quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Isto de ser filha única sempre foi (e continua a ser) uma grandessíssima chatice

Lembro-me de ser miúda e passar a vida a azucrinar a paciência aos meus pais que queria porque queria ter um irmão ou irmã. Pensava eu que aquilo era género uma encomenda. Uma pessoa-criança (eu, portanto) escrevia na encomenda quais as características que pretendia para o futuro irmão ou irmã, colocava na caixa do correio (os meus pais, portanto) e não tardava a campainha, o mais tardar na semana seguinte, iria brindar-me com um suave dling-dlong e, catrapumba, entrava-me um irmão ou irmã pela casa adentro para eu brincar lá ao lego e aos jogos com muitos cubos coloridos. 

Convinha também que já viesse enxertado com aquilo de saber ler, porque não tendo eu essa faculdade de já saber ler, queria que alguém me lesse a história do gato das botas. Sim, ao contrário das outras meninas nunca me fascinou a bela adormecida ou a Cinderela, eu gostava era mesmo das botas do gato. E das aventuras do gato que estava dentro das botas. 

O raio é que a caixa do correio (os meus pais, portanto) deveria estar em greve na parte de me oferecerem um irmão e aquilo chateava-me bastante. Por vezes levanta-me de manhãzinha muito cedo, lá ia eu pé ante pé, colocava os cotovelos na beira da cama dos meus pais e ficava ali à espera que acordassem só para perguntar se... ainda demorava muito. Uma pergunta destas ainda mal alguém tem o raciocínio arranjado, quando ainda o olho aberto da direita está à espera que o olho fechado da esquerda, acorde, é muito violento. Queria lá eu saber que aquilo cheirasse a violento, eu queria era mesmo um irmão, precisava urgentemente de brincar, de ter alguém com quem barafustar... Barafustar com os meus pais podia dar raia, não queria esse tipo de problema para o meu lado. 

A única maneira de terminar este texto é dizer que tive que aprender a ler muito rapidamente, percebi que para ler a história do gato das botas não podia contar com ninguém. Só comigo. Ainda hoje penso assim. Mudei foi de história.

Para mim era mais fascinante este ar do gato, 
do que o ar delicó-doce das belas que eram sempre adormecidas.
Parece que ainda hoje o são...

13 comentários :

  1. Isto hoje vem embrulhado em cetim. Entenda-se por 'isto', o texto e por 'cetim' aquela coisa muito fofinha.
    À medida que lia o texto, senti-me como uma criança quando lhe fazem algo que a deixa embevecido.
    Afinal, Maria tem arte, também, para escrever coisas bonitas. Não quero dizer com isto que Maria escreva coisas feias, nada disso. Refiro-me àqueles textos em que por uma ou outra razão, resolve desancar em algo ou alguém. Adiante.

    Aqui, neste seu texto, nem sequer é o Gato das Botas que fascina. É algo que não sei definir. O resultado de uma quase história que mesmo pequenina, ajuda a definir a pessoa que a escreve. Não estou a ver Maria a plagiar. Antes, vejo Maria a regressar temporariamente à meninice e a mostrar quão sensível é.

    Mudou a história? Quem de nós não o faz? Por opção ou por necessidade sim, quem não o faz?

    Por vezes, Maria delicia-nos com o seu 'ar de criança'. Esta é uma delas.
    Grato fico por esta delícia de história.
    Se normalmente lhe deixaria um beijinho, hoje deixo dois. Porque merece.

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    1. Grata fico eu por ler este seu comentário. Comentário muito simpático. Obrigada.
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      Plagiar não faz parte do meu ADN. Nunca fez e nunca fará. Ou caminho por este mundo com alguma verticalidade, ou não vale a pena, sequer, pôr um pé à frente de outro e chamar a isto de viver. Portanto, tudo o que escrevo, seja comestível ou nem por isso, é meu.

      Quando me dá para "desancar" em algo ou alguém, isso quer dizer que o blog acaba por ser um reflexo de mim, o mundo não é todo ele muito bonito, nem muitas das pessoas que por cá moram o são, sendo assim o meu olhar por vezes cai em pessoas e coisas que me desagradam sobremaneira, vai dai, escrevo, tenha esse gesto as consequências que tiver. Todos sabemos que gente frontal nem é lá muito "querida" dos demais. Já vivo com esse facto há muito tempo. Habituei-me e cada vez faz menos estragos em mim. A intenção também não é fazer estragos nos outros, o problema é que não sei ser hipócrita. Apenas isso. Neste mundo quem não sabe ser hipócrita está literalmente lixado. Penso ser literalmente, mas não tenho bem a certeza...

      Beijinho e tenha um resto de bom dia :)

      PS: Quando digo que não gosto de ser filha única, as pessoas costumam dizer-me que um dia vou gostar muito de o ser. Acho que não me apetece perceber o que quererão dizer com isto.

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    2. O meu comentário não teve a pretensão de ser simpático. Quis sim demonstrar que sou frontal e, sobretudo, tenho sentimentos.
      Já disse por aí, nesta blogosfera ainda por classificar, que não faço fretes a ninguém. O que penso digo/escrevo.

      O blogue acaba por ser um reflexo de si? É assim com todos os que usam esta ferramenta - ui que termo chique - de forma sincera, honesta. Se esse 'todos' constitui uma maioria ou uma minoria ... não sei responder mas desconfio ;)

      Também sou filho único e várias vezes me tenho sentido mal por o ser.

      Nota de interesses: não disse, nem sugeri, que Maria era plagiadora. Pelo contrário. Se leu bem o que escrevi chega a essa conclusão.

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    3. (mas ser simpático não tem nada de mal, acho que até reduz drasticamente os níveis de colesterol, eu gosto de pessoas simpáticas, colesteróis à parte :))

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    4. Pois não, não tem nada de mal. Já que reduza os níveis do colesterol, tenho dúvidas.
      Mesmo que fosse verdade, qual seria o comportamento da indústria farmacêutica?
      Também gosto (muito) de pessoas simpáticas mas, por vezes, quem vê caras não vê corações (caramba, isto não era para dizer!)

      Nora muitíssimo importante: não confundir pessoas simpáticas com pessoas apáticas :)

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    5. (a simpatia, quando genuína, é coisa que, tal como o algodão, não engana).

      Reduzir os níveis de colesterol era uma... chalaça, como diria o outro que agora não me lembra. Tem faltado aos treinos que apostam no sentido de humor, é? :))))

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    6. Não falto a um treino. Que era "chalaça" percebi de imediato.
      Tenho sim que me redimir das noras. Explico: escrevi "nora muito importante (...)".
      Lamento mas a nora tem que saltar fora. Substitua-se de imediato por nota.

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  2. Que delícia de texto e fizeste-me sentir de novo criança. Tiro-te o meu chapéu não do "gato das botas que sempre detestei" mas de histórias que povoaram a minha infância: a do Zorro e a do Robin dos Bosques, já para não falar do Tarzan.

    Cinderelas e princesas era mais da minha irmã mais velha e da mais nova.


    Acredito piamente que ser filha única é uma chatice, mas acredita que ao longo da minha vida e mais actualmente, ter irmãos é como se não os tivesse porque na hora certa nunca há uma palavra de força, de carinho, de...de...mas eles sempre tiveram e têm da minha parte. Ainda assim consigo reunir as tropas e aí de quem faça "xixi fora do piiinicooo":)))(desculpa)...portanto é igualmente uma chatice:))))

    Não gostei...ADOREI ESTE TEU LADO DOCE!

    Aquele abraço e se quiseres adopta-me como irmã hehehehehehe

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    1. Fatyly, ser filha única pode ter as suas vantagens, o ter a atenção dos pais concentrada só em nós, mas, por outro lado, esta atenção só concentrada em nós é uma verdadeira armadilha. Ou seja, não tendo os pais mais filhos para distribuir a tal atenção, a pressão connosco é, por vezes, demolidora. Foi por isso que eu aos 19/20 anos resolvi bater com a porta e fui viver para um quarto, o meu pai deixou de me falar, deixou de me pagar o Cambridge, a minha mãe visitava-me às escondidas. Ninguém compreendeu o facto de eu em casa dos meus pais ter todas as mordomias e querer viver num quarto. Também foi nessa altura que percebi que se tivesse irmãos as coisas poderiam ser bem mais fáceis. Tinha muitos amigos, mas não era a mesma coisa.

      Pois, acredito que o facto de ter irmãos, para muita gente, signifique a mesma coisa de não os ter. Até para isso, se calhar, é preciso ter sorte...

      Obrigada, Fatyly, acho que as pessoas hoje estão muito simpáticas comigo :)

      PS: "adopta-me como irmã" :))))))

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  3. Tenho a sorte de ter duas irmãs, uma mais velha (que fez com que eu quisesse ler livros, já que ela gostava de os ler) e uma mais nova (para quem comecei a ler as legendas dos desenhos animados quando aprendi a ler) gostava de ter tido mais e irmãos também

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    1. Ter duas irmãs deve ser muito bom. Tenho sempre a sensação que as pessoas que têm irmãos e, quando as relações entre todos é saudável, provavelmente nunca se sentirão sós. Essa parte da irmã e o incentivar a ler livros é espectacular :)

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  4. Excelente texto. Parabéns!

    Um beijinho :)

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