sábado, 26 de dezembro de 2015

Feitiços (é não ligar à overdose de letras)

Ontem foi dia de cinema cá por casa. Foi de zapping em zapping que se estacionou num canal que teve a capacidade de prender a atenção. Não pelo canal que, admito, não me lembro qual era - era um daqueles de filmes/séries - lembro-me é que nesse mesmo canal ia começar um filme. Antes de começar um filme lá vou eu ver a descrição do mesmo (um grande bem-haja à NOS por ter esta opção que nos permite ver se o enredo é apelativo ou nem por isso). A descrição era interessante, os protagonistas não são dos meus preferidos, mas mesmo assim não tem como não arriscar. A mensagem do filme era, também ela, à primeira vista, interessante. Chamava-se Feitiço do Tempo.

Bom, tratava-se da história de um meteorologista arrogante (arrogante, é favor!) que num dia em que se desloca a uma localidade para fazer a cobertura de uma notícia fica preso nesse mesmo dia. Ou seja, fica preso no tempo. O mesmo dia recomeça sempre às 6:00. Como se não existisse amanhã. Como se não existisse futuro. O meteorologista vive o mesmo dia vezes sem conta. No início não percebe o que se passa, entretanto aos poucos e poucos cai em si e sabe que está aprisionado. Começa a tentar tirar algum partido da situação sabendo de antemão que na manhã seguinte tudo volta ao ponto zero. Como se a vida passasse diariamente uma borracha e lhe dissesse: tenta reescrever o teu dia novamente, ainda não foi desta que acertaste... Engraçado que a situação chega a um ponto em que ele resolve comer tudo aquilo que quer, entupindo-se de bolos e todas aquelas coisas que à partida evitava comer, fosse para não engordar muito, fosse por motivos de saúde (acho que desta parte muita gente gostaria de usufruir). Às tantas tenta suicidar-se de várias formas porque não aguenta viver tanta repetição do mesmo dia. Existem inúmeras situações pelo meio que valeriam a pena serem analisadas a pente fino, só que, tornar-se-ia demasiado cansativo.

Isto tudo para dizer que era muito bom que a todos fosse dada aquela possibilidade de repensar a vida. De limar arestas. De repetir até à exaustão o mesmo dia, até que, sozinhos, conseguíssemos perceber o que é necessário mudar e, não conseguindo perceber o que é necessário mudar para seguir em frente, a vida não nos desse chance de ter um futuro. Não nos mataria de um só tiro, a vida, matava-nos lentamente. A salvação estaria na mudança. Não numa mudança de faz de conta, mas numa mudança verdadeira. A mudança que vai de dentro para fora. 

Não é um grande filme, porque não é (isto na minha opinião) tem pontos em que aquilo roça a lamechice, mas bem espremido retira-se meio copo de sumo que, de tão forte, é um jeitoso murro nos queixos em estado líquido. Ou sólido.

"Let's look at the trailer" como diria Herman José.
(se apetecer ver o dito é clicar no azul do céu que se encontra entre aspas e se calhar não é por acaso)

(esta é a cena em que Bill Murray se entope de comida)

14 comentários :

  1. Pois... é muito estranho. Eu que penso que a rotina mata, nem conseguia imaginar uma coisa dessas.
    Um abraço e dias felizes

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também não consigo lidar muito bem com a rotina, embora saiba que algumas rotinas são necessárias para o equilibrio.

      Neste caso do filme, não sei se lhe chamaria rotina, não é assim tão simples. Partindo do principio que nos é dada a possibilidade de acordar amanhã, esse amanhã dá-nos a hipótese de alterar o dia se assim o entendermos, neste caso não, nada era alterado. A alteração não podia ser feita do exterior mas, do interior, digamos assim.

      Um abraço para si também, Elvira.

      Eliminar
  2. Olá, Maria... Eu acho que o dia do meu casamento devia de ter sido repetido até eu perceber que não me devia casar... Não teria nascido o meu filho? Hum... Talvez tivesse, porque nós quando nos casamos já vivíamos juntos há sete meses... Talvez eu não tivesse era aguentado tanto naquela ideia de "afinal, sou casada"... E não andaria agora com as burocracias do divórcio

    Abraço :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá São,

      Este seu comentário deixou-me dividida. E explico porquê. Aquela sua primeira frase: "acho que o dia do meu casamento devia de ter sido repetido até eu perceber que não me devia casar"... assim, isolada, e à primeira vista, dá para sorrir ou mesmo rir. Identifiquei-me de imediato. Também eu não teria casado se voltasse àquele dia fatal do sim. Mas eu sou uma mulher estranha e os meus sonhos nunca passaram por um casamento.

      Agora, o seu comentário lido no seu todo, é um pouco triste. É a realidade crua. Essa parte não dá, decididamente, para rir. No entanto acho que os filhos não são fruto de um casamentos, a minha ideia romântica passa por um filho ser fruto de um amor. O que é algo totalmente diferente.

      Abraço, São :)

      Eliminar
    2. Eheh... Foi feito assim um bocado à pressão, ou melhor, foi a primeira coisa que me veio à ideia quando li a ideia de repetir um dia... A sensação de repetir um erro tantas vezes até se perceber que se está a cometer um erro , e poder sempre voltar atrás, sem, ao mesmo tempo voltar, porque o dia anterior não existiu , e é aquele mesmo dia... Mas agora, pensando bem, se calhar era preferível repetir aquela tarde no Porto há pouco mais de um mês atrás... Mas caramba! Também se não havia de passar dali :D :D :D ... Agora quem soltou uma gargalhada fui eu... Oh pah... É que esta ideia, por mais que o filme não sejas nada de especial traz assunto de conversa. Falei de dois dias diferentes, sob um ponto de vista diferente :) ... Mas curiosamente com uma ideia comum: a de que um dia aquele dia passaria e o tempo avançaria :) ... No caso do casamento, quando eu percebesse que não devia casar... No caso da tarde no Porto... Pois... Também seria um tédio enorme se não... Passasse dali :D :D

      Eu também era assim :) ... Os meus sonhos de adolescente e depois jovem adulta não eram muito na ideia romântica do casamento... Pensava assim: se um dia encontrar um homem que eu ache que vale a pena... Porque não? Mas não tinha aquela ideia do casamento como via na praticamente totalidade das minhas amigas ,conhecidas, filhas de amigas dos meus país e por aí fora... A ideia de independência fascinava-me mais... Mas a vida trovou-me as voltas... Casei aos 31, quando já devia de ter juízo, mas fragilizada por uma situação triste...

      A ideia da maternidade que a Maria tem também era, no fundo, a minha... Mas tendo em conta que agora já existe AQUELE filho, que AQUELE MESMO filho não teria existido se não me tivesse cruzado um dia com o pai dele, já mexe com muitas emoções... Uma coisa é imaginar um filho no abstracto, outra é já existir efectivamente um filho. Mas é difícil explicar está ideia a quem não é mãe, porque eu fui mãe aos 34 e lembro-me de como era não ser mãe... Mas uma pessoa que nunca foi mãe não tem esse termo de comparação :)

      Abraço e continuação de Boas Festas :)

      Eliminar
    3. Um segundo comentário muito bom, este Gostei :)

      São, neste filme que trouxe até aqui e não querendo "spoilar" nada, embora já o fazendo, é que no final ele consegue sair daquela repetição do mesmo dia porque consegue aos poucos e poucos (com tanta repetição do mesmo dia, ainda que eu ache que às tantas já não era o mesmo) limar todas as arestas que existiam para limar, vai daí a vida dá-lhe uma segunda oportunidade. Dá-lhe o dia a seguinte. Dá-lhe um futuro. Dá... porque ele conquistou por mérito próprio. Resumindo: se calhar a vida não nos dá nada a não ser que a malta arregace as mangas. É capaz de ser por aí.

      Bom domingo, São :)

      Eliminar
  3. Tenho algumas rotinas, mas não consigo imaginar nem viver sempre na mesma rotina. Todos os dias luto para fugir delas como quem foge de um touro e quantas vezes a minha mãe me diz: mudas como o vento:)))) Não planeio "futuros", o máximo é uma semana e quero vencer e viver ao máximo...um dia de cada vez. Muitas rotinas são-nos impostas pela sociedade "do parece bem, parece mal, faz assim, não faças assim". Sou uma fura regras (com educação certo?) e faço sempre por mudar, caso contrário a vida, pelo menos para mim, perde o seu colorido, brilho, valor...

    Este teu post fez-me pensar. Não vi o filme (vi agora um pouco) e acho que seria muito bom que todos conseguíssemos "mudar" para melhor e claro que sim, a mudança tem de vir "de dentro para fora".

    Mas os mentores de uma sociedade, ou seja os que mandam e ou governam, com leis e mais leis da treta, leva-me a debruçar sobre as cadeias lotadas, os centros de internamento de "doenças mentais" e os consequentes tratamentos dentro e fora, institutos que dão abrigo às crianças maltratadas, às mulheres, etc, etc. e fico tremendamente agoniada e triste.

    Confinados a "rotinas" tão doentias, não há um trabalho para...e dou um pequeno exemplo: depois de cumprirem pena onde as rotinas de um cárcere é assustador por não haver o que referi, pouco, muito poucos em nada mudam e por vezes mudam para pior. Poderão alguma vez mudar "a rotina dos seus dias"?

    Vou para outra franja enorme de uma sociedade que enquanto a tiver, digo que é uma sociedade doente: os sem abrigo. Há quem opte por esse modo de ser e estar na vida, mas a maioria não.

    Existem excepções, claro que existem, mas uma sociedade evoluída, alegre, trabalhadora, educada...não se pode suster com "excepções".

    É a minha modesta opinião e como rotina vou tomar o pequeno almoço, dar outra volta a pé por caminho diferente e quando chegar a casa vou desmanchar a árvore de Natal e arrumar tudo numa caixa. Pois só devia fazer em..., mas aqui tens um exemplo real, apetece-me hoje e será hoje mesmo!

    Bom domingo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fatyly, eu acho que algumas rotinas são fundamentais para o nosso bom equilíbrio. Falo, por exemplo, de um horário para se levantar de manhã (existem pessoas que trabalham em casa e precisam na mesma de um horário), do banho matinal, da hora das refeições, esse tipo de rotinas, no meu entender, são benéficas. Benéficas no sentido de que nos traz alguma disciplina que é importante par dia-a-dia. Penso eu...

      Agora, aquelas coisa que as pessoas fazem todos os dias só porque sim, por comodismo, porque têm medo de fazer algo que fuja um pouco do "normal", porque não se querem dar ao trabalho de coisa nenhuma, esse tipo de rotinas só nos limita, fecha-nos os horizontes, não nos deixa crescer (e não falo de idade) para lado algum. Torna-nos seres muito obtusos.

      Permita-me que discorde um pouco consigo na parte do: "impostas pela sociedade "do parece bem, parece mal, faz assim, não faças assim". Se a malta souber o que quer e o que precisa só pesca dessa tal sociedade aquilo que lhe faz falta, ainda que tudo isto seja muito relativo. Tenho para mim que mesmo que a malta goste de comer com as mãos (isto é um exemplo) é sempre bom estar preparada para saber comer de garfo e faca ;)

      Vivemos numa sociedade que nos ilude e nos faz acreditar que a mudança se faz de fora para dentro. Ou seja, o que conta é a embalagem e não o conteúdo. Daí as embalagens serem cada vez mais vazias e quase todas pintadas da mesma cor. Não tarda o mundo deixa de ter cores e passa a usar uniforme. Já faltou mais.

      As cadeias estão lotadas. É uma verdade. Pois, mas essa parte cabe a cada um evitar. A Fatyly não está presa, pois não? Tenho para mim que não está porque sabe viver em sociedade, não mata, não rouba, não viola, não é corrupta, não atropela os outros em seu próprio benefício. Acho que dá para perceber onde quero chegar. Os presos têm que ter um mínimo de condições enquanto cumprem pena, mas daí a querer que um homem que viola uma criança, mata um ser humano sem ser em legítima defesa e por aí fora, viva numa prisão como se estivesse a passar férias, vai uma grande distância.

      Quanto à parte da saúde, da educação, esse seria um assunto que daria pano para mangas e aí sim, os senhores que mandam espalham-se ao comprido.
      ...

      Vai desmanchar a árvore de Natal???? Já??? Então ainda nem chegámos ao final do ano sequer! Xiiiiiii, coisa mais estranha :)))))))

      Tenha também um bom domingo, Fatyly, e um óptimo passeio.

      Eliminar
  4. Sou contra a rotina, esteja ela onde estiver. Percebo, no entanto, nem sempre ser possível evitá-la.

    O filme, cujo 'trailer' me foi dado rever, não passa de uma coisa medíocre que nem a presença de Bill Murray melhora.

    PS - Dá jeito ter o sistema Iris, da NOS.

    Um beijinho pós coisas natalícias :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não é medíocre, o filme, caro Observador. Está apenas a um grande distância de ser um grande filme, mas nada tem de medíocre, mais que não seja porque nos ajuda a pensar nisto de viver e como se vive. Principalmente aqueles que vivem muito pouco preocupados com os outros, afogados no seu próprio egoísmo. Diria que é um filme que se enquadra bastante nesta altura do ano em que algumas pessoas são, e outras fingem ser. Esta foi a ilação que tirei do "feitiço". Tirei, mas já devolvi :))))

      PS: Eu gosto bastante da amiga NOS. Ainda não me decepcionou. Nem com o atendimento, nem com os packs. São sempre muito simpáticos e acessíveis. Não, o post não é patrocinado (ahahahahah).

      Beijinho, caro Observador, bom domingo :)

      Eliminar
  5. Ja agora, Maria ... Pode dizer-me em que dia e em que canal passou esse filme? Agora fiquei curiosa ,gostava de dar uma olhada... Parece que foi na Sexta, não foi? Em que canal? Se for um canal que eu tenha, talvez ainda o apanhe :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A São está desatenta... ali no inicio do texto escrevi que não me lembro qual foi o canal. Por vezes a malta está a fazer zapping e estaciona num canal sem olhar onde está. Foi o caso. Gostaria de ajudar, mas realmente não me lembro. Não tarda estão a repetir. É só aguardar :)

      Eliminar
  6. Os presos têm que ter um mínimo de condições enquanto cumprem pena, mas daí a querer que um homem que viola uma criança, mata um ser humano sem ser em legítima defesa e por aí fora, viva numa prisão como se estivesse a passar férias, vai uma grande distância.
    ................

    Claro que sim se o fizeram deveriam em muitos casos apanhar a pena máxima e sem direito a precárias. O que eu quis dizer é precisamente o que referes e que rematas "o viver numa prisão como se estivessem de férias", e é nisso que me debato e muito, deveriam sim, trabalharem no duro de sol a sol, a limparem matas, a fazerem mil coisas porque elas existem, em vez de verem televisão, recreio, comerem e dormirem. O que impera nessa rotina? O "ócio" e com isso jamais alguém sairá com vontade de mudança.

    Quando acaba a pena, vêm com mais vícios e ideias macabras do com que entraram.

    Foi nessa base!

    Desculpa se não me fiz entender

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nada a acrescentar, a Fatyly neste seu comentário disse tudo. Assino por baixo.

      (não tem que pedir desculpa, gosto que as pessoas digam o que bem entendem, a isso chama-se interagir, posso não concordar, se assim for digo, trocar opiniões ainda que as mesmas sejam opostas é sempre saudável)

      Tenha uma boa noite, Fatyly :)

      Eliminar