quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Intolerância com o outro (falemos de redes sociais e falemos também de blogs)

Estive a ler o artigo do link, aquele ali mais em baixo, a azul, que me pareceu interessante. Reflecte a realidade nua e crua de quem resolveu fazer parte da Internet. Reflecte também o lado menos bom disto de escrever na net. Os que escrevem e os que perseguem os que escrevem. 

Pensei eu depois deste recente 13 de Novembro, deste dia terrível que vai ficar marcado para sempre na memória de muitos, pensei, dizia eu, que as pessoas tivessem caído em si e, quem sabe, mudassem algumas das suas atitudes, aquela coisa de ser mais tolerante para com outros. Enganei-me. Existem pessoas que nunca irão aprender. Existem pessoas que nunca irão mudar, podem até tentar disfarçar um dia ou dois, mas aquilo de arrasar outros faz parte do carácter. Está cravado na pele. Nada a fazer! Só a vida lhes pode ensinar a mal, aquilo que não querem aprender a bem.

Vejamos o tal artigo:

No mais esplêndido cenário de céu aberto, os motores do avião a ronronar, uma natureza imensa em baixo, Justine Sacco era uma mulher feliz em 2013. Tinha 30 anos e adorava o seu trabalho como chefe de relações públicas na InterActiveCorp, uma empresa de internet norte-americana. Estava a caminho da África do Sul para descansar e visitar familiares, ver um pouco mais de mundo. Até tivera tempo para “twittar” uma piada enquanto esperava pelo voo no aeroporto de Heathrow, em Londres: «De partida para África. Espero não apanhar sida. Estou a brincar. Sou branca!» Nunca lhe passou pela cabeça, naquelas horas a sonhar nas nuvens, que teria a vida desfeita ao aterrar, linchada por uma multidão online incontrolável que lhe chamava racista e idiota nas redes sociais, exigindo que fosse despedida. De 170 seguidores no Twitter, Justine passou a tópico mundial mais seguido ainda no ar. Desceu ao inferno. 


Segundo Gustavo Cardoso, já todos escrevemos algo na Net sem pensar se o devíamos ter feito, desencadeámos reações e, passado um tempo, nada é tão importante quanto fazia supor o tratamento excessivo na altura. Aconteceu com a blogger Filipa Xavier, do blogue Fashion-à-Porter, ao anunciar em plena crise que uma das suas metas pessoais para 2013 era comprar uma mala Chanel preta – fartou-se de apanhar nas redes sociais. Também Ana Garcia Martins, A Pipoca Mais Doce, foi cilindrada por arrasar o visual de uma portuguesa de 16 anos, com um tumor na clavícula, que assistiu à cerimónia dos Óscares em Los Angeles pela mão da Make-A-Wish, a associação que realiza sonhos de jovens com doenças graves. «E pronto, está escolhido o terror da noite. Esta pequena, de seu nome Sofia Alves, teve um surto de febre e, em delírio, decidiu apresentar-se assim na passadeira vermelha. Collant opaco, saia da Pimkie, uma camisola básica da H&M e o gorro do irmão mais velho que assalta carros à noite.» A Pipoca admitiu o erro, pediu desculpa, apagou o comentário, mas os insultos choviam à velocidade da luz

«Sendo ferramentas que funcionam para promover o contacto instantâneo, assumimos por defeito que temos de comunicar instantaneamente, sem grande reflexão, e fazemo-lo até termos más experiências.» Ainda assim, sublinha o sociólogo, perseguir outra pessoa no Facebook ou no Twitter é tão grave como perseguir alguém de cada vez que estaciona o carro e vai para casa. «Escrever num ecrã é o mesmo que escrever numa parede com graffiti: está lá. Perdura. Enquanto num estádio de futebol eu vou descarregar, gritar, chamar nomes a ninguém em particular, e pode até haver quem fique irritado mas acaba ali, a comunicação numa rede social tem alvos específicos, pessoas concretas e uma multiplicação exponencial. E aqui levanta-se a questão da (in)tolerância com o outro, que é um problema da sociedade como um todo.»
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«Aquilo que nos leva a humilhar alguém é a necessidade de nos sentirmos superiores a ele devido a baixa autoestima ou desvios patológicos de personalidade»

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Eu admito que por vezes leio textos escritos por pessoas aqui nos blogs com os quais não concordo, outros não estarão muito bem escritos mas, nunca me passou pela cabeça, perseguir, envergonhar ou arrasar alguém só porque escreveu um texto com o qual não concordo (ou entro e comento assumindo o meu perfil, ou saio e esqueço). Não faz qualquer sentido para mim. É demasiado poucochinho. Não gosto de coisas poucochinhas. O meu gesto imediato é clicar naquela cruz em formato pequeno no canto superior direito do écran e ir à minha vida. Lá está, penso que quando temos uma vida este tipo de situações não nos incomodam. Ou talvez uma pessoa saiba separar o essencial do acessório. Talvez seja mesmo isso. Separar o essencial do acessório.