sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Questionar não deveria ser um problema

Há mais ou menos um ano tive uma conversa com uma senhora que é Testemunha de Jeová. A conversa resvalou para um lado que sempre me suscitou grande curiosidade, esgrimir a possibilidade da existência de vida para além da morte. Não leio nada sobre o assunto, a minha curiosidade não é nesse sentido, é mais no sentido de gostar de ouvir as pessoas. Pessoas comuns. As pessoas e as suas crenças.

Esta senhora queria porque queria convencer-me que ser Testemunha de Jeová é que era. Eu, que sei muito bem o que quero nesta matéria - nesta pelo menos sei, noutras nem tanto - decidi assim como nem quer a coisa confrontar a senhora com algumas perguntas. Acho que disparei devagarinho, mas tenho para mim que a senhora se sentiu levemente atingida. Penso que tenha sido levemente, porque eu, não sei se já disse, disparei devagarinho. O que me levou a usar o termo atingida neste contexto, foi a sua expressão no final da conversa, a expressão denunciava que eu teria encetado um caminho para o qual não se sentia preparada para caminhar. Vai na volta eram só os sapatos pouco adequados para aquele caminho. Ou vai na volta era  mesmo o caminho.

A conversa começou com umas palavras inofensivas da minha parte, confidenciava eu à senhora que achava que a minha mãe continuava a tomar conta do seu jardim, embora já tivesse partido definitivamente. O rosto dela transfigurou-se subitamente e diz-me como que a disfarçar o seu incómodo:

Senhora testemunha: É impossível, quando morremos, morremos. Só no dia do julgamento é que voltamos todos à terra.

Eu, com um ponto de interrogação na testa: Voltamos todos como? (enquanto pensava de mim para mim que, se voltamos, seja em que dia for, é porque não morremos de facto)... Como é que a terra consegue suportar tamanho peso? É que se voltarmos todos isto é capaz de não aguentar. 
(juro que não estava a brincar com a senhora, bom, se calhar estava só um bocadinho, mas um bocadinho mesmo mesmo pequeno, de tão ténue nem sequer a bocadinho chegava)

Senhora testemunha: Não voltamos todos, todos, só alguns serão escolhidos para voltar.
(lá conseguiu de forma meio atabalhoada encontrar uma saída meio tosca para a minha pergunta, pergunta essa que a apanhou de surpresa).

Eu, com um ponto de interrogação na testa: Compreendo... (não compreendi nada, no entanto precisava de continuar, tentar encontrar um raio de luz por entre toda aquela vegetação encefálica )... mas qual é exactamente o critério usado para escolher esta pessoa, e não aquela, para voltar?

Percebi pelo o ar de desenho animado da senhora, aquele ar de um boneco muito vermelho com fumo a sair pelos ouvidos, que aquela era a altura exacta para sair dali rapidamente levando a tiracolo uma desculpa meio esfarrapada.

Eu, já sem ponto de interrogação na testa: Gostei muito de conversar com a senhora, mas agora tenho que ir regar o jardim, isto hoje esteve um dia de calor infernal.

(tomara lembrar-me se esta conversa aconteceu no Verão ou no Inverno...)
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Por vezes dou comigo a pensar que as pessoas não estão preparadas para serem questionadas.
Estão habituadas a colocar um produto à frente e, alguns, muitos, compram-no às cegas.
Um caminhar às escuras, portanto.

9 comentários :

  1. Ai, Maria... Neste momento da minha vida estou mesmo sem paciência para isso, mas também já tive momentos em que perdi algum tempo com testemunhas de Jeová... Olhe que é preciso paciência! Elas contradizem-se tanto, mas tanto, que chega a dar vontade de rir... Eu não percebo como é que elas conseguem convencer os fiéis ( não sei se lhes cham assim) a "entrarem na delas" ... Não querendo desrespeitar ninguém, mas tem que ser pessoas muito fracas de espírito. Porque o discurso delas é tão pouco coerente, elas contradizem-se tanto, mas tanto, que começam o discurso em alhos e acabam em bugalhos! Sinceramente, tenho que estar mesmo em fases muito calmas da minha vida para perder algum tempo com essas senhoras ( também há senhores, mas parece que são em menor número... Ou então, estão em posições mais altas e são mais as mulheres que andam pelas portas)

    Haja paciencia para pessoas dessa religião... Se de que aquilo é religião

    Boa semana de Carnaval :)

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    1. Ahahahahah, achei tanta piada a este seu comentário. Começa com religião e termina em Carnaval :))))

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    2. Se calhar foi propositado, Maria... Ou pensa que só as presidenciais estão relacionadas com ele? :D.


      Por acaso, uma coisa que me intriga é que pessoas que já foram testemunha de Jeová e que abandonaram "a coisa" regra geral não suportam ouvir falar delas sequer... Abominam... Não é como uma pessoa que diz "eu já fui católica, mas..."... Não, elas têm aversão, mesmo... Nem podem ouvir falar sequer... Porque será?

      :)

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  2. Revi-me nas tuas questões ó se me revi, mas sou muito mais curiosa nessas coisas.Tive vizinhos por cima,no mesmo andar do meu e por debaixo que eram testemunhas de Jeová. Hoje são mais eles do que elas e os filhos que nenhum se fixou aqui, excepto o de cima que enfim, deixou a religião, critica o pai, mas ainda vive à custa dele.

    No prédio, eram 15 miúdos contando com as minhas. Sempre nos respeitámos uns aos outros e havia de facto a tal vizinhança saudável, muito saudável. Por vezes conversávamos sobre o assunto, mas fiquei igualmente sem resposta a muitas questões que punha. Havia uma coisa em comum comigo...é que aflitos com algo grave pediam socorro e disparavam ao mesmo tempo "que Deus me acuda". Nunca gozei com isso porque sim!

    Certo dia as minhas filhas andavam um bocado incomodadas. Ao falar com elas fiquei a saber que "iria haver um terramoto e que só se salvariam os testemunhas de Jeová" porque tinham uma protecção verdadeira e real. Foi simples tirar o medo...disse-lhe apenas isto: Se isso vier a acontecer, ora vamos lá a pensar, estamos safas. Estamos mãe? Claro que sim, somos rodeados por eles, somos amigos deles e vocês brincam com A, B, C, D... moramos no mesmo prédio estamos protegidas fora e dentro de casa e se o prédio cair eles também caem, certo? Rabetas como eram falaram com todo resto da canalha e os filhos deles responderam que sim, quem trata, respeita e é amigo é igualmente salvo.

    Sempre que me lembro desta cena (de muitas) farto-me de rir e como conseguimos atenuar os "medos dos miúdos".

    Por aqui temos vários, quando me cumprimentam faço o mesmo e recebo "o papel ou revista" porque não me caí a mão com tal gesto. Batem-me à porta e como os conheço de tanto os ver na rua, abro, recebo, digo que os respeito, mas eles na deles e eu na minha.

    Embora hoje já não andem tanto nos prédios talvez porque a recepção por vezes é tão má, não sei!

    Questionar sempre, mas o mal do mundo é questionar de arma na mão como se fossem donos de toda a verdade.

    O meu pai falava muito nisso, católico a 100% e dizia-me sempre: deixa lá filha que quando eu partir virei dizer-te como é. Pedi-lhe apenas e porque tinha o mesmo horário dele, que não viesse entre as 21h,30 e as 6h :))))

    Já lá vão quase 16 anos e deve ser tão bom por lá que se distraiu e nunca mais me disse nada:)))

    Certo, certo é que por vezes sinto a presença do meu irmão João e do meu pai, mas não fisicamente...e acho que seja o meu pensamento a "arejar", mas que me faz sentir bem, lá isso faz!

    Vou almoçar, porque um camião TIR tem que levar combustível para voltar mais logo e aproveitar a "aberturinha no SOS-AVÓ e MÃE!

    Uma beijoca

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    1. Olhe que boa explicação que deu às sua filhas. Boa e eficaz. Quem sabe, sabe :))

      Esta sua parte do comentário é de ir às lágrimas, que é como quem diz, só dá para rir em bom:
      "O meu pai falava muito nisso, católico a 100% e dizia-me sempre: deixa lá filha que quando eu partir virei dizer-te como é. Pedi-lhe apenas e porque tinha o mesmo horário dele, que não viesse entre as 21h,30 e as 6h :))))"... ahahahahaha. Muito bom, mas é :DD

      O meu pai tem uma que me envergonhou de cima, a baixo.. Passo a contar: existiam duas pessoas, Testemunhas de Jeová, que estavam sempre a bater-lhe à porta, um dia, já cansado de não saber que mais desculpas dar, resolveu responder que o ajudariam bastante se, na próxima vez que lhe batessem à porta trouxessem um balde, uma esfregona, um pano do pó, um aspirador... a verdade é que nunca mais apareceram por lá. Pernas para que te quero :))))))))

      Bom almoço, Fatyly :)

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  3. Respeito toda e qualquer religião, desde que respeite a individualidade dos outros. Tão só.

    Maria, não preciso de testemunhas para atestar que lhe desejo um bom dia :)

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    1. O problema, AC, é que nem todos respeitam a tal "individualidade dos outros". Querem fazer verdadeiras lavagens ao cérebro das outras pessoas. E não reagem bem quando confrontadas. Pareceu-me ser o caso desta senhora.

      Tenha também um bom dia :)

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  4. Tive uma vizinha em Moçambique que era testemunha de Jeová. Vivíamos no mesmo prédio e nesse tempo, final dos anos 60, as pessoas tinham mais convivência com os vizinhos, não era como hoje que nem sabemos quem mora no mesmo prédio. Até porque não havia TV, nem PCS, internetes e outras coisas que na actualidade retiram as pessoas do convívio umas com as outras. Tanto o marido dela, quanto o meu eram da Marinha e estavam em comissão, como aliás os outros 4 casais. Então todas as noites nos reuníamos na casa de um para um jogo de cartas. Claro que nunca fomos a casa dela porque ela dizia que o jogo era uma invenção do demónio, que íamos todos arder no inferno etc. etc. Engraçado, que o marido dizia que ela era maluca e que não ligássemos.
    Um abraço

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    1. O marido da senhora era o próprio a dizer que a mulher era maluca?!? É hilariante. Espero que a dita senhora fosse surda dos dois ouvidinhos, senão o casamento era bem capaz de entrar em queda :))

      Um abraço para si também, Elvira.

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