sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Marcha atrás

Sou de Lisboa. O mais possível de Lisboa. O que quer que mais possível queira dizer, um dia a vida trocou-me as voltas, diga-se em abono da verdade que a vida de vez em quando gosta de brincar às escondidas e, tungas, troca-me as voltas só para me testar, eu tento estar à altura, respondo primeiro de modo tímido, mal me refaço do susto, seguro-me, tomo balanço, deixo-me ir ainda que me espatife contra uma parede qualquer e me parta aos bocadinhos. Alma incluída, Alma aos bocadinhos.

(isto de começar o texto com Lisboa era para tomar outro rumo, só que decidi fazer marcha atrás e sem sol pela frente acelerei na direcção da neblina, não há-de ser nada... vamos a isto) 

Sou metódica, e sendo metódica evito o mais possível que se perceba quando me partem a alma, nem quando me tentam partir os braços que me seguram à vida eu desisto, apenas me escondo um pouco por breves minutos, respiro fundo, entretanto baixo-me e, munida de uma pá pequena, de uma vassoura no mesmo formato, junto todos os bocadinhos de alma que encontro espalhados pelos quatro cantos do mundo que é só meu. E colo. Colo tudo, não é uma cola que me permita respirar aliviada, aliviada que aquilo não volte a descolar, espalhar-se, mas enquanto se mantém inteira a alma, cuidadosamente remendada, a coisa dá-se. Sobrevivo. Vivo. Torno a viver.

Foi num desses momentos em que me encontrava de cócoras a juntar bocadinhos de alma que encontrei as piores pessoas que alguém pode encontrar. Lá estava a vida a testar-me novamente. Naquela posição ingrata senti alguma dificuldade em equilibrar-me e pôr-me de pé. Mas tentei. Voltei a tentar e consegui. Caminhei. Ainda não sei bem se venci, mas que continuo a caminhar, lá isso continuo.

Por vezes olho as pessoas em silêncio, aquelas pessoas que nos olham de alto como se a vida nunca lhes fosse puxar o tapete e encolho-me. Sei porque me encolho. Elas, nem por isso.