quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O azul dos teus olhos perdeu-se

Lembro-me dele, cada vez menos, é bem verdade, no entanto continuo a lembrar-me dele.


Estivemos juntos cerca de sete anos. Penso que estivemos juntos mas, na verdade, não estivemos. Existiu uma mãe pelo meio, daquelas mães que não querem perder os filhos e tudo fazem para que tal coisa nunca venha a acontecer. Mal percebem estas mães que estão a destruir a possibilidade de que um filho possa de alguma forma ser feliz, pode não o ser o tempo todo, mas sê-lo-à de quando em vez. 

Existiam dois filhos, eu engracei com o mais velho, o que tinha olhos azuis. Mais velho com trinta e poucos anos. A minha queda por homens nunca passou pela cor dos olhos, passa sempre pelo sorriso, pelo sentido de humor, pela capacidade de encetar uma conversa, pela alegria de viver, pela forma como se desenrola com as pequenas coisas da vida. As grandes não me interessam para nada - pelo menos no inicio - tenho sempre a sensação que, se se consegue desenrolar numa estrada à noite onde de repente se vai parar por acaso e, como se isso não bastasse se fura um pneu e, como se isso não bastasse não existe um sobressalente e, como se isso não bastasse a bateria do telemóvel vai à vida e, como se isso não bastasse está um frio desgraçado e, como se isso não bastasse veste uma simples t-shirt e, mesmo assim, o homem dá a volta sem entrar em stress, é um homem que já me conquistou. Neste aspecto ele não me conquistou, entrava em stress até com um simples estacionar o carro, eu era como que obrigada a exercer a função de co-piloto, se corresse mal levava em cima com as culpas de não ser tão boa quanto a mãe nisto de ser co-piloto. Ou como a ex-namorada que pelos vistos passou a ex e não se sabe muito bem porquê já que era muito boa a dar instruções. Eu era a actual e tinha a obrigação de ser melhor. Dizia ele. Cobrava ele. O problema é que eu não estava interessada em ser melhor, só queria ser eu. O problema é que eu não vi que um homem não vale só pelos seus olhos azuis e pelo encantamento que essa parte possa ter. O problema é que eu não vi, ou não quis ver, que um homem que sempre viveu com a mãe e a coisa já ronda os trinta e tal anos, é um homem para quem não se deve olhar duas vezes. Embora a cor azul dos olhos nos seduza.

Aprendi a lição. Aprendi sobretudo a fazer uma pergunta assim à laia de quem não quer a coisa: e então, costumas visitar a tua mãe ao fim-de-semana?...

6 comentários :

  1. Como é hábito, vou ser sincero. Não acredito que o tal homem de olhos azuis não mexa, ainda, consigo. Por uma simples razão: coisa que não mexa passa à história e não se fala mais nisso.
    No texto, a Maria deixa uma frase que sustenta a minha tese. É esta: "Lembro-me dele, cada vez menos, é bem verdade, no entanto continuo a lembrar-me dele".
    Quem continua a lembrar-se de alguém, demonstra que nem que seja por um momento, esse alguém está vivo e de uma ou de outra forma, está ali, quem sabe pronto a um reatamento com promessas.
    Nem sempre as mães são as culpadas. Por vezes, é o filho que ainda não conseguiu cortar o cordão umbelical e quer ter a mãezinha ali à mão de semear.
    Seja como for, homem que não consiga libertar-se da mãe ou que não a coloque no seu lugar, é homem com pouco futuro.
    O mesmo acontece com as mulheres. E quando acontece, é tudo muito pior.

    Eu avisei que ia ser sincero, não foi?

    Um beijinho e esqueça lá isso porque a vida é em frente, com os pés bem assentes no chão.

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    1. Claro que mexe, caro Observador, não se aguenta tudo o que aguentei, durante sete anos, se não for um homem que deixa marcas. E deixando marcas é mais difícil esquecer. Ainda hoje dou comigo a pensar no porquê de me ter sujeitado a tanta coisa. Não precisava. Tinha trabalho, ganhava razoavelmente bem, tinha casa só minha, pagava as minhas contas, não dependia de ninguém, nunca tive problemas nisso de arranjar namorados, podia fazer o que bem entendesse e, não entendo o ter permanecido numa coisa que quase me destruiu. Se lhe fosse contar do que é que mães destas são capazes para afastar os filhos de namoradas, custar-lhe-ia a acreditar. No inicio até pensei que fosse só comigo, entretanto, com o passar do tempo, começo a conhecer o historial da senhora em questão, a forma como minava todas as relações dos filhos, devia ter saído dali para fora rapidamente, só que pensei que o filho valeria a pena. Não valeu. Perdi sete preciosos anos. Hoje tenho a certeza disso.

      Existe uma parte do seu comentário que é a pura das verdades: "o filho que ainda não conseguiu cortar o cordão umbilical e quer ter a mãezinha ali à mão de semear", isso a juntar a uma mãe que não quer perder o filho para outra mulher, que não percebe que as relações são diferentes, é do mais perigoso, do mais traumatizante que uma mulher pode passar. Eu passei. Ainda não recuperei.
      ...

      Fez bem em ser sincero. Não é preciso avisar, seja sempre :)

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  2. Tens toda a razão neste teu desabafo porque apesar de ser passado, nunca se esquece.

    Nunca me meti na vida das filhas e dos genros. Sempre as avisei que quando saíssem daqui teriam sempre uma ilha onde ancorar o barco...de resto? Não, porque sim, há mães/sogras como a que descreves e meninos homens da mamã.

    Jamais opino, não me interessa saber o que ganham, o que gastam, por onde andam, vasculhar gavetas, jamais em tempo algum etc, etc...Estou sempre presente quando precisam e o mesmo acontece quando eu preciso.

    Da parte da mais velha só eu estou viva e da parte da mais nova, os meus compadres são excelentes pessoas e procedem como eu.

    Força Maria e este post serve para alertar quem está a ser destruído - homem e mulher - e não se dá conta.

    Bom serão

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    1. Já fiz o luto, Fatyly, afinal tudo isto não aconteceu assim há tanto tempo. Daí ter sido também importante o recomeçar este blog, muitos dos post iniciais contavam situações com ele. Apaguei tudo. Quando criei este blog ainda estava naquela relação.

      Aos 26 anos já era uma senhora muito crescida e divorciada. Entretanto deixei passar um tempo e entro nesta relação, nem me passava pela cabeça o pesadelo que aí vinha. Bom, pelo menos deu para aprender alguma coisa. Ó se deu. Agora tenho um receio absurdo quando me falam em mães de namorados, acho que essa parte não me vai abandonar nunca. Tenho para mim que muitas mulheres já viveram situações idênticas...

      Fatyly, ela controlava tudo, nem jantar num sábado à noite conseguíamos fazer descansados, telefonava de 5 em 5 minutos a perguntar quando é que ele chegava a casa. Fazia chantagem com ele para a levar nos nossos fins-de-semana a dois, onde era suposto isso mesmo, ser um fim-de-semana... a dois. E isto, apesar de tudo, é a parte menos grave da situação, o resto fica comigo.

      Para si também, uma boa noite.

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  3. Nunca nos esquecemos de algo que nos marcou, para o melhor e para o pior, pretender o contrário seria tentar negar aquilo que fez de nós o que somos. A vida continua, e ainda bem, o que não nos mata só nos fortalece. E assim, Maria, às vezes cantando, outra vezes chorando, nos vamos construindo. Que mais dizer? Apenas que, e sem qualquer pretensiosismo, as metas se prolongam para lá do que julgamos território domável, a vida é imensamente mais do que isso. Assim tenhamos arcaboiço para a enfrentar, por vezes mesmo desafiar. No fundo apenas estou a tentar defender a apologia da dignidade, do tentar ser feliz...

    Um beijinho :)

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    1. AC, esta foi, talvez, uma das piores fases da minha. Eu que nem sou muito de me prender facilmente... Costumo fazer um exercício muito simples comigo própria depois de um certo tempo com alguém, tento imaginar-me a partilhar o dia-a-dia com essa pessoa, se não o conseguir fazer é para esquecer, saio, se me aperceber que sim, que conseguia até estar ao lado da pessoa naquelas rotinas chatas, então é porque é a sério. Era mesmo a sério. Foi pena tudo o que aconteceu. No entanto sei que um dia destes vai acontecer uma esquina qualquer... Isso é mais do que certo.

      Tenho para mim que mães destas têm um problema grave qualquer. Não desculpa o facto de um homem com aquela idade continuar a viver com a mãe mas, tendo em conta o que vivi é... estranho. Só mais tarde percebi que a namorada anterior tinha passado por algo semelhante, com ela ainda foi mais grave (penso eu) já existia uma casa comprada. Abandonou tudo. Vá-se lá saber o que leva alguém a abandonar um projecto de vida. Acho que depois do que passei, imagino.

      Aceite também um beijinho.

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