quinta-feira, 14 de abril de 2016

Eu e a poesia estamos um pouco de costas voltadas...

Desde que me lembro que a poesia sempre teve um papel especial na minha vida, a paixão começou ali por volta de uma idade em que se calhar não é suposto gostar de poesia, se calhar é suposto gostar de outro tipo de leitura, romances cor-de-rosa, talvez, tão normal naquela idade da pré-adolescência, adolescência, só que não, romances cor-de-rosa também nunca foram o meu forte. Gostava era do meu livro de Tutankhamon que li até se gastar as páginas. Era um género de obsessão pela vida do faraó que tinha morrido na adolescência. Histórias à volta do antigo Egipto fascinavam-me. 

Parece que ainda consigo ouvir a voz da minha mãe: larga-me esse livro, lava-me essas mãos e, já para a mesa... não repito outra vez... E não era necessário repetir porque bem sabia do que era capaz a dona da voz que me dizia: não repito outra vez... Ainda conseguia ouvir assim meio ao longe, enquanto passava à pressa mais uma folha do livro... Por acaso a mesa já está posta? hoje é peixe, portanto, talheres de peixe... Levantava-me meio contrariada, resmungando entre dentes qualquer coisa, quando ouvia outra vez.... Nada de resmunguices... Sim, a minha mãe parecia ter o dom da ubiquidade, são algumas mães e o Senhor que mora lá em cima, acho que devem ter um pacto qualquer para infernizar a vida de pessoas em fase de crescimento que só queriam que as deixassem em paz com o seu Tutankhamon, com os seus livros de poesia.

Talheres de peixe e mãos lavadas. Para quê? - pensava.

Entretanto cresci, o livro do faraó do antigo Egipto ficou arrumado no meu quarto, em casa dos meus pais, junto com todos os livros de poesia e, eu, percebi que aquilo de lavar as mãos antes e depois das refeições e usar talheres de peixe não ocupa espaço. Quanto à poesia, tenho que ver se me reconcilio de alguma forma com ela, novamente. Tentar desligar-me um pouco da cor crua dos dias e tirar cinco minutos, ou mesmo seis, de quando em vez. Tentar entrar novamente no mundo que nos permite voar um pouco. Que nos permite desligar um pouco. Desligar é bem capaz de ser essencial à sobrevivência. 

8 comentários :

  1. Eu gosto muito de poesia. No Barreiro fazemos na última segunda feira de cada mês, uma tertúlia de poesia. Este mês será dia 18 já que a última coincide com o 25 de Abril. E esta vai ser sobre os Poemas Possíveis de José Saramago.
    No próximo mês será Sophia de Mello Breyner
    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Elvira, a poetisa Sophia de Mello Breyner também "mora" cá em casa. Tenho alguns livros em casa. Outros livros de poesia também têm um lugar especial, o problema é que acho que algo aconteceu que me fez não sentir o mesmo prazer ao ler poesia que sentia há algum tempo atrás. Não sei bem porquê...

      Dou-lhe um exemplo, entrei por acaso há meia dúzia de dias no blog de uma pessoa, nem sequer sabia que era um blog de poesia, mas foi um comentário da pessoa em questão num outro blog que me levou a seguir-lhe o rasto, por assim dizer, andei por lá a ler uns poemas, li os comentários das pessoas para perceber o que diziam acerca do que a autora escrevia, mas saí e não voltei. Não me puxou. O problema não é da autora, porque o feedback de quem por lá comenta é muito positivo, o problema e apenas meu.

      Um abraço para si também.

      Eliminar
  2. Gosto de ouvir dizer poesia mas não é qualquer pessoa, mesmo considerado poeta, que me satisfaz.
    Já ler poesia, apenas alguma coisa me delicia. E nesses casos, leio e releio.

    Um beijinho, Maria.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Observador, eu acho que escrever, dizer poesia, não é para todos, só para alguns, tem que ser gente muito especial, gente com uma sensibilidade muito especial, com uma inteligência que não está ao alcance de todos. Escrever umas coisas, qualquer um consegue, agora poesia... poesia a sério, conseguir tocar as pessoas, prendê-las, isso... isso é muito difícil, logo, mais valioso.

      Beijinho para si também.

      Eliminar
  3. Ao contrário de ti li e detestei o livro Tutankhamon e ainda hoje não consigo comer com talheres de peixe, aquela faca dá-me cabo dos nervos:)
    Sempre, mas sempre antes das refeições era a correria para a casa de banho, lavar as mãos e a cara porque as brincadeiras faziam-nos suar imenso.
    Mais o meu pai, bem tentou o talher de peixe sem resultado e acabaram por aceitar porque já bastava ser obrigada a escrever com a mão direita, por vezes na escola com a esquerda amarrada à carteira.
    Hoje aceitam e mesmo quando como fora ou em casa de alguém peço para trocar.
    Quanto à poesia, gosto, gosto muito de ler...mas atravesso um período que não me apetece ler. Ao arrumar e ordenar "as coisas da minha mãe" deparei-me com alguns poemas e prosas escritas por ela que me tocaram muito. Porque ela escreve o seu diário, pediu-me para rasgar 14 agendas e sem as ler, o que fiz sem ter a curiosidade de...mas felizmente os poemas e prosas estavam noutra caixa e num envelope no meio de postais etc, etc, etc...que voltei a a arrumar e deixar como veio.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu achei (e ainda acho) que a história à volta do faraó é muito interessante. Cativante. Entretanto aquele livro está muito bem escrito, a história prende do principio ao fim. Já tenho o livro comigo na minha casa, trouxe-o da casa dos meus pais, está velhinho, mas é uma das minhas melhores memórias. Um dia, se chegar a velhota e achar que os meus dias estão no fim, ofereço-o a uma criança com umas palavras minhas explicando o porquê daquele livro me ter acompanhado durante tanto tempo. O porquê de ser especial. Espero que ela o trate bem...

      Quanto aos talheres de peixe... a minha mãe era uma senhora muito dada às boas maneiras e etiqueta e tal, achava que para além dos estudos, eu também tinha que saber estar à mesa, ser elegante, e essas coisas. Fez-me a cabeça em água, é bem verdade, até me ensinou a andar de saltos na idade certa, a sentar-me e mais uns truques para não fazer figuras tristes. Não tive outro remédio senão aprender. A senhora minha mãe era um osso duro de roer, ou aprendia ou estava feita ao bife (ahahahah). Acho que neste momento lhe agradeço, não é essencial comer com talheres de peixe (é uma questão de hábito, apenas), saber quais os copos certos, mas também não ocupa espaço e salvou-me em algumas reuniões que tive com clientes que nos estão sempre a olhar para os gestos na hora do almoço :))))

      (oh, Fatyly - não é que me queira meter nos seus assuntos - mas essas "agendas" que rasgou não foi uma pena? não tinham todo o historial de vida da sua mãe? bom, se salvou os poemas já não é mau...)

      Tenha um óptimo sábado.

      Eliminar
    2. Tenho ainda em meu poder um e até as netas já leram e devolveram: O meu pé de Laranja e Lima que me acompanha desde que comecei a devorar livros talvez nos meus 10/11 anitos.

      Não Maria, o historial da minha mãe (desde que se lembra de ser gente) está escrito em três livros "os famosos brancos ou em branco" e que ela mandou fazer 4 cópias e deu uma a cada filho. O último terminou em Dezembro de 2014. Li-os de seguida e gostei imenso de saber coisas que nunca soube. O segundo é sobre os filhos e a mais bem comportadinha e obediente era eu:))) ó minha nossa o que eu ri.

      Eu desde Setembro do ano passado notava que algo não estava bem com ela. Vezes sem conta aparecia de surpresa e até pelo telefone sabia o seu estado de alma e físico. Por cinco vezes marquei consulta e ela não quis ir. Teimosa que nem imaginas e tudo era argumento para tal. Para mim não era natural o enorme cansaço que tinha e sobretudo a tremenda falta de apetite...ia comendo e tanta vez fiz comer e ia lá levar e por vezes dava-lhe para dois dias.
      Marquei consulta para mim para o dia 17 de Fevereiro e ia pedir à médica para fazer uma consulta domiciliária mas sem ela saber. Tudo aconteceu no dia 14. Enquanto esteve hospitalizada fui ler o que tinha escrito desde Setembro do ano passado...e lá estava o que ela tentava esconder que resumindo é mais ou menos isto..."sinto-me mal, triste (com guerras entre filhos, netos e bisnetos), sem forças e a minha Fatyly já viu e tem feito tudo por mim, mas só vou ao médico quando me apetecer, porque este estado de alma irá passar"!

      Hoje está com regras - 5 refeições por dia e com a medicação em ordem. Hoje fui buscá-la e fomos até à praia. Uma tarde espectacular e conversámos muito e às tantas disse-me: se eu te tivesse dado ouvidos talvez não estivesse como estou. Respondi-lhe de imediato...ninguém sabe mãe e portanto bola p'ra frente...vou ali comprar-lhe um corneto:))) e comeu-o deliciando-se que nem uma gaiata:)

      Como tal fiz o que ela me pediu e rasguei sem ler mais nada, porque não sou nada, rigorosamente nada curiosa!!!!

      Desculpa Maria:)

      Eliminar
    3. Li o "Meu Pé de Laranja Lima" muitas vezes, Foi provavelmente um dos meus primeiros livros (não me lembro bem), foi oferecido por um senhor que publicava livros, escrevia poemas, era poeta, portanto, foi dele que também recebi os meus primeiros livros de poesia. Penso que também lhe devo o meu gosto pela leitura.

      Pelo que me apercebo do seu comentário, a fase mais critica da sua mãe, já passou. Ora, ainda bem. Não se trata de ser curiosa, apenas referi aquilo porque se tratará de historial de família. Talvez custe um bocadinho a rasgar.

      PS: Desculpar o quê? Ora essa! Não vejo quaisquer razões para pedidos de desculpas :)

      Eliminar