terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pretendo concentrar-me naquilo dos jornalistas que gostam muito de perguntar às pessoas: "o que é que está a sentir?"...

... quando a pessoa que é questionada nos seus "sentires", está ali em frente ao jornalista completamente à deriva, desanimada, lágrimas a escorrer pelo rosto, voz tremida e insegura, olhar assustado e que denota um medo absurdo do futuro que agora se revela incerto. Ainda mais incerto.

Isto num contexto de incêndio em que muita gente perde tudo. Inundações. Funerais. Perdas, sejam elas quais forem. Ou seja, fases da vida em que tudo o que alguém quer é não ter um microfone apontado em modo inquisidor com uma pergunta atirada ao rosto das pessoas de uma forma que revela muito pouco tacto. Pouco? Corrigindo-me: nenhum. Nenhum tacto.

Talvez o problema não seja de determinados jornalistas (eu, que até gosto muito de uns e admiro muito, outros), talvez o problema se centre exactamente naquele ponto em que trocámos o verbo olhar pelo verbo ver. Vemos muito e olhamos muito pouco. Não há tempo para olhar. Vemos a família, mas não a olhamos. Vemos os filhos, mas não os olhamos. Vemos o marido/mulher, mas, na verdade, muito pouco os olhamos. Alguns dirão que olhar e ver são sinónimos. Eu cá sou teimosa e aposto que não são. Até aos amigos dizemos: vemo-nos por aí... Espero que também dê para os escutar... por aí. É que escutar é diferente de ouvir. Vai na volta também são sinónimos. Raio de dicionários que também já deram para nos enganar...

Se calhar aquela pergunta que, na minha opinião (e que me perdoem os jornalistas que muito a usam) é um pouco sem sentido, aquela do "o que é que está a sentir?", quando ali a frente deles estão pessoas em modo farrapo humano, devesse ser substituída por uma outra que não soasse tanto a esgravatar. Esgravatar não me cheira lá muito bem.

(Só em nota de rodapé, alguns jornalistas tratam as pessoas de muita idade com aquilo do: "ó senhor Vicente, você...". Mau! Ou é senhor ou é você. Nunca é você. Você é muito mau.)

Já fui. Acho que vai trovejar e não sei quê, deixa-me ir a correr apanhar a roupa antes que me molhe.

4 comentários :

  1. Já apanhou a roupa? Óptimo, chega mesmo a tempo de ler o meu comentário, pronto a entrar em cena.

    Muitos, muitos, muitos jornalistas fazem questão de não ver o que se passa em seu redor e à volta das outras pessoas, aqui designadas por coitadas. Olham, apenas, e caçam as pobres coitadas vítimas à má fila.
    Coitadas das pessoas a quem, sem fazerem mal a ninguém, surge um jornaleiro, perdão, um jornalista, a fazer perguntas tolas, sem nexo. Coitadas das pessoas que vivem num país onde a ética jornalística já era e o código deontológico é um cardápio cheio de pó, entalado entre livros do Tom & Jerry na prateleira das coisas que passaram à história.

    Não vamos perder (seria perder?) tempo com essa coisa dos sinónimos. Uns serão, outros assim assim, outros ainda, nem pouco mais ou menos. Pois adiante que se faz tarde.

    Tudo, ou quase tudo, se resume à incapacidade profissional de certas pessoas a quem presunçosamente chamam de jornalistas. Mal formados, mal ensinados, que nem sequer passaram pelo CENJOR e, a troco de meia dúzia de tostões, vendem a alma ao diabo.
    'Olhe ó faxavor, sou jornalista e venho perguntar-lhe como vê a minha profissão'. As coitadas das pessoas ficam a olhar para o espécime que têm em frente - alguns apresentam-se de lado - sem saber o que dizer. Na melhor das hipóteses, gaguejam. E os presunçosos, de gravador em punho, registam ... nada. Ficam, no limite, aborrecidos por não terem conseguido ver a coisa. Bem, talvez fiquem só um bocadinho aborrecidos porque conseguiram olhar para as coitadas das pessoas.

    Pronto, já criei um cenário digno de um polícia ... (?) ... Pulitzer, assim é que é.
    Jornalistas? Maria falou em jornalistas? Vai ter que voltar ao assunto daqui a alguns anos, quando os patronatos perceberem que os seus trabalhadores não são objectos e, para terem um mínimo de dignidade, têm que ter mais e melhor formação e, já agora, receber mais uns tostões (converter na moeda corrente).
    Até lá, sugiro que absorva o cheiro de limões e vá bebendo chá de camomila. Ficará com uma dose considerável de calma e até nem se importará com os noticiários, as notícias e os jornalistas que o não são.

    Continuação de uma boa tarde para você, Dona Maria (o chamado fim em beleza) :)))

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    1. É impressão minha ou isto de explorar os sentimentos das pessoas quando elas estão para ali muito vulneráveis, não é lá muito bonito? Pergunto eu que não percebo muito bem disto de ser jornalista. Uma coisa são as entrevistas de Daniel Oliveira do "o que dizem os teus olhos", aí tudo é permitido, as entrevistas encaixam-se na área do entretenimento, outra bem diferente é fazer perguntas a pessoas que se encontram ali, naquele exacto momento, a sofrer. Não é entretenimento, é vida real, e a vida real quando ainda decorre no presente, faz mossa. Faz-me muita confusão estas coisas, mas eu, já se sabe, sou muito estranha.

      Entretanto isto de tratar pessoas de muito idade por você, é... estranho. Tratando-se de jornalistas a coisa não corre nada bem. Jornalistas têm que dar o exemplo, penso eu, mas que sei... Arriscaria ir um pouco mais longe e diria que jornalistas e apresentadores de tv deveriam falar num português o mais correcto possível. Existem muitos olhos postos neles, muita gente a ouvir, muita gente a repetir o que ouve através da tv. Bom, esta é a minha opinião, vale o que vale, já se sabe que hoje em dia dar a nossa opinião, sendo ela o mais honesta possível, é sempre mal vista. Querem-nos caladitos e sossegaditos, é o que é.
      ...
      Obrigada pelo seu comentário, penso que vale a pena lê-lo atentamente. Eu li, duas vezes.

      Tenha uma boa noite, ca.. (nããã) Observador (eheheheh)

      PS. Não consegui ler a sua última linha do comentário, entretanto fiquei sem luz, ó que pena :))))

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  2. Subscrevo inteiramente o que dizes e quando me deparo com perguntas dessas, oxalá que nunca ocorra comigo, mas de certeza que faria o mesmo gesto de CR7, pegava no micro e atirava com ele para bem longe ou não sei não, à câmara.

    É em velórios, é no meio das chamas, é na desgraça dos terramotos e lamento que muitas audiências sejam pautadas por jornalistas obrigados, sim obrigados a fazer este tipo de perguntas ou entrevistas que para além de pouca formação são tão mal pagos, o que de todo não impede que poderiam fazer de outra forma...a tal inovação que tanta falta a uma geração já por si tão perdida.

    Juntar o Senhor a Você soa-me tão mal e nem sei o que dizer.

    Também quem apresenta os telejornais, pelo menos dois...deveriam dar lugar a outros bem melhores.

    Uma boa tarde

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    1. Fatyly, estas pessoas a quem se faz este género de pergunta, normalmente são pessoas humildes, pessoas que se encontram naquele dado momento muito fragilizadas, acho que não têm capacidade de reagir seja de que forma for. Por isso é que acho que existe um certo aproveitamento por parte de alguns jornalistas. Uma enorme insensibilidade. Mas que sei eu de ser jornalista, vai na volta é mesmo assim que se procede...

      Não generalizei neste meu texto, existem realmente jornalistas de quem gosto bastante, este gostar bastante tem a ver com profissionalismo. Em alguns casos existe uma certa empatia.

      :)

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