoas têm certas predisposição para determinadas formas de humor e outras não...

      :)

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    5. São, mal seria se o humor ácido fosse feito só porque sim. Acho, inclusive, que por detrás destes cartoons estão pessoas inteligentes. Diria que só pessoas inteligentes e com um grau de cultura acima da média conseguem ser bons humoristas. Cansam-me os humoristas (os que fazem disso uma profissão) básicos.

      O que quis passar com este texto é a insensibilidade, a frieza, com que se brinca com a dor dos outros, essa parte desagrada-me sobremaneira. Neste caso as feridas ainda estão muito abertas. O sismo aconteceu há muito pouco tempo.

      No caso de Maddie, se estamos em Portugal a nossa polícia judiciária é que tinha que se impor. Digo eu que não percebo nada disto... O que digo é quando deixamos que os outros ditem regras na nossa própria casa, não seremos grandes "donos de casa", e se não o somos, se aguentamos que nos ponham o pé em cima, que ponham e disponham, aí é aguentar e não reclamar. Eu vejo a vida assim, vai na volta está errada mas é o que se arranja.

      ...

      Gostei bastante do "Allo Allo". Outras séries britânicas existem, séries essas a que acho piada. Acho piada ao humor rebuscado, aquele que não é de fácil entendimento logo à primeira àquele que nos obriga a pensar, ainda que por vezes a malta pense pense e não consiga alcançar :)))

      (não quer dizer que não ache piada ao humor simples que nos rouba uma gargalhada rápida, só não gosto de humor básico)

      Não, a São não é burra, antes pelo contrário, é uma senhora muito inteligente e, olhe, que por norma digo o que penso, não sou muito dada a bajulações. Se gosto não tenho qualquer problema em dizer na cara da pessoa que gostei e porquê, elogio. Se não gostei de algo, procedo da mesma forma, digo na cara. Nasci com um fusível avariado, é bem verdade. Lá está, existe gente que só sabe apontar quando não gosta, eu acho que para existir equilíbrio temos que saber gerir bem ambas as situações.

      :)

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    6. Vamos ver se consigo sintetizar:)

      Óbvio que a PJ foi culpada e tinha se sujeitar, já que, por hospitalidade, por não perceber de inicio que vinham comandar e não ajudar, ou lá pelo que fosse, deixou tomar as rédeas. Mas isso não significa que a população fosse obrigada a concordar com essa tolerância por parte da PJ... Ouvi muitas pessoas dizer "Mas alguma vez, se eu fosse alguém com poder dentro da PJ, eu deixava que viesse polícia do estrangeiro desautorizar-me no meu país??? " e pronto, o tal cartaz foi feito por algum humorista, um popular, não pela PJ... Foi ridículo a forma como se vieram impor, armados em importantes...

      Mas eu também gosto de humor rebuscado. Não é por ser rebuscado que não gosto do British... E há humor rebuscado sem o tom British...

      O Charlie Hebdo pode não valer nada, mas em Portugal temos um excelente suplemento satírico, com um tipo de humor muito mais branco e engraçado... Em 13 a anos nunca teve um processo em tribunal e, quanto a reclamações... Muito poucas :)... Para uma publicação humorística, é obra... Talvez porque não é medíocre e sabe até onde pode ir... Esse vale bem a pena ler! Os colaboradores são fantásticos, e o director.... É TOP!!! :D

      Ai, Maria, "uma senhora"? Eu?? Si, senhora imagino uma mulher assim já para os 70s...e mesmo assim é sempre mulher :)

      Abraço :)

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    7. São, por vezes ser senhora nada tem a ver com a idade. Pode-se ser senhora aos 30 anos e não o ser aos oitenta... Muitas pessoas, principalmente as de mais idade, continuam a tratar-me por "menina", acho que para elas vou ser menina até aos 90 anos (se lá chegar) :))
      ...
      E que suplemento satírico é esse?

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    8. (obrigada, São, pela sua resposta à minha pergunta em relação ao supl.satírico, conforme seu pedido não vou publicar a resposta por aqui)

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  4. Humor, isto? Dignidade, procura-se!

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    1. Dignidade é "coisa" em vias de extinção. Não se usa. Uma pessoa quase que sente vergonha quando usa a palavra dignidade.

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  5. Na minha modesta opinião deverá haver sempre liberdade de expressão. Não gosto nada, mesmo nada deste tipo de humor mas respeito quem goste. No entanto aquando do atentado condenei como condeno qualquer atentado mas acho que estamos a atravessar uma era "do vale tudo" onde uma geração mostra que perderam três pilares essenciais: educação, dignidade e respeito pelo seu semelhante.

    Como sou pouco (para não dizer nada) dada a "manadas", penso por mim e não pela cabeça dos outros, não perco mais tempo com este tema, o meu maior respeito vai sempre para quem mais sofre porque, porque...sempre fui, sou e serei...suis Fatyly!!!

    Um bom dia

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    1. Eu não sei se respeito quem gosta, Fatyly, (por vezes a minha capacidade de respeitar não é assim tão boa, defeito meu evidentemente, lá está a minha faceta do não ser politicamente correcta), acho é que nos gostos dos outros não nos devemos meter, opinar é normal, mas é deixar andar, exactamente da mesma forma que gostamos que nos deixem "andar" nos nossos gostos. Admito que o que eu queria mesmo era entender o porquê de gostar deste tipo de cartoon. Apenas isso.

      Perdoe-me, Fatyly, tenho que discordar um pouquinho consigo, penso que não se trata de uma só geração, mas a mistura de várias gerações. Talvez esse seja o verdadeiro perigo.

      Tenha também um bom dia.

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  6. Desculpe voltar a isto, Maria, mas lembrei-me de uma coisa... Não sei se está na moda... Este tipo de humor negro /ácido sempre existiu... O Charlie Hebdo apenas o usa a nível profissional, e com um propósito.... Neste dia, há 15 anos atrás, eu trabalhava no Continente de Faro... Portugal estava nos anos de preparação para o Euro 2004...Nos dias que se seguiram a este, lembro-me de ouvir os meus colegas fazerem estas piadas "Sabiam que o Benfica agora vai contratar o Bin Laden? É para mandar o estádio abaixo!", outra era "Aquele gajo deve ser bom a jogar xadrez. Já comeu duas torres!!!"... Eu, se calhar, também me ri... Só para dizer que não está na moda, sempre foi assim...

    Bom resto de Domingo :)

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    1. São situações completamente diferentes, São (isto na minha opinião) uma piada que se diz numa mesa de café, não terá a mesma dimensão, o mesmo propósito, que um jornal Charlie Hebdo. Podem até ter como base algum mau gosto, algum tipo de crueldade, mas os "estragos", digamos assim, serão sempre outros.

      Bom domingo para si também :)

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