sexta-feira, 15 de abril de 2016

Papaguear

Tenho para mim que este fenómeno das redes sociais veio trazer ao de cima esta coisa de papaguear. Não sei se também eu fui atingida de alguma forma, mas, o que sei, é que não fui atingida naquele ponto em que vou atrás dos outros só porque sim - o tal fenómeno carneirada que convém evitar o mais possível. 

Existe de alguma forma uma preguiça - talvez receio - de se dizer o que se pensa, principalmente quando o que se pensa é o oposto ao que a maioria pensa, este receio de não ser incluído no bando é algo que me ultrapassa em gente adulta, consigo compreender na adolescência, mas no estado dito adulto, não compreendo. 

Até se podia pegar num qualquer assunto do momento e cozinhá-lo à nossa maneira, acaba por ser um exercício interessante, ver o mesmo assunto que já foi debatido até à exaustão visto pelos olhos de quem se abstrai do ruído à volta e, consegue, encerrar-se dentro de si próprio, nos seus próprios pensamentos, nos seus próprios argumentos, trazendo para a luz do dia uma outra forma de olhar para a mesma coisa. Isso ajudaria a que o tal fenómeno de papaguear fosse morto de um golpe só. Só que não. Não só não o matamos, como o ressuscitamos, e acabamos por o cozinhar da mesma forma que os outros o cozinham. Sabendo à partida que muitos não têm jeito para a cozinha, sabendo também que muitos queimam, salgam demasiado, propositadamente, esta coisa de papaguear deveria ser abolida do nosso dia-a-dia. Comecemos pelo não assunto de Maria João Bastos e a sua cadela Amélie, é, realmente, um não assunto. É a prova de que as pessoas, todos nós, incluindo figuras públicas elevadas ao patamar de opinion makers, numa tradução meio ranhosa, "fazedores de opiniões", andamos com um défice qualquer de vida. Vida da boa e, só por isso, necessitamos com tanta ânsia de beber o sangue dos outros. Está na cara que os vampiros vieram mesmo para ficar, desengane-se quem pensa que é coisa de ficção.

6 comentários :

  1. Fiquei estupefacto quando me mostraram a capa de um suplemento do CM, onde de forma 'garrafal' mostrava Maria João Bastos a abraçar Amélie e, num rectângulo excessivamente pequeno referia, em duas linhas, o falecimento de Francisco Nicholson.
    Sabemos o que (não) vale o monte de folhas dirigido por um execrável Octávio Ribeiro mas, em abono da verdade, aquela página, pela sua composição, deixou qualquer ser humano com dois dedos de testa à beira de um ataque de nervos. Confesso que me lembrei daquela malta que a troco de 'meia dúzia de tostões' seria capaz de provocar um incidente lá para os lados da Arruamento D à Rua José Maria Nicolau, em Lisboa.
    E assim, aqueles senhores e senhoras do CM perturbam a mente do mais pacato cidadão.

    Opinion makers há muitos, só que a maioria não presta.

    Beijinho



    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caramba, caro Observador, tinha logo que trazer o exemplo do CM, o jornal que lidera os fenómenos do Entroncamento, aquele jornal que ninguém lê, ninguém compra, mas que continua a ser o jornal diário mais lido em Portugal. Isto de o CM ser o jornal mais lido, só demonstra que somos um povo dado ao sensacionalismo, que só gostamos de histórias de faca e alguidar, que a nivelar, gostamos de nivelar por baixo. E não há maneira de sairmos disto. Não há maneira de Portugal deixar de ser um grande pátio a céu aberto, onde as tricas, os mexericos, os boatos, são um grandessíssimo cartão de visita. Bah!

      Ponha perturbar nisso...

      Eu ando numa fase em que me apetece dar dentadas nalguns opinion makers da nossa praça. Tentam fazer-nos verdadeiras lavagens cerebrais. Mas onde raio é que vão desenterrar aquela gente? Alguns deviam ser proibidos de abrir a boca, quanto mais estar num canal de tv ou a escrever em jornais/revistas.

      Beijinho e tenha uma óptima tarde.

      Eliminar
  2. Li e reli este texto mas não estou minimamente dentro do assunto para dizer alguma coisa de jeito, e sendo assim saio de mansinho sem bater a porta.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nada de especial, o assunto, não se preocupe, foi apenas uma pequena divagação à volta daquela coisa tão moderna de as pessoas pegarem em não-assuntos (como este da Mª João Bastos/Amélie ou aquele da ex-deputada/carta ao gato/namorado, e elevá-los a assuntos de suma importância, fracturantes, mesmo.

      (pode bater com a porta à vontade, Elvira, só naquela de não deixar as pessoas dormir deste lado :)))

      Um abraço.

      Eliminar
  3. Nem na adolescência andei em e ou com carneiradas, quanto mais agora. Não vi a notícia mas pelo que dizes a senhora que desconheço levou tareia por falar da sua cadela. Mas deixa-me que te diga que pior do que falas, as notícias de "faca-e-alguidar-ao-mais-ínfimo-pormenor" é o que mais vende.

    Voltando ao "não-assunto" um animal de estimação é bom, deverá ser considerado um elemento da família e JAMAIS ABANDONAR, mas para mim tudo tem os seus limites. Tive um gato, durou vinte anos, foi tratado como elemento da família, mas sempre como gato e ele agradecia. Custou-me imenso ter que o abater devido ao seu estado, mas daí dizer como oiço dizer a muita gente que é como "perder um filho, pai, mãe ou irmão" vão anos de luz. A tal inversão de valores com que não atino. Mas respeito e jamais ataco seja quer for porque cada um sab de si!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Neste caso, Fatyly, o caso desta notícia (Mª João Bastos/cadela Amélie) as pessoas que mais a criticam, são exactamente aquelas que fizeram com que esta notícia tomasse as proporções que tomou. O que não deixa de ser irónico. Ou seja, se ninguém tivesse falado, se ninguém tivesse partilhado a notícia, a coisa nem sequer teria visto a luz do sol. Não teria passado de um simples desabafo por parte da actriz e... ponto. Entretanto já se sabe que alguns programas de tv, alguns jornais, revistas, estão atentos a estas coisas e vão atrás daquilo que lhes cheira a vendas/audiências. Se o povo gosta, embora lá dar ao povo o que o povo gosta. Ao fim e ao cabo isto está tudo nas mãos do povo. Não é só na altura de votar, acredito que um país é a cara do povo que lá mora, as atitudes, posturas, formas de estar do povo (povo que somos todos nós), pelos vistos não estamos a fazer as escolhas certas. Pedimos "sangue" eles dão-nos "sangue". Damos audiência a programas/jornais sem qualidade e eles abusam cada vez mais nessa falta de qualidade. Está tudo nas nossas mãos, se mudarmos, eles são obrigados a mudar. Eles, refiro-me a políticos, gente que tem poder na imprensa, tv, rádio e por aí fora. Até aqui, neste mundo dos blogs, a coisa é assim...

      Fatyly, existe gente que vive na mais profunda solidão, para essas pessoas, quando perdem o seu animal de estimação, equivale realmente a "perder um filho, pai, mãe ou irmão". A solidão é um flagelo, existe gente que só encontra algum bem-estar, felicidade, companhia, ao lado do seu cão, gato. Não os consigo criticar. A vida por vezes cai-nos em cima e faz-nos provar aquilo que tanto criticámos nos outros. Lembro-me de uma pessoa que se fartava de "gozar" com gente com depressão, uns anos depois caiu-lhe em cima uma depressão daquelas que não é brincadeira nenhuma, acredito até que foi a depressão que impediu que tivesse forças para lutar contra uma doença que apareceu na mesma altura. História verdadeira e muito triste.

      Eliminar