terça-feira, 1 de dezembro de 2015

E eu cá gosto que me fulminem... (!?)

Lembro-me de um dia me ter sido dado o privilégio de trabalhar com uma pessoa, mais adiante designada de CEO, que muito ensinou às pessoas que tiveram a sorte de fazer parte daquela equipa. A equipa dele. As entrevistas de trabalho  que costumava fazer  às pessoas que se candidatavam a uma determinada função eram duras. Dizia ele que estava a renovar alguns departamentos da empresa e queria pessoas com um determinado perfil. Nunca soube que tipo de perfil era esse.


Uma das perguntas de que me lembro - duvido que alguma vez na vida me vá esquecer - foi a de me perguntar de forma fria, com um olhar daqueles que nos desarmam no primeiro segundo: porque raio é que eu achava que uma empresa daquelas, com gente qualificada, gente profissional, quereria alguém como eu, sem experiência alguma, tímida, para fazer parte dessa mesma empresa? O que é que a empresa ganharia com isso? porque, assim, à primeira vista, não conseguia ver nada. Eu era mais uma de entre tantas outras candidatas e, muitas das que já tinham sido entrevistadas eram bem melhores do que eu, inclusive na forma de se arranjarem para uma entrevista de trabalho. Sim, o CEO era este género de homem. Duro. Nada parecia tocá-lo. Não se deixava sensibilizar.

Fiquei de rastos no primeiro momento. Atrapalhada, Era como se aquela criatura fria me quisesse atingir com um só golpe de forma a matar os meus sonhos para sempre. O primeiro gesto seria o de desatar a chorar e chamar gordo, careca, insensível, estúpido, ao tal do CEO. Só que o homem não era gordo, tão pouco careca. O resto deixo por conta da imaginação dos que acharam por bem continuar a ler este texto. Acho que provavelmente já lá chegaram...

Lembro-me também da entrevista acabar, de ele me mandar sair sem sequer levantar os olhos do papel que parecia ser mais importante do que um ser humano. E eu saí. O corredor que levava à porta da rua parecia comprido demais. Precisava de encontrar rapidamente o raio da porta da rua e sair dali para fora, livrar-me daquela experiência. Daquele homem horrível, o tal do CEO que não era gordo, nem careca mas... um dos melhores da sua área. 

Resumindo: Fui chamada uma semana depois para fazer parte da equipa.. No primeiro dia em que entrei chamou-me e disse-me que me iria dar uma oportunidade, tal como já tinha dado a outros, que esperava não se arrepender... eu fiquei sempre a matutar naquela coisa do "esperava não se arrepender". Soube mais tarde que costumava fazer aquilo em todas as entrevistas para testar se as pessoas aguentavam com a pressão. Eu tinha-me aguentado. Achava ele...

Mal sabia ele que não. Que se tinha enganado. Ainda bem que não me viu quando cheguei à porta do prédio que dava para a rua. Ainda bem que ele nunca soube que as pernas me tremiam e que as lágrimas fizeram questão de não me largar todo o caminho. Tenho para mim que as pessoas que passavam por mim na rua, vendo-me chorar, provavelmente pensaram que estaria mal de amores. Um namorado, talvez. 

Um dia vou tentar descobrir o porquê de só se chorar por amor. Por acaso não se pode chorar para descomprimir? Só para descomprimir? É que descomprimir evita possíveis ataques cardíacos daqueles fulminantes. E eu cá gosto que me fulminem!?