quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Agora que já todos falaram de David Bowie, se me permitem, tranquilamente (ou talvez não), agora falo eu

A única coisa que me leva a falar de David Bowie é a sua luta contra o cancro. Porque sei que é uma batalha muita dura e à qual muitos não conseguem sobreviver. Algumas pessoas que por aqui passam saberão, porque falei do assunto na primeira fase deste meu blog, que perdi a minha mãe com a idade de 58 anos de cancro. Cancro do pulmão. E não, não fumava. Não sei se acabei de dizer um grande disparate ao associar cancro do pulmão a tabaco... o que nunca disse a ninguém é que durante um ano, talvez mais, a minha mãe mal conseguia falar porque a tosse era imensa. Vi a minha mãe definhar dia após dia. Vi a aflição dela no olhar. Vi o chorar constante e diário porque queria viver e algo a impedia de o fazer. Vi a beleza a desaparecer. Vi o olhar a perder o brilho. Vi o emagrecimento brutal. Assisti à maior crueldade a que um ser humano é sujeito. E vi nos seus últimos dias o olhar vazio, o olhar de quem já lá não está. Esse é talvez o maior golpe que a vida nos pode dar, é ver a pessoa que mais amamos ali, à nossa frente, e nós sem conseguirmos dar a mão para ajudar.

Foi a partir daquele momento que eu mudei radicalmente. Foi a partir daquele momento que aprendi a  ser selectiva e a não dar importância àquilo que não tem importância. a quem não tem importância. Tornei-me muito mais forte depois da morte da minha mãe. Infelizmente a vida para nos dar umas coisas, tira-nos outras. Essa é a parte mais difícil de aceitar nisto de viver. Essa é a aprendizagem pela qual ninguém deveria passar. 

Gostaria apenas que as pessoas não banalizassem esta doença, o cancro, só com a intenção de ter visibilidade. Se dantes existia um género de medo de proferir a palavra cancro, agora fala-se da doença com alguma leviandade. As redes sociais neste aspecto, penso eu, não ajudam muito. Por vezes fala-se do assunto como se fala da compra de um par de sapatos, de um perfume, de um vestido novo, de um jogo de futebol... é apenas mais um assunto para falar. Não pode acontecer. Não deve acontecer. A dignidade acima de tudo. 

Em nota final resta-me dizer que não sou fã de David Bowie nem da sua música, nunca o fui, não serei agora que morreu, reconheço o valor que teve no panorama musical, mas não me sinto na obrigação de me juntar aos que sempre foram seus fãs genuínos e, aos outros, aqueles que por oportunismo ou com medo de serem crucificados por terem uma opinião diferente se juntam à notícia do momento. Não gosto de ajuntamentos, gosto de pessoas que dizem o que têm a dizer sem medos.