terça-feira, 24 de maio de 2016

Os donos da verdade (tradução ao pé da letra: eu é que sou o presidente da junta)

Começo com duas perguntas que para mim fazem todo o sentido. Quem são os donos da verdade, afinal? (é uma pergunta meio na onda da provocação sabendo de antemão que isso de donos da verdade não existe).

Os que só escrevem sobre amor e vivem anestesiados da realidade?
ou 
Os que só escrevem sobre guerras e vivem ensopados de existência?

Agora um aparte.

Por vezes dou comigo a pensar se são as guerras universais que estão a rebentar com isto tudo, ou se são as guerras individuais, aquelas que se praticam de quintalinho para quintalinho que, efectivamente, minam aos poucos o dia-a-dia de cada um de nós. 

Dou um exemplo que se passou durante muito tempo comigo:
Todos os dias quando saía para trabalhar inevitavelmente encontrava uma vizinha que para além do bom dia do costume e um sorriso de que nunca percebi muito bem a cor, tentava parar-me para dar dois dedos de conversa, coisa que àquela hora da manhã era um pouco indigesto. Eu lá sorria com um sorriso de cor... vai desculpar-me, mas é que, sabe, tenho horário a cumprir e preciso de me ir embora... Ela, dotada de uma pele comprada num qualquer vão de escada escuro, fingia que não percebia e continuava a querer os tais dois dedos de conversa. Eu, contrariada, lá punha um pé à frente do outro como se estivesse naquele jogo do partida, largada, fugida e escutava sem escutar. A mulher era uma coscuvilheira graduada. E o que eu não suporto gente coscuvilheira, Jesus. Mas nem Jesus me valia naqueles momentos, quase de certeza que se encontrava no café da esquina, numa mesa pequena encostada à janela a beber a sua meia de leite e um pão de Deus barrado com manteiga light (sim, Jesus também se preocupa com a linha. uma que nem sequer dá para bordar, enfim, lá coisas Dele e nas quais não me meto), sabia que a vizinha-mulher-coscuvilheira mexia muito os lábios fininhos fininhos, que mais pareciam uma faca de lâmina afiada capaz, também ela, de cortar presunto em fatias igualmente fininhas fininhas. Aquilo de manhã era sempre fininho e capaz de me estragar todo o santo dia. Aquela era a mulher das guerras individuais que arranjava com as intrigas que ia passando de quintalinho para quintalinho. 

À noite quando chegava a casa e ligava a tv para ver as noticias deparava-me com outro tipo de guerras. Olhava para a estante a derramar livros mesmo ali ao lado e pensava: e se eu lesse uma história de amor só naquela de viver melhor? Hoje posso viver melhor e quem sabe isto dure até amanhã de manhã e a vizinha já se tenha finado. Cruzes credo que eu não desejo mal a ninguém, se calhar é melhor ver as notícia na tv...

9 comentários :

  1. De certeza que não mora no meu prédio. Aqui somos 8 que nem se conhecem, eu conheço a vizinha do lado e os dois de baixo pois moramos cá desde que o Prédio foi construído há quarenta anos. Não conheço os outros 4, passo semanas que não vejo ninguém, Na semana do Natal faleceu a vizinha por baixo de mim e eu só soube, depois do Ano Novo já o funeral tinha sido há três dias.
    Um abraço

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    1. Não me parece, Elvira. Acho que moro um pouco mais longe :)

      Esta mulher (não a chamo de senhora, porque de senhora nada tinha) morava mais ou menos a meio da minha rua, era a intriguista-mor do sitio. Resta dizer que nas hora vagas, que pelos vistos eram desde que se levantava até que se deitava, frequentava a igreja. Nunca vou entender este tipo de mulheres que se benzem muitas vezes por dia e entretanto infernizam a vida dos outros daquela maneira.

      A minha avó ia à igreja todos os dias (o meu avô só ia ao domingo) era uma senhora no verdadeiro sentido da palavra e nunca a vi pelas esquinas com intrigas. Para além disso tinha um humor seco e destruidor, portanto mulheres intriguistas não tinham lá muito sorte ao lado dela. Quem me dera ter herdado essa faceta.

      Tenha uma boa noite. Abraço para si também.

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  2. Olá, Maria :)
    Recorda-se de eu falar na mercearia e na retrosaria da minha infância? Era a base... Não sei se elas lhe chamavam base, se sede, se quartel, mas era uma coisa dessas :D

    Boa Quarta-feira :)

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    1. Olá São,

      Neste caso a "base" era mesmo no centro de Lisboa. Entretanto mudei de casa e não faço ideia se a situação continua, mas que incomoda muito, lá isso incomoda. Incomoda e por vezes envenena a vida das pessoas de tal forma que pode muito bem destruir famílias.

      Para si também. Obrigada :)

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  3. - Não há donos da verdade.
    - Vizinhos, a gente não escolhe.

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    1. Humm, não sei se concordo com a parte de não escolher os vizinhos, acho que se pode dar uma olhadela em redor e perceber qual é o género antes de comprar/arrendar casa.

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    2. Conclusão: ambos temos razão :)
      'Inté' rimei!

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    3. Todos somos donos da nossa própria verdade, onde incluo os mentirosos(as) compulsivos que de tanto mentirem pensam que é a sua verdade, onde incluo as coscuvilheiras e bué de CUSCUVILHEIROS que para além de terem a sua verdade inventam mentiras sobre a verdade dos outros. Por vezes para não dizer a maioria são pessoas sós e isoladas e tudo fazem para que lhes dêem um pedacinho de atenção!

      Contra isso sempre tive duas soluções: manter a minha personalidade, teimosia, optimismo e se queriam e querem saber mais do que devem, levam com cada "peta" que as baralho de tal forma que é obra. Ou não lhes ligo nenhuma e ficam pela saudação que dou sempre.

      Isto é tal e qual e tendo o mesmo efeito quando telefonam...é da casa da ou do X? É sim! Posso falar? Não, porque os "senhores doutores" não têm hora de chegada.:)))

      Outras vezes e aqui na minha começo logo por dizer, tipo gravação...este telefone está sobre escuta da polícia judiciária, deixe a sua mensagem. Desligam logo e às vezes antes de eu acabar e nunca mais ligam!:))))

      Por mais que tentemos escolher os vizinhos que agora mudam constantemente é como pores areia num funil. Felizmente nunca tive problemas com os que aqui estiveram e agora com os novos que aqui estão e sem saber a razão...todos me cumprimentam quando nos cruzamos na escada.

      Referindo estas tuas palavras:

      "Por vezes dou comigo a pensar se são as guerras universais que estão a rebentar com isto tudo, ou se são as guerras individuais, aquelas que se praticam de quintalinho para quintalinho que, efectivamente, minam aos poucos o dia-a-dia de cada um de nós."

      Ambas as guerras, porque têm efeito dominó! As sociedades cada vez mais destroem pilares essenciais da vida que todos sabemos quais são, porque muitos vivem apenas em torno do seu umbigo e ou em torres blindadas...numa ganância por terem mais e mais e ou se julgarem seres superiores...só porque sim!

      Ficaria aqui a noite toda a conversar:)))mas já é tarde demais para o meu "João Pestana":)))

      Bom serão

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    4. Esta mulheres que falam e se metem na vida dos outros por vezes arranjam intrigas capazes de destruir famílias. Se for preciso inventar, inventam, sem qualquer problema. Praga de mulheres, raios! Não tenho a menor paciência para elas, no entanto não sou mal educada, mas por vezes apetecia-me, ó se apetecia. São na maioria donas de casa com muito tempo disponível, não são das donas de casa que trabalham e muito, são das outras, as que não interessam nem ao Menino Jesus.

      Esta mulher-vizinha é casada com filhos, não me parece uma pessoa só. É muito cínica, muito sonsa, muito hipócrita e muito... religiosa. Pois!

      Gostei muito deste seu comentário, Fatyly, obrigada, e obrigada também pelo seu humor e energia. Uma boa noite :)

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