terça-feira, 3 de novembro de 2015

Dissertando sobre aquela coisa de "Deus nem sempre é amigo" proferido pelo nosso recente e mais "crido" Ministro

(Toc toc)
- Ó Deus, ó Deus, podes abrir a porta por favor? Preciso de um copo de água urgentemente, também preciso de me sentar um pouco se não te importas. Temos que conversar, Deus...
...

Isto sou eu a bater à porta de Deus logo pela manhã após subir vários lanços de escada. É favor não estranhar o tratamento por tu, eu e Deus é mais tu cá tu lá, somos amigos há bué de anos, Deus também usa a linguagem dos mais jovens, aquela coisa do bué, só porque Deus é fixe e não caminha de apontador na mão a castigar pessoas só porque escrevem á sem agá, com acentos que são graves e não deveriam de ser. Os acentos também direito a dias não. Adiante.

- Deus, tu por acaso ouviste o Ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva, o senhor que tomou posse há relativamente pouco tempo dizer que a culpa é tua? Culpa de toda aquela calamidade que se deu em Albufeira. Tu explica-me lá bem quando é que deixaste de ser nosso amigo? Não mandaste nem uma cartinha nem nada a avisar que nos abandonavas? Deixaste-nos assim, ao Deus dará? Desculpa, este ao Deus dará foi mal usado neste contexto, dá-me um desconto, estou muito baralhada depois de ouvir as declarações do senhor interno. Por acaso não arranjas forma de o desinternar, não? 

Deus coça pacientemente a sua barba branquinha, feita de nuvens fofinhas, olha-me nos olhos como se quisesse ver o fundo da minha alma (brincalhão este Deus, não conhecesse Ele muito bem a minha alma) e diz com voz tranquila, como só as vozes de gente sábia sabem ser. 

(Deus, que é tudo, inclusive amigo) - Não te preocupes com isso, não tarda nada vais perceber que as pontes são sempre uma passagem para a outra margem.

(eu, que não sou nada) - Caramba, Deus, podias pelos menos dizer-me quem é a ponte, quando é que se vai dar a passagem, e o que é que nos espera na outra margem. Olha que tu também não facilitas nada...

Desço as escadas apressadamente enquanto Deus lá de cima, na porta da sua grande casa sem paredes, janelas ou telhado, me acena gritando baixinho (sim, Deus tem a capacidade de gritar baixo): não tropeces, a não ser que tenhas um bom seguro de saúde.


15 comentários :

  1. Sou agnóstica e se acreditasse em Deus, achava-o um deus muito mau , injusto e revoltado.

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    1. Ressalvo o facto de que este texto não é sobre Deus. Existem temas em que não me aventuro. Religião é um deles. Ainda assim consigo escrever, pelo que me é dado a ver, que o problema do mundo não está nas mãos de um Deus, o problema do mundo está nas mãos de algumas pessoas que sabemos de antemão não serem grandes em nada, tão pouco na parte de seres humanos. Falo das pessoas em geral e de algumas em particular. Mais de algumas em particular.

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  2. Maria hoje de manhã fui ver a minha cidade, ao vivo ainda é mais doloroso ver tanta destruição. Não foi só a natureza foi a intervenção do Polis que emparedou e subterrou a ribeira com escoamento para chuvas de verão.Os grandes técnicos nunca querem ouvir a sabedoria dos mais velhos. Isto estava previsto mais cedo ou mais tarde. UM abraço.

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    1. Vi as imagens ontem à noite e, mesmo não vivendo em Albufeira, embora a conheça relativamente bem, foi doloroso ver tanta destruição. Calculo que ao vivo seja muito difícil, sendo, como a Aliete escreveu, a sua cidade. Não deve ser nada fácil.

      Os grandes, sejam técnicos ou nem por isso, recusam demasiadas vezes a sabedoria dos mais velhos. Faz-me lembrar um caso que aconteceu aqui em Lisboa, teve a ver com inundações também,este senhor mais velho falava com os jornalistas dizendo que já tinha prevenido os tais grandes que mais cedo ou mais tarde iria acontecer algo grave. E aconteceu realmente.

      Abraço para si também, Aliete.

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  3. Ok, algumas pensam mesmo que são gente e que se podem comparar a deuses gregos, por exemplo (desculpe-me, leio muito à pressa)

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    1. Este senhor Ministro assustou-me um pouco, admito...

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    2. Estou muito assustada pois sou nascida e criada em Albufeira e leio tudo na diagonal...

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  4. Deus não conhece Calvão e Silva. Ou melhor, tem uma noção de quem é, até por causa da (má) atitude que o agora ministro da administração interna teve, antes de o ser, com qualquer coisa ligada a Ricardo Salgado.
    Deus não gostou da atitude, olhou-o de lado e ... acredito que o tenha colocado na lista negra.
    Mas essa coisa que se passou em terras algarvias é de bradar aos céus. Aos céus mas não a Deus, pelo motivo que eu já tive o trabalho de explicar.
    Maria, não se preocupe porque a vida são dois dias e o governo três ... mais ou menos.
    Sei, de fonte aproximadamente segura, que Calvão e Silva aproveitou a 'presença' de Deus e disse o que disse, que era Ele o culpado. Vingou-se porque a Ricardo Salgado, o homem ministro não teve a coragem de o dizer.

    Tudo eu tudo eu. Caramba! ;)

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    1. Eu acho que Deus neste momento está a beber litros e litros de chá de camomila só porque o obrigaram a conhecer Calvão e Silva. E também deve ter dois seguranças ao lado não vá Deus querer cortar os seus próprios pulsos num gesto de desespero. Deve estar, inclusive, a abanar a cabeça dizendo repetidamente; calvão, calvão, porque enveredaste tu por caminhos apertados? agora já não posso ser teu amigo...

      Tem mesmo a certeza daquela parte da "vida são dois dias e o governo três", é que eu acho que a vida neste caso muito actual são três dias e o governo dois. Isto não está a começar nada bem no caso de se querer durar muito tempo lá no governo. Tenha em conta que eu pouco ou nada percebo de política. Nem de tempo. Hoje não sou mais bolos, hoje sou mais Deus ;)

      Para terminar acho que o senhor Ricardo deveria cortar no sal. Dizem que aquilo mata. Se calhar a culpa também é de Deus. Inventou o sal e deu nisto.

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  5. Aí está, deus não me apresentou esse senhor, ora isso não se faz!
    Quem é ele, quem é?!

    Vou pesquisar.
    Por vezes é preciso fazer um esforçozito, deus não pode fazer tudo sózinho.
    Se o dito senhor disse que a culpa foi de deus então temos que pedir responsabilidades a deus.
    Ai Deus, perdoa-lhes que não sabem o que fazem, quanto mais o que dizem.

    Amén.

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    1. Ora, GL, tal como diz o meu texto, é o Ministro da Administração Interna, Calvão e Silva. Que calçou as suas galochas e foi visitar Albufeira no dia em que Deus e o demónio andaram por lá a fazer uns estragos. Isto é só gente doida neste Portugal. Doida... com todo o respeito.

      Porque é que escreveu Deus com letra minúscula? Quer dizer que existe um deus menor e um Deus Maior? ;)

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  6. Pertence ao grupo dos que ignoro, logo desconheço. Só conheço quem me diz alguma coisa, e por uma boa razão, o que não é o caso.
    Foi ver para crer? É pouco!
    Foi ver para tentar, junto com os seus pares, ajudar em termos práticos, as vítimas do desastre? Foi? Se a responsabilidade é de deus provavelmente aguarda que seja ele a prestar a ajuda que urge.

    Não, Maria, não existe um deus menor e um Deus maior. Existe o meu Deus que, de certeza, não é o deus do dito senhor.
    Como sempre: simples!

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    1. Tomou posse há muito pouco tempo. É natural que uma grande maioria ainda desconheça de quem se trata. Toda esta situação dramática que aconteceu em Albufeira acabou por revelar uma faceta do Ministro que o deixou com uma imagem meio turva.

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  7. Bom dia, Maria :)
    Eu quando ouvi essas declarações infelizes lembrei-me imediatamente da "Busha velha", como eu lhe chamo...

    No final do Verão de 2005,Bárbara Bush, num discurso inflamado dizia que muita gente do Mississipi e Louisiana nunca tinga tido tanta sorte na vida, pois muitos eram sem abrigo e dormiam tapados com jirnais, e agora, graças ao Katrina, tinham tendas e cobertores!!

    Acho que nesse momento tive um acesso de condescendência para com o filho e prrcebi porque é que o marido se casou com ela... Foi uma forma de não se estragarem duas casas (se calhar estragou-se o mundo inteiro ou contribuiu-se para isso, mas aí já dá muito pano para mangas.... Já devsia muito do assunto... E entra em grandes polémicas)

    Certas pessoas esquecem-se que, por aquilo que representam, ou pela posição que ocupam, deviam de ter um cuidado extra de cada vez que abrem a boca! Até para seu próprio bem também... Mas não! Abrem a boca e é o que sai..

    Um abraço :)

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    1. Olá São,

      Num momento tão dramático como é aquele, momento esse vivido por pessoas que perderam muito das suas vidas, que olham para a sua cidade destruída, discursos daqueles soam a ridículo, só para não dizer coisa pior. Este tipo de pessoas assustam-me um pouco. Tenho sempre a sensação que em vez de apaziguar, apenas se inflama mais culpando um Deus que é castigador em vez de ser amigo. Algo vai muito mal neste país e nas pessoas que o querem governar.

      Abraço para si também :)

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