segunda-feira, 11 de abril de 2016

O saco que convém não esquecer

Um dia destes desloquei-me a uma das minhas lojas preferidas, lojas que apostam numa filosofia de vida com a qual me identifico. Falo da Natura e não falo por uma questão de publicidade (embora acabe por existir a partir do momento em que se faz uma qualquer menção à marca), falo da loja porque este é um blog pessoal e a partir do momento em que é um blog pessoal é natural que se fale de gostos, sejam eles quais forem, passem esses gostos por livros, por viagens, por perfumes, por pintura, por música, por lojas que se visita há largos anos, lojas às quais sou  fiel. E eu sou aquele tipo de cliente exigente, sei o que quero, não adianta tentar enrolar, manipular, afogar-me em simpatias que escorrem excessos ou antipatias que me dizem que não estou no sitio certo e vai daí procuro outro sitio que seja realmente o certo. Dou-me ao trabalho de procurar os sítios certos e volto as vezes que forem necessárias. Não traio quem me trata com respeito, porque não sou pessoa de trair, tenho para mim que nem sequer traio quem me desrespeita, apenas passo para o outro lado do passeio que, vai na volta, tem um tipo de esplanada onde o sol bate de frente e convida a ficar. Eu fico. Fico sempre. Gosto de sol. Gosto cada vez menos de pessoas, é bem verdade, mas isso são as circunstâncias da vida que me empurram para esse lado, faço força, bato o pé, que não quero e não quero, que quero ficar no meio das pessoas, mas são cada vez menos as pessoas com as quais me apetece dançar salsa. Pisam-me os pés e eu só tenho dois. Tenho que os preservar para conseguir caminhar. Caminhemos então para outro parágrafo.

Dizia eu que um dia destes me desloquei a uma destas lojas e fiz uma compra, até aqui nada de anormal, até gostei daquilo que comprei, mas o que mais gostei, vá-se lá perceber estas coisas, foi do saco onde me colocaram as compras. Pois, eu e as coisas ditas normais nunca fomos lá grandes amigas. Gosto do diferente, não é o diferente que tem intenção de chocar, de provocar. Aquilo de só chocar por chocar, de só provocar por provocar, nada me diz, é demasiado previsível, gestos previsíveis apenas convidam ao bocejo. Bocejo é coisinha para me lembrar que as pessoas bocejam de boca aberta e temos que levar em cima com o cheiro a alho e coisas que tais que acabaram de ingerir ao almoço. Visão do inferno. Raios, estava na altura de levar os adultos a uma escola e ensiná-los a pôr a mão à frente quando se boceja ou quando se tosse, se calhar os filhos desses adultos no futuro nos brindassem com boas maneiras. O futuro precisa de boas mãos. À frente. Boas mãos à frente. O futuro também precisa de gente adulta que lave os dentes depois das refeições. Existe lá coisa melhor do que cheiro a dentes e mãos bem lavados!?! Já me perdi... É o costume!

Ah, vamos lá ao tal saco pequeno, reciclável, da cor do papel pardo. O saco não faz qualquer publicidade à marca (não é para todos), peguei nele atentamente e tinha muita coisa escrita, o título em letras garrafais diz: NÃO ESQUECER. Tenho para mim que não vou esquecer, visto que o guardei, procurei uma moldura com aspecto rústico, um rústico no sentido de ir ao encontro do lado natural da vida, o lado saudável da vida, e fiz questão de o emoldurar à minha maneira, não sem antes colocar a cruz nos quadrados minúsculos ao lado das frases com as quais mais me identificava. Aquilo está engraçado. Aquilo sabe-me a vida. Aquilo não é de ouro, nem de diamantes, é algo muito simples, mas é provavelmente a moldura mais genuína que se encontra pendurada à entrada da minha casa. Porque lá em casa gosta-se do lado mais simples da vida. Simples, com tudo limpo e arrumado, apenas o que escrevo é que tem autorização para andar por aí com um ar um pouco desarrumado.

NÃO ESQUECER

  • Ver o nascer e o pôr do sol no mesmo dia.
  • Oferecer flores.
  • Rir de ti próprio.
  • Permitir que corpo acompanhe a sua mente.
  • Perder o pudor dentro e fora do duche.
  • Visitar os sete continentes.
  • Aprender outro idioma e ensinar o seu no estrangeiro.
  • Perdoar como os bravos sempre perdoam.
  • Experimentar sem receios.
  • Não pretender a reforma.
  • Correr contra o tempo.
  • Confessar algo surpreendente.
  • Dormir bastante e continuar a ter sonhos.
  • Entrar numa festa sem convite e aproveitar ao máximo.
  • Gritar num bar "a próxima rodada pago eu" e cumprir a promessa.
  • Fazer amor onde normalmente nunca o faria.
  • Correr à chuva sem roupa.
  • Viver sem internet 24h e que não seja por falta de cobertura.
  • Conquistar os seus medos.
  • Dormir sob as estrelas.
  • Não comprar bilhete de regresso.
  • Ter mais projectos que recordações.
  • Saber quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.
  • Alcançar o topo de todos os seus projectos.
  • Amar muito e bem.

5 comentários :

  1. Aí está o marketing a funcionar e bem. É raro vermos coisas bem feitas, apelativas, interessantes. A Natura sabe o que faz e como faz.
    Tenho a certeza de que a Maria não vai esquecer esse simples saco. Simples mas interessante, a roçar o importante.
    Para quem cada vez gosta menos das pessoas, este gesto da empresa 'cai que nem ginjas'.
    E é assim que se conquistam clientes, que se reforça a fidelização dos habituais, que se dá nas vistas em sentido positivo.
    Nota 10 para a iniciativa!

    A propósito do cada vez menos gostar das pessoas, acho que podíamos criar um clube. Já somos dois a ter esse pensamento.

    Boa semana para si. Beijinho

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    1. Caro Observador, eu torço, e torço muito, para que se dê um qualquer volte-face nesta coisa da sociedade e, se comece, a apostar no lado mais genuíno da vida. Não se aguenta tanta ostensão, tanto apelo ao consumo de forma desmesurada. Um dia destes até nos tentam vender a mãe deles e como brinde levamos também o pai. Se a malta argumentar que já tem um pai e uma mãe, os que nos tentam vender tudo e mais alguma coisa são bem capazes de tentar uma promoção naquilo de vender os próprios progenitores. Gostava de ver um apostar uma e outra vez, até à exaustão se for possível, na qualidade e não na quantidade. E nos pormenores. Parecendo que não os pormenores são importantes, foi o caso deste simples saco. Aquilo resulta e de que maneira. Ainda estive para tirar uma foto para se ver o resultado da moldura-saco, entretanto pensei melhor e achei melhor não.

      Isso de gostar cada vez menos de pessoas daria pano para mangas. Um dia destes talvez escreva por aqui o que me leva a dizer tal coisa.

      Boa semana para si também. Beijinho.

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  2. Conheço a Natura e é lá que compro apenas um sabonete para lavar...plimmmmmmmmmm sabes bem ao que me refiro.
    Além de gentis são bons profissionais e os artigos são apelativos, mas não dá para tudo. O que eu acho é que não "impingem-nem-seguem-quem-gosta-de-ver-com-ar-de-raio-que-os-parta"!

    Em termos de civismo a maioria dos portugueses continua pelas ruas da amargura e apesar de "empinocados/engravatados/fatinhos e outros inhos" continuam a cheirar mal por dentro e por fora e não há "brise" que resulte. Mais...jovens armados em...fico por aqui que ainda saí bomba!

    Continuo a gostar de pessoas porque nem todas são assim, mas jamais grupos com "frescuras" como descrevo acima.

    Li o comentário do Observador e concordo com ele, mas quer ele, quer tu são pessoas e não robôs...julgo eu de que...e bamos-embora-p'ra-frente-e-ligar-apenas-aos-que-merecem-e-mais-nada:))))

    Por último...VIVA A NATURA e pintaria também a bold, desculpa a preto "Ter mais projectos do que recordações". Disse!!

    Um bom dia e bouuuuuuu fazer o almoço porque o Ambrósio faltou, aiiiii o desgramado.

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    1. Com essa do "plimmmmmmmmmm" é que me matou. A Fatyly é exemplar único (ahahahahahah).

      Tem toda a razão, existe em determinadas lojas um exagero absurdo nisso de tentar dar atenção aos clientes, andam atrás de nós e não largam, até acredito que a culpa não seja das miúdas que por lá trabalham, acredito, isso sim, que levam verdadeiras lavagens ao cérebro por parte de pessoas que acham que o atendimento ao público tem de ser feito daquela forma, quando essa forma de "perseguir" os clientes acaba por ter um resultado contrário ao pretendido, ou seja, afasta, em vez de levar o cliente mais vezes àquela loja. Continuamos a apostar em gente que dá formação e que nada percebe de formação. Portugal continua no seu melhor, para variar...

      Escolheu muito bem o "Ter mais projectos do que recordações", só que alguns projectos, por muito que a malta se esforce, não se conseguem concretizar. Não por falta de empenho, mas porque existe toda uma máquina de interesses por detrás que não deixa muita gente andar para a frente.

      Tenha também um bom dia, Fatyly :)

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