segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O jogo do "quem não deve, não teme"

Esta é daquelas expressões que nos pode atirar ao tapete com muita facilidade, mesmo que a malta não tenha nada a temer, mas teme. Teme, porque a expressão está impregnada de algo que nos remete para o: deixa cá ver ver se alguma vez chamei a vizinha de oitenta anos, de desocupada, só porque passava o tempo todo a controlar a minha vida. É só esperar cerca de sessenta segundos e alguém irá dizer que sou uma insensível porque as pessoas com aquela idade sofrem de solidão e têm o direito de infernizar, controlar, a vida de outros para colmatar essa mesma solidão.  E uma pessoa encolhe-se e acha que foi muito injusta. A solidão deve doer muito. Calo-me. Encolho-me, novamente. Não devo calar-me, mas temo falar.

(este texto parece que fala de senhoras de idade muito avançada que têm uma faceta oculta muito bem disfarçada, parece que fala de solidão, mas, se se levantar um pouco o véu ao texto talvez dê para perceber que a coisa é um pouquinho mais ao lado).

8 comentários :

  1. Fizeste-me sorrir e alguma vez a cusquice tem idade? Pior, muito pior são aquelas e aqueles que em plena rua e com boas pernas para andar, tentam saber muito de ou sobre nós e aí dá-me um gozo danado informá-los...desinformando-os e comigo é trigo limpo:)))

    Há muita gente octagenária que, não se podendo locomover a sua distracção é estar à janela e claro que decoram os passos que dão, que aquela vai com um vestido XPTO a outra vai de avental, que o X passa a vida de volta do carro...e como ninguém ou quase ninguém a visita, não consegue trocar ideias! É uma forma de queimar "horas" mas daí infernizarem a vida dos outros vai uma longa distância.

    Em ambos os casos pode haver e ou sentirem "solidão" sem direito a infernizar a vida dos outros e digo-te Maria que não há pior solidão que aquela que sentimos mesmo em e com companhia. Sei a cor dela e dói muito!

    Que falem de mim, que cusquem, que digam mal...que.. que...é sinal que estou vivinha da costa porque no dia em que estiver entre quatro tábuas a caminho do crematório...aí é ver o bailinho mais cusqueiro e falso de flores, velinhas e era tão boa senhora!!!!

    "Quem não deve não teme" é verdade, mas olha que por estes dias sem dever nada "temo" que a minha mãe não se conforme com a volta que a vida deu e que em vez de se entender com o Senhor do último andar, aquele lá acima das nuvens (julgo eu), diz-me coisas que nem te passa pela cabeça.

    De resto...tudo ok e siga a banda que atrás vem a ciranda:))))

    Vou dar uma volta a pé a ver se encontro uma cusca, melhor um cusco, não uma cusca que dão mais luta:))))) e o sol estar tão apelativo:)

    Não sei se me fiz entender, mas temos que desligar o "complicódromo da vida" (existe este nome?) à não? Olha bota outro hehehehe

    Beijo

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    1. Fatyly, este texto tem dois caminhos e eu, neste caso, como simples consumidora de letras de quem comenta desse lado, vou limitar-me a seguir o caminho escolhido. O seu foi este e é este que seguirei.

      O tema solidão associado a pessoas de idade muito avançada não tem como passar indiferente. Pesa numa sociedade que se quer moderna, e se as pessoas se recusam, ou não conseguem, esse modernizar-se são como que chutadas para um canto. Não pode e não deve acontecer. Até aqui estamos todos de acordo, penso eu.

      Só que (existe por vezes uns "só que" que nos desarmam), a coisa por vezes não é assim tão simples como parece, este tema é tabu, não se pode falar com todas as letras do tema velhice, não se pode separar águas, ou seja, pessoas de idade que merecem todo o nosso respeito porque agem em conformidade, e pessoas de idade que são muito perversas, que faltam ao respeito aos mais novos de uma forma que choca, que se escudam na tal parte que sabem vai desmoralizar os outros. Deste lado ninguém fala porque parece mal. Quem falar pode ser atacado de forma violenta. É o tal politicamente correcto que impera neste país e não nos deixa limar arestas, quando limar arestas é fundamental para se respirar melhor. Isto, segundo o meu ponto de vista.

      Escreveu no seu comentário algo que me parece das mais absolutas e cruéis realidades. Isto: "não há pior solidão que aquela que sentimos mesmo em e com companhia". Acredito que saiba do que fala. Não tenho como não acreditar, porque a sua forma de escrever sabe a terra, isto quer dizer que a acho genuína. Gosto muito dessa sua forma de estar na vida.

      Beijinho para si e outro para a sua mãe :)

      PS: "o Senhor do último andar" é uma expressão que dá muito que pensar, vai na volta está no primeiro andar, o "andar" mais perto de todos nós...

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  2. Conterá (de conter) este texto alguma rasteira, daquelas que nos levam a pensar numa coisa diferente do que se propõe?

    A solidão não tem idade. Pode aparecer em qualquer altura da vida. Teoricamente, é aos mais idosos que causa maior mossa. Só teoricamente pois na realidade não é assim.


    Devo dizer que fiz um enorme esforço para levantar o véu ao texto mas não foi conclusivo.
    Já passei dos 20 anos e, por isso, começa a ser difícil não só levantar véus aos textos como perceber o que significa esta expressão. Não é isso que me preocupa mas fico fulo quando não percebo o que quer que seja, embora devesse estar habituado dado o enorme número de situações que nos são oferecidas de bandeja pelos políticos, pelos jornalistas, pelos economistas e outras coisas assim.

    Atenção que vai saír a frase mais importante da semana que 'inda' agora começou! Que é: há muita gente que falseia, até nos idosos. Frase concluída com êxito.
    Que me perdoem os que são idosos reais e realistas mas para esses tenho uma coisa que lhes ofereço: parte do meu coração.

    PS sobre um PS que vi numa resposta de Maria à Senhora Dona 'TIR': "O Senhor do último andar" começou a ter vertigens e, por isso, resolveu mudar-se para bem perto daqueles que o queiram aceitar.

    Beijinho, Maria, boa semana.

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    1. Não tem qualquer tipo de rasteira. Rasteira no sentido de derrubar, enganar alguém. Não sou pessoa de rasteiras, o que gosto é de provocar um pouco as pessoas. Um provocar que não visa causar mal estar, mas puxar pela imaginação, pelo poder de encaixe. Foi o caso deste texto, ouvi o nosso Primeiro Ministro em funções, dizer, a propósito do tal novo imposto que, "quem não deve, não teme" e vai daí que me deu o mote para eu me pôr a dizer coisas, coisas como: imagine, senhor Primeiro Ministro, que muitos casais sempre pagaram as prestações das suas casas, dos seus carros, das escolas dos filhos e por aí fora, vai que ficaram os dois sem os seus respectivos empregos, portanto agora devem, e devem muito, a única coisa neste caso que temem é que os chamem de caloteiros quando estão muito longe de o ser. Se calhar a frase do senhor Primeiro Ministro foi dita noutro contexto, é o mais certo, mas apeteceu-me ir por aqui... E tanto fui que acabei a derrapar no tema da velhice de gente boa e da velhice de gente perversa, da solidão que para uns é boa e para outros nem por isso.

      Eu, Maria perguntadora, pergunto:
      Será que se nos prepararmos e aceitarmos que um dia todos seremos pessoas com muita idade, estaremos mais bem preparados para não deixar entrar a solidão? Saberemos lidar com ela? Eu, por mim, não quero que me tratem como se tivesse cinco anos, com aquela linguagem com que se fala aos bebés, é que uma pessoa pode envelhecer mas não perde a sua dignidade, digo eu... E também não quero que me levem lá para casa deles, me sentem em frente à tv, passem por mim e nem sequer me olhem, me deixem ali a fazer de conta que não me abandonaram só porque me levaram lá para a casa que é deles. E é isto.

      Beijinho para si também. Boa semana :)

      PS: Gostei do seu PS.

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  3. Maria, os políticos têm por hábito recorrer a expressões populares como o "quem não deve, não teme", mas a verdade é que se todos temos telhados de vidro, a classe política terá mais ainda. Essa e a do "caçar pokémons", dirigida a Passos Coelho que também não ficou lá muito bem ao nosso Primeiro Ministro. Apesar de muitos não acharem, considero a expressão ambígua. Quem não deve pode, sim, temer. Mas o quê? A injustiça, a incompreensão e, ligando, ao segundo ponto do post, a própria solidão.
    Qualquer pessoa pode sentir-se só. A idade é relativa nestas coisas. Pode ser a vizinha do prédio que tenha 90 anos ou o rapaz do segundo esquerdo que conte 20 primaveras e passe a vida a jogar jogos de consola. A solidão é das coisas que uma pessoa pode temer. É um sentimento assustador de que nos devemos afastar.

    Belo post, Maria!
    Beijinho para esse lado!

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    1. Sei disso, Carpe, disso de os políticos recorrerem a expressões populares, só que, neste caso, o político é o Primeiro Ministro, o chefe do Governo, portanto espera-se um pouco mais, espera-se que não use expressões que podem levar as pessoas a pensar que se não concordam com alguma medida, é porque têm algo a esconder. Isto é extremamente perigoso, penso eu. Perigoso e de alguma forma parece que condiciona.

      Também eu acho que quem não deve pode, sim, temer.
      ...

      Passando à segunda parte do texto, a solidão, a idade pode ser relativa mas continuo a acreditar que quando somos mais novos temos outras defesas que a passagem dos anos acaba por retirar. Começa logo pela saúde. De seguida passa por vivermos numa sociedade que nos diz que se as pessoas não forem jovens, frescas, magras e muito, muito, mas mesmo muito divertidas, não prestam grande coisa. Entretanto a passagem dos anos acaba por levar de forma definitiva gente que as pessoas muito amam, ficam mais sós. Mais vulneráveis. Daí achar que a solidão na velhice pode fazer verdadeiros estragos, enquanto que em idades mais tenras podem ser de alguma forma contornados. Ou pelo menos o tempo joga a favor... (isto é só a minha opinião, aquela que vale o que vale).

      Beijinho, Carpe, e obrigada pela simpatia da penúltima e última parte do comentário :)

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  4. No fundo, a política baseia-se em saber passar determinada mensagem, independentemente da sua qualidade. O emissor, é óbvio, tem que possuir competências adequadas. O problema surge, e de que maneira, quando o receptor tem um mínimo de lucidez.
    (A propósito, a atentar na qualidade da comunicação política em Portugal, transversal a todos os partidos, por onde raio se sumiu a lucidez dos portugueses? Ou é assim coisa tão rara, própria de minorias?)

    Tenha uma excelente noite, Maria :)

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    1. Acho que vivemos neste momento num mundo em que quer o emissor quer o receptor não se entendem. Ainda que eu ache que o emissor tem sempre maior responsabilidade. Pelo menos neste caso da expressão que trouxe à baila neste texto. A expressão usada pelo Primeiro Ministro pareceu-me muito infeliz.

      Tenha um óptimo dia, AC :)

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