segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Interrupção

Estive a ler um artigo que deixa qualquer um a pensar se isto de viver passa mesmo por escolhas, por prioridades, ou se simplesmente todos têm o seu espaço num mundo cada vez mais moribundo. 

Trouxe num estado de sintonias diferentes (ou não) dois excertos do artigo que saiu no jornalI.

Primeiro:

Segundo:

Enquanto uns lutam por sobreviver, outros desperdiçam a vida fingindo que vivem. Uns não sobrevivem de todo, embora lutem, os outros continuam na labuta diária de ocupar um espaço sem sentido algum e, sobrevivem. Não se percebe muito bem quais os critérios de selecção de quem nos olha lá de cima.  

E mais uma semana começa num mundo a rebentar pelas costuras, de tão perfeito que é.


12 comentários :

  1. Ninguém é perfeito.
    No mundo, as pessoas são como os interruptores, ora para cima ora para baixo.
    Boa semana, Maria.

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    1. Resumindo: as pessoas dos refugiados para cima e as pessoas dos sem-abrigo para baixo. Ou, uma outra leitura: as pessoas dos sem-abrigo para cima e as pessoas dos refugiados para baixo. O problema nesta vida, caro Observador, é o problema das pessoas serem tratadas como objectos. A bem dizer como interruptores. Esse é que é o grande problema.

      Aquele sem-abrigo que diz que a situação dos refugiados é pior que a dele, soa-me a gente que, não sendo perfeita, é gente de valor. Se calhar a perfeição é isso.

      Boa semana para si também.

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  2. Há muita gente que tem tendência para avaliar as pessoas devido à sua situação. São os novos, os velhos, os desempregados, os sem-abrigo e, agora os refugiados. Há que fugir das imagens que estão presentes nos rótulos. Há pessoas de valor e com valor em todo o lado. Gente genuína que tem sentimentos. Há quem se esqueça disso e isso é lamentável.
    Beijinhos

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    1. Vou dar um exemplo ao qual assisto há muito tempo e não consigo entender o porquê de ninguém conseguir resolver aquele caso. Desço muitas vezes a Av.da Liberdade a pé , porque é assim que consigo sentir melhor a cidade, e ali mesmo ao lado do cinema São Jorge existe um sem-abrigo que dorme no chão. Vejo-o desde que me lembro, penso ser a mesma pessoa. Não consigo entender o porquê de ninguém ajudar, falo das entidades competentes, aquela pessoa. Já tentei, mas não entendo.

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  3. Curiosa, a Maria. Coloca a questão e dá a resposta: "Enquanto uns lutam por sobreviver, outros desperdiçam a vida fingindo que vivem." Em síntese, é isso mesmo.

    A verdadeira solidariedade, a genuína, aquela que não espera qualquer contrapartida? Existe, felizmente existe - podia dar vários exemplos - mas numa escala que não responde às reais necessidades de um mundo completamente desumanisados.

    Quem nos olha lá de cima anda muito distraído, olá se anda.

    Li a resposta acima.
    A verdade é que muitas dessas pessoas - exemplo daquela com quem se cruza na Av. da Liberdade - atingem um determinado patamar em que se torna quase impossível tirá-las da rua. A rua passa a ser sinónimo, o único que têm, de pertença.
    Estamos perante um processo muito complicado e, mas isto digo eu, extremamente doloroso.

    A "teoria" dos interruptores funciona? Fiquei com esta "dúvida". Meditei, voltei a meditar, mas nada: a resposta não veio.

    Continuação de uma boa noite, Maria.

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    1. Existem perguntas que já têm implícita a resposta, GL.

      Essa solidariedade que refere, a que não espera qualquer contrapartida, vi alguém lá de casa praticar ao longo de toda a sua vida. Aliás, começou na casa dos meus avós e estendeu-se pela casa dos meus pais. Sim, a minha mãe acolhia pessoas em nossa casa durante um tempo. Dava-lhes tecto, comida, roupa. Por vezes eram apenas crianças ou adolescentes que viviam em aldeias isoladas e que queriam conhecer a cidade. Chegavam a ficar seis meses em nossa casa. Quando se iam embora não pareciam as mesmas. Até o olhar era mais brilhante.

      Existe gente assim, muitas até, felizmente.

      A parte do sem-abrigo na Av.da Liberdade e, partindo do principio que compreendo o que quer dizer, deixa-me sempre angustiada.

      Boa terça-feira, GL.

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  4. Já tinha lido os artigos e Em tudo há exemplos bons e maus e por mais estranho que pareça há mais solidariedade nos que não têm nada dos que têm muito.

    Conheci dois sem-abrigo que dormiam nas escadas da estação do Rossio. Falei tanto com eles e o que aprendi meu Deus. Ironia das ironias, um deles era pai dum colega meu, que todos os dias perguntava-me se o tinha visto. Resolveu viver na rua aquando da morte da sua mulher, O filho fez tudo, mas tudo para que ele voltasse para casa após a morte da mãe. O desgosto dele era evidente e era o único filho. Outros havia na mesma situação, que não aceitam as ajudas e não me perguntes a razão porque não te sei explicar.

    Passados dois/quatro anos deixei-o de o ver e o meu colega conseguiu descobrir que estava internado num hospital. Tratado conseguiu que fosse para um lar com tudo a que tinha direito.

    Também conheci "a velha dos sacos" que pernoitava nas arcadas da Praça do Comércio. Sei que foi levada "N" vezes para lares e "N" vezes que voltava às ruas de Lisboa.

    Muitos não querem ajudas e por mais cruel que nos pareça, prevalece a escolha deles no que toca "à rua". É um flagelo e nada e nem ninguém os consegue demover de...e claro também há "um fechar de olhos" por parte de muitos e muitas entidades. Há de tudo e cada caso é um caso!

    Perante o flagelo dos refugiados ainda há dias um disse-me...se for preciso partilho os meus "cartões, a refeição diária que me é dada bem como a roupa" porque mesmo não sabendo falar a sua língua, temos uma coisa em comum: as ruas e os bolsos cheios de ar. Bateu fundo Maria e o olhar daquele senhor emanava tudo...menos falsidade.

    Um bom dia

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    1. Não concordo consigo, Fatyly. A solidariedade existe quer da parte de gente que tem muito, quer da parte de gente que pouco ou nada tem. Não se pode generalizar, é demasiado perigoso. As pessoas ricas e sendo gente de bem não gosta de gritar aos sete ventos que dá, oferece ajuda. Faz sempre as coisas discretamente e pode de alguma maneira ser penalizada por esse seu lado discreto. Embora eu ache que é discretamente que se tem que ajudar os outros. O lado ostensivo da vida não me cheira bem.

      Talvez não aceitem ajuda porque a vida já lhes ofereceu muita pancada e tenham deixado de acreditar no ser humano. A rua, apesar de tudo, não lhes cobra nada. Já os seres humanos cobram tudo.

      Tenha um bom dia, Fatyly.

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    2. Claro que sim Maria, existe sim e quem é solidário não precisa de apregoar aos sete ventos o que pratica. Eu digo "entre" e passo a explicar.
      Num prédio existe a velha entre aspas boa vizinhança? Conhecem-se? Não é preciso andar nas casas dos outros, mas saberão que no meio de tantos existe alguém em dificuldade? A maioria não sabe...e a frieza e ou indiferença instala-se! Não sei porque razão mas por todos os locais que passei, falavam comigo e falam, mas jamais meter-me na vida deles mas é tão bom sentir que quando em aflição pedem ajuda, como eu pedi tantas vezes meu Deus!

      Nos sem-abrigo, precários, pobres e como conheço tantos vejo a "partilha, o dar a mão" o saber que é feito do ou da X e por aí fora...

      e é nessa base que disse o que disse.

      Subscrevo teu último parágrafo.

      Um bom dia

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    3. Fatyly, existe muita gente que não gosta de conviver, isola-se. É preciso também não esquecer esse lado. Se por um lado existe indiferença pela dor, solidão, de muitos, por outro existe gente que gosta realmente de estar só. Não sofrem de solidão. É uma questão de perceber quem se encontra do lado de lá e respeitar. Não somos todos iguais. E ainda bem, penso eu.

      Tenha um óptimo dia.

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  5. Olá, Maria :)
    Foi a primeira vez que viu esse ponto de vista? Eu já o vi expresso várias vezes. Tenho uma conhecida virtual que é voluntária numa instituição em Lisboa que ajuda pessoas sem abrigo e diz que já ouviu muitos dizerem "pelo menos nós estamos em paz. Não há o risco de nos cair uma bomba encima a qualquer momento... Que venham as pessoas, nós não temos muito para oferecer, mas temos paz"

    Se calhar precisamente porque são pessoas que sabem o que é sofrer, que já sentiram e continuam a sentir na pele o que é precisar de ajuda.... Acho eu...

    Abraço :)

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    1. Olá São,

      Admito que não percebi a sua pergunta "Foi a primeira vez que viu esse ponto de vista?". Acho que temos sempre que começar um diálogo sem ser ao ataque para que a conversa consiga fluir de forma construtiva. No entanto percebi o que quis transmitir. Sabe que existe gente que já abandonou o conforto da sua casa, todas as mordomias, para viver durante algum tempo com pessoas que nem água canalizada ou electricidade tinham? O frigorífico era um sitio vazio com um só copo de leite dado pela pastelaria do lado. Temos que ter cuidado quando falamos com as pessoas, São, nem tudo o que parece, é.

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