sexta-feira, 22 de abril de 2016

Deixa-me cá opinar sobre aquele programa do... "e se fosse consigo?" (não é, mas faz de conta que sim)

O problema todo aqui reside no "e se fosse", sempre que uma pessoa começa uma frase com um "e se fosse e acaba com um ponto de interrogação", é como se tirasse logo à partida toda e qualquer responsabilidade de cima daquele a quem pretende, de alguma forma, pôr algum peso. 

Por exemplo, se alguém disser: ... e se partires uma perna como é que te deslocas para o trabalho?
Alguém pode sempre responder: calha bem, não parti nem nada, "no problema".
E se a pessoa insistir: está bem, e se por acaso partires realmente a perna?
A pessoa pespega-lhe com um: pá, não chateies, não parti, "deslarga-me"... 
E a pessoa volta a insistir: e se fosse outra pessoa a partir a perna, como é que achas que... ?
Aqui a pessoa olha-nos prestes a dar-nos uma dentada e responde: O problema não é meu e a perna também não. Portanto, está-se bem.
(fim da história e cá continuamos no vai-se andando, umas vezes a pé, outras à boleia no carro do senhor Armando).

Tudo isto para dizer que vi atentamente o programa e, pareceu-me, que o grande problema é que a maioria das pessoas que estavam na esplanada não se levantou para defender o rapaz que estava a ser vitima de racismo por parte daquele pai porque vivemos num determinado país da Europa onde existe demasiada gente pacata por metro quadrado, gente do "antes a ti, do que a mim", gente que a interferir em algo e fazer a diferença sempre é melhor fazê-lo em casa, atrás de um monitor, onde se pode ser herói e fazer muito pelos outros, não fazendo rigorosamente nada. E é isto.

Bom, se calhar também é isto:
Não esquecer que vivemos na época das redes sociais e já ninguém frequenta esplanadas... a frequentar esplanadas é só para filmar algo e publicar no Youtube. A bem dizer sempre conseguimos fazer algo pelo nosso semelhante. Somos uns simples entertainers. Quer de um lado, quer do outro. 

Agora é que foi. Isto.

Peço desculpa, existe mais um isto em que, se calhar, muita gente pensa: e se eu interferir e apanhar pela frente alguém dado a níveis de agressividade nada aconselháveis, não corro o risco de levar duas facadas?

...

(aqui fica o vídeo do programa/racismo para quem não viu)

7 comentários :

  1. Por curiosidade, espreitei o primeiro programa.
    Fiquei satisfeito por ver a Conceição Lino, profissional que muito prezo.
    Visto o que vi e ouvido o que ouvi, cheguei à conclusão de que a Conceição foi atirada às feras.
    Alguém na SIC não gosta dela.

    Deitei o olho ao que resultou do visionamento do programa sobre o racismo. Não consegui ver todo, confesso, mas o que vi deu para confirmar que Conceição Lino merece melhor do que o 'se fosse consigo' e que os responsáveis pela programação da estação de Carnaxide devem estar como os deuses: loucos.
    O projecto (cópia?) não vai a lado nenhum. Não tem condições mínimas para ir, nem que seja à esquina.

    E é tudo o que se me oferece dizer sobre tão (ir)relevante espaço televisivo.

    Um beijinho

    ResponderEliminar
  2. Ora bem Maria. Eu vi o programa. Quase nunca vejo TV, mas venceu-me a curiosidade e vi do princípio ao fim. Não sou racista. Mas não sei se era capaz de me levantar para defender o moço. Em Moçambique defendi um e isso custou-me o isolamento dos outros moradores do prédio. Em Angola já bastante depois do 25 de Abril, defendi o direito dos negros à sua independência e não fora a intervenção de uma patrulha militar, talvez não estivesse aqui agora para contar as minhas memórias. Naquela época, era nova, ainda sonhava que podia senão mudar o mundo, pelo menos mudar um pouco à minha volta. Hoje estou velha, cansada, e provavelmente se assistisse a semelhante cena, levantava-me e ia embora.
    Abraço e bom fim de semana

    ResponderEliminar
  3. Vi atentamente e já o revi e continuei com a mesma sensação: completamente furiosa, incomodada sem entender, porque não entendo, a passividade de quem assiste. Ou por medo do "pai" ou porque numa de "não me meto porque não quero chatices. Gostei sobretudo das verdades dita por aquela senhora de cor...

    Ainda bem que não fui apanhada, aí batia o recorde dos recordes de todas as audiências...ou então cortavam, pois, porque comigo saltava-me a tampa e acho que diria algo ao "pai" e se ele tentasse enveredar pela agressão levava com uma cadeira que sairia torto. Já reagi muitas vezes por muito menos.

    Depois as crianças...pois é...e tocou-me muito aquela garota "que se julga feia" e adorei um pequenote que disse que gosta da sua cor...porque por dentro SOMOS TODOS IGUAIS.

    Depois ouvi o debate na Sic Notícias que me soube a pouco ou quase nada ou pelo painel dos convidados ou porque mais uma vez como quase em todos os debates saltam lá para fora, quando o assunto era sobre cá dentro.

    Há racismo em Portugal? SEMPRE, HÁ E CONTINUARÁ A HAVER não só com pretos, mas com todas as raças, sexo e religiões. Enfim...um país que se diz que "é o super sumo da batata" mas cuja batata está podre e deformada!!!!

    Mas acho que falta algo que não sei dizer...porque em nada mudou a atitude da maioria da sociedade PORTUGUESA!

    ResponderEliminar
  4. Maria,
    Desculpe-me, mas passo ao lado destas coisas. É que o meu filtro está, a cada dia que passa, cada vez mais apurado. Entendo, contudo, a sua insatisfação. É nosso dever "esbracejar" para que que os índices de ruído se situam em nível aceitável, pugnar pela nossa qualidade de vida. Confesso, no entanto, que já não entro nesse peditório, aquilo de que gosto é tão importante que merece toda a atenção disponível. O que não tenho, infelizmente, é pára-raios, pois há sempre qualquer coisa que consegue ludibriar o filtro. :)
    Gosto de a ler, a sua energia é sempre contagiante.

    Uma boa noite :)

    ResponderEliminar
  5. Olá, Maria :)
    Ainda venho a tempo? Como a caixa está aberta, presumo que sim :)
    Há aqui várias questões :há racismo /não há racismo, devíamos /não devíamos defender o rapaz, ser connosco /não ser connosco... E há ainda mais pequenas coisas pelo meio como o preconceito da Maria em relação às redes sociais, como se a vida fosse só rosas quando não havia redes sociais... Ou como se o blogger fosse outra coisa que não uma rede social... Lá está : quando é connosco é connosco, quando não é.... Vejo frequentemente a Maria cobtrariada, aborrecida, porque há pessoas terríveis na blogosfera, porque lhe querem boicotar o blog, o que realmente é muito lamentável... Mas é a mesma pessoa (à partida) que vejo falar sempre com desprezo do Facebook, do Instagram, agora do YouTube... Isto a propósito de quê? A propósito precisamente da questão ser connosco / não ser connosco... Quando nos toca a nós é uma coisa, quando não toca... Eh pah... Pois, assobia-se um bocado para o lado. No fundo, uns mais outros menos, somos todos um pouco assim... Não vale a pena dizermos que não. Nós podemos fazer tudo por não ser, mas... Por algum motivo na gramática, nas conjugações verbais, o Eu virá antes do tu e o nós antes do vós... E ele/s é /são sempre quem está mais distante...

    Devíamos defender o rapaz? Hum... Bem, quem fosse defender havia de ser no mínimo criticado por fazê-lo, para não dizer julgado.... Isto é a história do preso por ter cão... Apesar de ser num sítio público, a conversa era pessoal... Se uma pessoa se fosse meter na conversa, seria certamente acusada de se meter onde não era chamada... O rapaz era adulto... Dizem as leis que só a violência física é crime público... Ofensas verbais não. Há depois os casos intermédios da permanência de alguém num sitio público estar a ser perturbada pelo excessivo barulho produzido por alguém, ou linguagem obscena... Mas nesse caso, devemos chamar alguém responsável... O segurança, um agente policial que esteja de serviço no local... Porque, sejamos realistas, se as pessoas se começam a meter nas conversas de café da mesa ao lado, então, também estamos a invadir a privacidade do outro... Quantas cenas daquele tipo provavelmente já vimos na vida? Em quantas nos fimos meter para defender? Pois...

    Tratava-se de um adulto, à partida mentalmente normal, a ser insultado por outro adulto. Não havia violência física... Devia eu ir intrometer-me? E se fosse? Não seria criticada por isso?

    Em relação à questão do racismo... Hum... Existe. Todos sabemos que existe. Mas a questão não é tão linear como parece... Eu acho que se me deparasse com um episódio daqueles, a primeira coisa que pensava era "Não gosta do rapaz por qualquer outro motivo e dá a desculpa da cor"... Há sempre valores que se sobrepõem a outros e o dinheiro é o maior de todos eles... Sempre ouvi "Poderoso cavalheiro é o senhor Dinheiro"... Recordo-me sempre de uns ciganos em Olhão que estavam todos revoltados porque uma rapariga tinha fugido com um rapaz não-cigano e queriam, por força que a GNR fosse buscá-la... A GNR estava na maior das dificuldades, sem conseguir explicar-lhes que, sendo a jovem maior de 18 anos, nada poderiam fazer, quando se soube na comunidade cigana algo que veio aliviar principalmente os agentes da GNR que já não sabiam o que fazer com eles: o rapaz não era cigano, mas tinha um "artemove"... Sendo assim...

    A propósito deste primeiro episódio deste programa, ouvi alguém que disse :"A Isabel dos Santos não tem cor".... Ah, pois é... É por aí

    Abraço e bom fim de semana :)

    ResponderEliminar
  6. Resolvi, neste post especifico, não responder individualmente a cada pessoa. Neste post apenas "oiço" quem está desse lado. As minhas respostas aqui só fariam ruído.

    1. O meu obrigada ao caro Observador pela franqueza que, na minha opinião, é sempre bem-vinda.
    2. O meu obrigada à Elvira por ter acrescentado bastante e, também, pela sinceridade na parte final.
    3. O meu obrigada também à Fatyly, não esperaria outro tipo de comentário, já a conheço um bocadinho, e sim, concordo consigo, aquela debate a seguir, na SIC Noticias, foi muito, mesmo muito, pobrezinho. Merecia um debate a sério, visto que o assunto é muito sério. O racismo existe em Portugal, com certeza que existe, muitas vezes disfarçado de politicamente correcto (ah e tal, eu?!? eu não sou racista... porque convém não admitir que se é, aquilo pode correr muito mal) e não me parece que vá lá com programas assim, embora ache que se tem que começar por algum lado.
    4. Deixo também o meu muito obrigada ao AC, compreendo muito bem o que escreveu, não se preocupe. E obrigada pela sua paciência em me ler, sei que por vezes escrevo cada disparate que... valha-me Deus :)))

    5. O meu obrigada à São também.
    No entanto coloco aqui um parêntesis no sentido de dizer à São que não pode falar pelas outras pessoas, eu não tenho qualquer preconceito em relação à redes sociais, eu uso as redes sociais, o que não gosto é da obsessão que existe em relação às redes sociais em detrimento do que é a vida propriamente dita, apenas isso. A vida é para ser vivida lá fora, os computadores com as suas redes sociais devem ser unicamente um complemento. As depressões aumentaram, o isolamento aumentou, existe cada vez mais dificuldade nos relacionamentos cara a cara, olhos nos olhos, a cobardia aumentou, por detrás de um computador persegue-se, insulta-se, ameaça-se gente, é neste sentido que não sou a favor das redes sociais. E se tivesse filhos acredite que a coisa seria muito rígida, provavelmente fugiria muita coisa ao meu controlo, com certeza que sim, tenho noção disso, mas mesmo assim não deixava um filho menor sozinho a navegar na net. Se estou bastante informada e sei o que se passa nas redes sociais, logo seria natural que o fizesse. Também não sinto qualquer necessidade de informar o mundo em geral de cada passo que dou, a partir do momento em que o faço sou controlada pelos outros e perco a mão na minha própria vida... São, é domingo, está um sol estupendo lá fora, precisamos de boas energias, e as redes sociais com alguns ataques que nos apanham desprevenidos podem estragar esses mesmos dias de sol, é que as pessoas não nos conhecem de lado algum, mas acham que sim, acabam por falar de coisas que desconhecem e... olhe, eu cá sorriu, encolho os ombros e vou à minha vida...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Maria... Reparo que usa muitas vezes a expressão "Facecoiso", isto demonstra um certo desprezo, na minha forma de ver (e de ler) as coisas...

      Também há que ver uma questão : as pessoas estão cada vez mais longe, há muita emigração, muita deslocação dentro do país.... As redes sociais têm esse lado também bom de aproximar quem está longe :). Eu procuro ver as coisas pelo lado positivo... Sempre houve muita emigração... Há 40 ou 50 anos atrás, as pessoas esperavam ansiosamente por uma carta do filho que estava em França, podia ser que mandasse uma fotografia dos netos, que devian estar grandes... As cartas tardaram em chegar... Há 20 anos atrás já havia muitos telefones, as pessoas esoeravam pelo Domingo para falar com os filhos, porque lá ao Domingo era mais barato, mas mesmo assim não podiam falar muito tempo, porque ainda contava ao minuto... Hoje em dia, uma pessoa emigra e fala con os pais, irmãos, tios, amigos pelo Skype, pelo messenger, por email, faz video-chamadas, mostra fotografias (não tem que ser de forma pública)... Acho que isso é positivo :)

      Pessoas que moram relativamente próximas, podem encontrar-se às vezes... Normalmente num café... A pessoa sai de casa já está a gastar dinheiro... Assim, conversa-se cada um na sua casa e não se paga nada por isso (paga-se à operadora, mas é o valor fixo).

      Hoje em dia, já é difícil viver sem net... Eu neste momento estou a tirar um curso de formação de Tecnico de Logística, o curso vai durar cerca de um ano, vai aumentar as minhas qualificações profissionais... Os formadores já não fornecem fotocópias, já não entregam manuais "físicos"... Enviam tudo por email para os formandos, para o email da turma ou para o email pessoal de cada um... Quem quiser que imprima... Eu estou a ver-me um pouco às aranhas porque não tenho computador, mas vou tendo acesso aos manuais pelo tablet e pelo telemóvel... Se um dia quiser, posso ir à biblioteca e imprimir tudo, mas posso estudar também por aqui, em PDF...

      Em relação ao preconceito em si, acho que percebeu aquela de a Isabel dos Santos não ter cor... Ou seja, como se trata de uma empresária poderosa, já não interessa absolutamente nada se é negra ou se é branca, ou amarela ou às riscas... Logo, não é propriamente a cor, mas outras coisas... Como em Portugal, a maioria dos negros /de cor são mais pobres do que os brancos, pelo menos, tradicionalmente é assim, acho que é mais por aí...

      Já agora, eu sinceramente não sei se é melhor usar a expressão negro ou pessoa de cor... Há quem diga que é melhor dizer "de cor" porque é mais suave... Mas há pessoas que detestam que digam que elas são "de cor", porque dizer "de cor" é usar um enfemismo... Ora, um eufemismo só se usa quando se quer aligeirar uma realidade /situação negativa... Ora, ao se dizer "de cor" estamos indirectamente a dizer que ser negro é negativo :)

      Abraço :

      Eliminar