segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

(falar de tudo e de coisa nenhuma)


Quando cheguei de armas e bagagens à blogosfera porque achava que uma vila cheia de pessoas que se alimentavam de letras, só podia ser uma vila inspiradora para se morar, ainda estava longe de perceber que até nas vilas aparentemente soalheiras se escondem pessoas que usam as letras como armas de arremesso em mau. 

Eu que gosto de letras e por vezes as polvilho, propositadamente, com uma pitada a mais de sal, outras deixo-as ali a marinar num caldo meio insosso, sei que isso de inspirar pessoas não é fácil. Ainda se torna mais difícil quando essa não é a intenção. A minha, claramente, não é. 

Escrever é um dos exercícios mais inspiradores que alguém pode ter, só que é um escrever honesto, um escrever que não cobra nada, que não incita ao ódio, aos conflitos, apenas pede uma opinião e por isso opina, ainda que muitos insistam que as mordaças é que é. Gosto de conversar com outros, escrevendo, só que, de há algum tempo para cá que esta minha forma de pensar se tem vindo a alterar. Começo a achar que um blog que tem a sua caixa de comentários fechada, talvez seja um blog mais honesto. É um blog que não pede aplausos, que não pede aprovações, que não cobra, nem é cobrado. É um blog mais livre. Não tenho grandes vícios, a bem dizer acho que não tenho nenhum que se possa catalogar por vício, o único que me vem à ideia assim de repente é o vício de gostar da sensação de liberdade. 

E na escrita o vício da liberdade continua. Ultimamente dou comigo a pensar duas vezes antes de escrever, penso que posso de alguma forma ferir susceptibilidades. Que me apetece naquele dia escrever amarelo e alguém o queira desviar para azul, intencionalmente. Que não posso dizer que me sinto feliz, porque do outro lado existe alguém infeliz e eu não tenho esse direito. Que não posso dizer em quem votei, principalmente se votei em Marcelo Rebelo de Sousa, uma pessoa que votou em Marcelo Rebelo de Sousa só pode ser uma atrasada mental. Que não posso dizer se sou de esquerda, de direita ou do centro (rectificando, só posso dizer que sou de esquerda) as pessoas de esquerda, principalmente daquela esquerda mais radical, trucidam todo e qualquer ser que não seja "vermelho". Que não posso dizer que comprei um perfume, embora tenha sido comprado com o fruto do meu trabalho, porque alguém irá dizer que muitos não têm comida, como é que alguém se dá ao desplante de comprar perfumes!?! Que não posso comprar um bilhete para um concerto, estamos em crise e ninguém pode comprar nada, aquilo parece mal, ou então convém esconder o mais possível. Que não posso escrever textos com humor, porque neste momento muita gente está a sofrer e é uma tremenda falta de respeito brincar com o sofrimento dos outros. Como se escrever textos com algum humor fosse brincar com o sofrimento dos outros. Lá está, vivemos num país com demasiada gente a levar-se a sério, essa talvez seja a razão de não conseguirmos dar passos maiores. 

Neste momento o que está a dar é ser dissimulado. As pessoas podem ser xenófobas, racistas, homofóbicas, ser de esquerda e comprar caviar, mas uma pessoa põe um manto por cima e finge que não o é, sendo. 

2 comentários :

  1. Começo por responder aos teus posts atrasados que estavam fechado e agora abertos.

    Faço, porque como sabes li tudo e não tinha como comentar. Respeitei a tua opção diferente da minha e é precisamente neste pequenino ponto que vou ao cerne das tuas palavras.

    Escreves muito bem e de forma muito clara e já me apercebi há muito que "és presa por ter cão ou não ter", mas Maria é o teu olhar e sentir sobre ou das coisas que mais interessa. Valorizar o tal "cerne que falei" discordando é que é o caminho. Claro está que as criticas e discordâncias são bem vindas quando expostas com educação, mas pelo menos para mim, valorizar os "ataques anónimos e ou dissimulados" é um desgaste de energia bem mais empregue noutras coisas pessoais.

    Quer aqui, quer fora daqui há quem seja o que descreves, mas há séculos e com o tempo irás perceber que nada é melhor na vida que "tirar o pipo da panela de pressão e deixá-la ir pelos ares" ou seja, tenho mais com que me preocupar do que surfar a onda de gente mesquinha. Até na família existem exemplares desses.

    Sempre houve, há e haverá peças dessas, xenófobas etc e tal, mal educadas, mal formadas, e mudar posturas e até culturas demoram séculos. Como não viverei séculos, deixo de dar importância ao que não merece e vamos em frente.

    É a minha opinião, vale o que vale mas é a mesma que mantenho fora daqui!

    Um bom dia

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    1. Fatyly, muito obrigada por este seu comentário, foi exactamente por me aperceber que existia por aqui gente com muito valor, que tenho sorte nesse sentido, gente desse lado que se dá ao trabalho de responder desta forma, sem ser só para picar o ponto, que voltei atrás na minha decisão, tenho muito a aprender com o que leio, com as opiniões dos que aqui a deixam. Portanto sim, este blog só faz sentido (como disse o AC num post lá mais atrás) quando é aberto à opinião dos outros - sejam elas boas ou nem por isso - e quando dou resposta a essas mesmas opiniões, ainda que possam não ir ao encontro das mesmas. Se pudesse voltar atrás mudaria o nome do blog para: "a conversar é que a gente lá se vai entendendo"... ou, "as conversas são como cerejas às pintinhas amarelas"... ou, simplesmente, "conversas à mesa de um blog"....

      Fatyly, eu não consigo escrever só para agradar aos outros, não sou assim na vida real, portanto, seria estranho sê-lo, por aqui, nesta vida virtual. O que espero das pessoas que se dão ao trabalho de comentar (porque quer se queira quer não, rouba nem que seja cinco minutos) é que digam o que pensam, sem medos. Não é insultar, deitar abaixo, arrasar, humilhar, isso não é de valor, é simplesmente dizer o que vai na alma. Com ironias, sem ironias, não interessa, sou uma pessoa que gosta de ouvir os outros, de entrar na cabeça dos outros. É fascinante essa parte do ser humano. Pelo menos para mim, é.

      Esta sua expressão ("tirar o pipo da panela de pressão e deixá-la ir pelos ares") para além de engraçada, vai ao encontro do que estou a tentar fazer neste momento, a tal mudança que se quer urgente. A não ser assim sou bem capaz de terminar mal. Mal no sentido de que a minha saúde é capaz de ir abaixo. Estou a desacelerar e a tentar passar por cima de tudo aquilo que mexe comigo. A ver vamos se consigo.

      Tenha também um bom dia.

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