segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Maria desta vez fala directamente com as pessoas que condenam Trump e o seu twittar

Queridas pessoas desconexas no entanto com intenções boas,

Venho novamente por este meio, não tendo de momento outro assim tão rápido que me dê a oportunidade de chegar até esse lado em modo mulher-flecha, nem sequer gosto de fatos coladinhos ao corpo como usam as mulheres-flecha dos desenhos animados, aquilo revela até o fígado e todos sabemos que o fígado encontra-se na parte interior do corpo e se assim foi concebido é porque assim se deve manter.

Dizia eu que me parece estranho que se condene o (desin)senhor Trump, usei aquele desin com a intenção de uma possível desinchação da criatura e, já agora, fazer notar que de senhor não tem nada. O que me faz grande aflição é ver que um bilionário republicano foi eleito Presidente dos Estados Unidos, que nada mais é do que a maior potência mundial, se senta de cinco em cinco minutos lá em frente do computador para usar o twitter como se fosse o senhor (esse sim, senhor) Albertino da farmácia. O senhor Albertino da farmácia pode nas horas vagas usar o twitter para informar o mundo que a aspirina mudou de cor e que agora é verde às pintinhas, já o Presidente dos Estados Unidos deveria ter, obrigatoriamente, uma atitude mais sensata face ao que tem em mãos.  E todas as pessoas que o seguem no twitter também. Seguir alguém como um Trump é dar-lhe força, mesmo que seja uma rede social, e quando damos força a determinadas pessoas estamos apenas a ser cúmplices. Digo eu que tenho a mania de dizer coisas, por vezes não acerto nem nada, mas que por razões muito minhas penso que não devo deixar de as dizer. Os ouvidos também têm interruptores. E os dedos também se desligam.

domingo, 15 de janeiro de 2017

(não és tu, sou eu... Ricardo)

Querido Ricardo, 

É com muito pesar que te envio este telegrama (nesta fase da nossa relação penso já poder tratar-te por tu), eu tentei Ricardo, juro, que tentei, esforcei-me, e ó se me esforcei Ricardo, chorei rios de sangue do verdadeiro, juro, que chorei, mas, e há sempre um... mas... Ricardo, não vale a pena, o meu amor por ti durou dois míseros sábados, ali, quando a noite diz que é hora de dormir e eu, Ricardo, ficava à tua espera, sentava-me à tua frente e, tu, não me vias, no entanto eu, Ricardo, não descolava os olhos de ti, pensei que fosse amor, Ricardo, e ó, Ricardo, não era, era uma úlcera que me dilacerava o melhor que havia em mim, sim, Ricardo, eu lá por dentro sou linda, por fora, Ricardo, há quem diga que também, mas, eu, Ricardo, eu não acredito, eu só acreditava no meu amor por ti, Ricardo, Ricardooooooo, vai, vai e não olhes para trás, porque eu também não. Adeus Ricardo. Adeussssssssss.

Fim.
(não te esqueças de regar os canteiros, o amor morreu mas os canteiros não têm culpa) 

Fim outra vez.
(irra, estava a ver que não)

(favor substituir as vírgulas por lágrimas)

(Maria avisa que este texto meio esquizofrénico tem truque)

sábado, 14 de janeiro de 2017

Poesia à chuva (iniciativas que emprestam alguma leveza a isto de viver)

Nos artigos que li informam-me que Boston é uma cidade com muitos habitantes, tantos que se uma pessoa fosse fazer conta aos milhões de pessoas que por lá habita, era bem capaz de arranjar uma enorme dor de cabeça. Só por isso é que decidi concentrar-me numa outra forma de ver Boston, soube que existe em Boston uma organização que decidiu divulgar, apoiar, os poetas e a sua poesia pintando-a no chão da cidade, achei tudo aquilo magnífico e pensei cá para os meus botões como seria muito bom ver uma iniciativa parecida nas ruas de Lisboa, entretanto, aos poucos e poucos, estender a todas as cidades deste país. Bom, sonhar não custa, portanto sonhemos enquanto algum partido não se lembra de taxar os sonhos com a  mais alta taxa de que porventura se lembrem. Eu é que com esta última parte deveria ser taxada, onde é que já se viu misturar poesia, chuva e política numa só gaveta?!

São boas, as notícias:

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Pensamentos à solta (porque se uma pessoa nasce é para poder andar à solta com os seus pensamentos)

Lá estou eu a enveredar pelo caminho das coisas sem sentido. Resolvi fazer um jogo que foi apenas buscar palavras soltas a pensamentos recheados do melhor que há, destacar a azul, fazer a ligação entre elas com uma linha invisível. O resultado não seria ganhador de uma estrela Michelin, longe disso, mas algo no azul destacado não é assim tão absurdo, lá isso não é. 

Vejamos:

1º pensamento 
«Um homem inteligente é por vezes forçado a embebedar-se ou a isolar-se, para conseguir aguentar os idiotas com que se vai cruzando todos os dias»

2º pensamento
«São precisos dois anos para aprender a falar e setenta para aprender a calar»

3º pensamento
«Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança»

4º pensamento
«A felicidade em pessoas inteligentes, é das coisas mais raras que conheço»

5º pensamento
«Um idealista é um homem que, partindo de que uma rosa cheira melhor do que uma couve, deduz que uma sopa de rosas teria também melhor sabor»

...
Baralhando e voltando a dar: Se se parte do principio que uma rosa cheira melhor do que uma couve é muito pouco provável que um idiota seja uma pessoa inteligente.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Minudência é coisa que se mastiga devagarinho (Panteão Nacional)

Andava eu na minha vida, mãos umas vezes atrás das costas, no sentido de as proteger, se não for eu a proteger as minha costas, quem será?! Outras vezes de mãos à frente, neste caso só para me amparar na queda no caso de alguém me empurrar usando mãos profissionalmente bem fincadas. Andava ali, para cá e para lá, para lá e para cá. Nisto, atravessa-se um pensamento à velocidade da luz e esbarra com o meu nariz que, para o caso não é importante dizer mas, eu digo na mesma, sou possuidora de um nariz muito pequeno, para mal dos meus pecados nem sequer dá para andar com ele empinado. Cada um é para o que nasce e a mais não é obrigado (não acredito muito nisto que acabei de escrever, no entanto achei por bem aconchegar o texto com uma frase mal engendrada).

O tal pensamento à velocidade da luz que esbarrou com o meu nariz fez com que se desse uma reacção que acabou, também ela, por esbarrar com o tema do momento. A morte de Mário Soares. Ou de Soares. Ou do Dr. Mário Soares. Ouvi ao longo destes dias diversos tratamentos para uma só pessoa, no entanto para a morte, com essa não há nada a fazer, só tem um nome e os nomes são para serem encarados de frente, sem medos. É morte. Pode-se até amaciar um pouco dizendo que é o fim da vida, só que eu não acredito que seja e, vai daí, chamo-lhe morte. Mas este é outro assunto, é melhor parar por aqui. Ponto final e faça-se um parágrafo.

Toda esta lengalenga para escrever que esbarrei com o tema Panteão e não percebi umas coisas, nomeadamente isto:


Entretanto resolvi andar por aí a ler, sim, eu sei ler, lamento se desiludi alguém, gosto de ler e tenho esta mania de gostar de vento a fustigar-me o pensamento. Eis o que encontrei na estrada das letras:

« A lei prevê que as “honras do Panteão” se destinam “a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade» 

Mexendo e remexendo. Precisam, portanto, de vinte anos para a tal aprovação. Com um bocadinho de sorte o universo já foi ali dar um passeio  e esqueceu-se de voltar. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

(coisas que uma pessoa vai percebendo nesta cidade que é toda ela blogosférica)

Vamos supor que alguém escreve um texto num blog e que esse texto por variadas razões terá muitas fissuras. digamos assim, descobri, sem querer, que existe quem aproveite essas mesmas fissuras para brilhar, será um género de brilho turvo que se alimenta das fraquezas dos outros para assim sobreviver. É como se o mundo (neste caso blogosférico) estivesse partido ao meio e existisse de um lado aqueles que mal ou bem escrevem sem primeiro se deslocar ao frigorífico alheio e, aqueles, que mais para mal do que para bem, primeiro entram no frigorífico alheio, pela calada da noite, e resolvem trazer de lá a carne mais putrefacta que encontrarem, que traduzido quer apenas dizer, dá muito mais gozo a algumas pessoas rebaixar do que elevar. 

Assim vai o mundo nos dias que correm, se ainda fosse só o blogosférico não estaríamos mal, mas quer-me cá parecer que não. O Natal afinal de contas já era e isso da paz e do amor universal, mais centralizado no local, temo que já tenha perdido a validade. É Janeiro. Viva Janeiro. Uma pessoa não consegue conter a excitação de virar a página e encontrar Fevereiro.


(pertenço ao grupo dos que não gozam com ninguém disto dos blogs, lá terão as suas razões para ter um blog e escrever, sobranceria é um chá que não aprecio, de todo, faço criticas, é um facto, tento que sejam construtivas, argumento, fundamento, mas serão sempre criticas voltadas para pessoas que terão um lado público, pessoas conhecidas da maioria de todos nós, é nisso que me concentro, ou seja, critico quem acho que estará mais alto do que eu, o que quer que isso queira dizer, porque isto de criticar quem se acha que está abaixo - o que quer que isso queira dizer, também - de nós é revelador de toda uma mesquinhez que tresanda, é poucochinho, portanto, algumas pessoas disto dos blogs acham que todos os outros, exceptuando os que pertencem ao seu clube, estarão abaixo, esperemos que não sejam líderes nalgum lugar na vida dita real, estaríamos todos lixados se assim fosse)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Ti sem ó gostava de namorar quedas (ó p'ra mim outra vez a contar uma história)

Ti Belarmino era aquele género de Ti sem ó no fim que, normalmente, elevava a voz de modo superlativamente acima daquilo que era recomendado a um Ti sem ó no fim, elevar. Vivia nas nuvens. E as nuvens de Ti sem ó no fim eram macias quanto bastasse para sentar as suas certezas mais do que absolutas. Ti sem ó no fim tinha Himalaias de certezas. Himalaias era coisa alta, e Ti sem ó nutria uma grande queda por alturas. No entanto, Ti sem ó não percebia que alturas e quedas andam de mãos dadas só em dias de muito sol, em dias cinzentos esborratados de roxo moribundo mesmo à beirinha de morrer, não dos dias moribundos que não morrem nem que a vaca tussa, nesses dias a queda namora a altura e a altura rebenta na areia da praia derrubando a espuma dos dias de Ti que, já sem ó, fica de repente sem i também. Sobra um t muito sozinho, a saber a coisa nenhuma. Ó.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Resultado do desafio: Maria, a perguntadeira (*)

Em primeiro lugar entra o mais importante, as respostas das pessoas, as palavras das pessoas, porque eu tenho tendência para pensar que um mundo onde as pessoas conversam umas com as outras, seja o meio escolhido, escrito ou oral, é um mundo bem capaz de um dia chegar a algum entendimento. Tenho cá para mim que quando nos fechamos no nosso mundinho, só com as nossas palavras, empobrecemos. É assim como viver para dentro do umbigo, sitio que por vezes precisava de ser ventilado. Como as casas.
...
1. O que é ser imparcial quando se escreve?
A melhor resposta: 
"escrever a verdade, apenas a verdade"

2. O facto de se receber dinheiro pode influenciar uma opinião? 
Parece-me que a resposta mais "clean" foi esta:
"se o receber dinheiro não tiver a ver com o salário, pode influenciar, influencia"

3. Serão mais credíveis as pessoas que escrevem sem receber qualquer tipo de compensação? 
Parece-me muito bem a direcção desta resposta:
"Diria que talvez mais puras, seja lá isso o que for"

4. Pode-se medir a credibilidade? E pesar? 
Sem dúvida que esta resposta é muito equilibrada:
"Pode medir-se por actos e omissões. Pesar: por efeitos e consequências"

5. Ser credível está na moda, ou não é uma questão de moda? Se não é, é o quê então? 
Aqui escolhi duas respostas que vestem muito bem esta pergunta:
a) "a credibilidade não é uma moda mas sim um princípio"
b) "Para mim ser credível vem do berço desde que nasci e graças à boa educação que tive e cumprir era regra, caso contrário "vinha chumbo":). Seria bom que a credibilidade fosse tão apreciada, acatada, praticada, valor nato e verdadeiro"

6. A liberdade de escrever sem receber dinheiro será mais genuína? 
Também eu acredito nisto:
"É. Não tem a condicionante que trava e entrava"

7. As opiniões escritas de uma figura pública valem mais do que as opiniões de pessoas ditas comuns? 
Foram novamente duas as respostas escolhidas:
a) "Desgraçadamente sim. A visibilidade da dita dá sempre um empurrãozito, por vezes desastroso, mas isso é outra conversa"
b) "Ambos os lados podem ter o seu valor positivo ou negativo mas para muitos a figura pública é a melhor mesmo que só tenha dito m****"

8. Será que só se precisa de uma opinião na hora do voto? Será que nas restantes horas do ano é bom o voto de silêncio para não incomodar as pessoas que precisam de opiniões na hora do voto? 
Novamente duas respostas escolhidas, uma mais espontânea, outra mais delineada:
a) "Claro que sim...nada como manter um povo "ignorante, desatento, e desinformado"! Isto aplico a todos, mas a todos e na charanga das campanhas aí vêm de enxurrada para baralhar ainda mais a todos que têm a paciência de os ouvir!"
b) "O voto de silêncio é uma mais valia importante. Deixa o caminho livre para, na hora da verdade, permitir a dança de acordo com a batuta do maestro"

9. Será que as opiniões de gente comum só são disparatadas a roçar a burrice se não forem ao encontro dos interesses de quem as lê?  
Duas respostas de quem sabe das coisas:
a) "porquê o olhar tão atento ao cidadão comum se com frequência este escreve de forma mais assertiva do que os 'special one'?"
b) "As opiniões são uma burrice pegada se forem escritas a pensar nos interesses de quem as lê. Há gente comum esperta, muito esperta, mesmo"

10. Será que é o dinheiro que manda nisto tudo e, vai daí, os que o idolatram ficam aborrecidos quando se apercebem que uma opinião menos favorável pode desaguar em menos refeições no Gambrinus? 
Esta resposta resume tudo na perfeição:
"o dinheiro não é (ou não devia ser) sobreponível à seriedade"

11. Será que as redes sociais são assim tão más? Ou será que as redes sociais começam a fazer-se ouvir no bom sentido? (favor esquecer caixas de comentários em jornais online, aquilo normalmente é um esgoto a céu aberto)
Escolho três respostas para esta última pergunta:
a) "as redes sociais têm coisas boas e más mas há nelas uma propensão para dar relevo à estupidez e à maldade"
b) "Talvez se comecem a fazer ouvir no bom sentido, mas ainda há muito ruído de fundo, olá se há!"
c) "Começam a fazer-se ouvir no bom sentido quando não permitem comentários ordinários e nada e nada"

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Todas as respostas escolhidas e que se encontram espalhadas pelo texto com as devidas aspas, são do caro Observador, da Fatyly e da GL. Existiu uma quarta participação mas em forma de comentário sem respostas, portanto, não contou.

Para conhecer os autores das mesmas é clicar em cima do nome de cada um aqui mesmo em cima. Para entrar no texto que deu origem a este resultado e ler todas as respostas na íntegra é entrar neste elevador. Quem não gostar de viagens de elevador é descer pelas escadas dois andares.

Resta-me agradecer às pessoas que se disponibilizam para entrar nestas coisas, interagir com quem não conhecem, reforço que só temos a ganhar quando damos a nossa opinião sobre o que quer que seja (opinar emagrece, se não emagrece faz de conta que sim) seja no mundo virtual, seja naquele que de tão real por vezes dói como o "caracinhas" que, como toda a gente sabe, é o diminutivo de caraças  lá do Carnaval e dos palhaços. Palhaço por palhaço que caia na rifa um rico porque de pobreza muita gente já está farta. E pronto, fim-de-semana...  oh yeah!

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(*) Diz-me o dicionário que o termo "perguntadeira" não existe, ora, eu sei bem disso. Chato, uma pessoa já não pode brincar com as palavras nem nada...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Apontar dedos na direcção errada

Ontem ouvi nas notícias lá da caixinha muito mágica que aquele vídeo bastante agressivo em que um rapaz é violentamente agredido por outro da mesma idade com murros e pontapés, penso tratar-se da zona de Almada, enquanto outros incentivam e aplaudem, dizia eu que ouvi alguém especializado nisto de dizer coisas acertadas, que a culpa desta divulgação, desta exposição, é das redes sociais. No entanto o vídeo passou inúmeras vezes na televisão. Há aqui alguma coisa que me está a escapar?

(Maria também ilustra texto com um boneco só naquela de ser de fácil entendimento as letras)

Uma pessoa já não sabe se chora pela violência nua e crua.
Se chora pela falta de coerência que abunda por aí.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ser rei em terra de mulas (ó p'ra mim a contar uma história minha e muito minha)

Ti Manel era muleiro. Muleiro, de mulas. Não confundir com moleiro, dono de moinhos. Ti Manel não era dono de grande coisa, só de mulas, quadrúpedes maciços que teriam emergido do cruzamento entre o burro e a égua. Não são só as éguas que são burras. Os burros também o são. São burros, por assim dizer, por isso é que resolveram casar com éguas na tentativa de passar despercebido. Sendo ti Manel muleiro, a sua vida era um desassossego, encosta abaixo, encosta acima. As encostas do ti Manel também se inclinavam para cima porque existiam dias em que o ti Manel cansado de descer só lhe apetecia subir. As mãos ressequidas e duras ajudavam-no a enfrentar melhor quem lhe estendia a mão e lhe puxava o tapete. Ti Manel sorria para dentro, porque para fora o sorriso poderia denunciar que sabia muito bem fintar os puxadores de tapetes. Ti Manel não gostava de tapetes, a vida tinha-lhe ensinado que tapetes em casa e fora dela só trazem aborrecimentos, escorregadelas e bichinhos com muitas patas. Patas por patas, as das mulas que são só quatro e as do cão que somadas às das mulas, davam a bonita conta de oito. Oito, sem contar com as outras patas todas das mulas do ti Manel. O cão barbudo que não se chamava oito, gostava de encostar o focinho aos joelhos do ti Manel no final do dia quando este chegava a casa e se sentava na poltrona grande e gasta, era nesse momento que se podia dar ao luxo de ser quem bem quisesse. Ti Manel escolhia ser rei, se já tinha a poltrona, o resto, pensava, viria no dia seguinte. Disso tinha ele a certeza. Disso e de subir encostas com mulas às costas. E da existência de patas. De mulas.

Maria, a perguntadeira (*). Perguntadeira: aquela que pergunta no sentido de também querer ser iluminada

1. O que é ser imparcial quando se escreve?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

knock knock. Maria quer enviar um postalinho ao professor João César das Neves

Senhor professor João César das Neves,

Espero que este postalinho pintado de tons invernosos quanto baste, o vá encontrar bem junto dos seus, porque dos meus eu cá me vou arranjando. Finda a lengalenga, senhor professor, vamos lá tratar do que realmente interessa. Visionar Maria esfregando as mãos, não porque está frio mas porque existem conversas que só é pena que não aconteçam olhos nos olhos.

Ora pegando nos olhos, salvo seja para os olhos, diga-me cá senhor professor o que quis dizer com aquilo de que as pessoas devem ter filhos, muitos até, olhar mais para o futuro em vez de só se centrarem no presente, porque num tempo lá mais para trás existiu gente que até tinha dez filhos e tudo se criava? 

Bem sei que o jornalista Pedro Pinto da TVI24 fez o seu papel (poucochinho naquele ponto essencial de fazer uma pergunta a doer, mas pronto, suficiente mais a descer para o menos, vá)... E o que é que Pedro Pinto perguntou ao senhor professor em modo de... desculpe, eu não queria incomodar nem nada mas, não acha que nos dias que correm as pessoas têm mais diffff... difff... (bolas para as dificuldades)... Ter em conta que não estou a citar o jornalista, estou apenas a usar as palavras que reflectem o sentido dado à pergunta.

Dito isto, senhor professor João César das Neves, o que eu gostaria de lhe perguntar é se não acha que nos dias que correm ter dez filhos assim à maluca (desculpe que eu de quando em vez dá-me  para amalucar coisas) sem que as pessoas tenham trabalho e mesmo tendo trabalho ganhem o ordenado mínimo, vivam num apartamento ali num bairro sem quaisquer condições, a pagar uma renda de casa superior ao ordenado que ganham é assim, como é que hei-de dizer isto, meio de gente que bebeu três litros de vinho de pacote e de seguida vai de procriar como se não houvesse amanhã e, tungas, dez filhos para criar? mas tudo se cria não é verdade senhor professor? é só enfiá-los dentro da banheira, ali em cima uns dos outros, muito bem arrumadinhos, faz de conta que aquilo é um beliche muito moderno e já com chuveiro incluído, só para desenrascar plantam-se batatas no lavatório da cozinha, couves no bidé, e uma laranjeira na chávena de chá, visto que a malta não é British e não precisa de chá para nada. e o fruto da laranjeira sempre fornece vitamina C aos filhotes todos. Resta saber onde é que vão pôr a pocilga dos porcos? se calhar ali na sala de estar e onde se vai deixar de estar só para que os porcos crescem à vontade lá deles. E as galinhas? bem, as galinhas penduram-se pelo pescoço no estendal da roupa que ao ar livre é que estão bem. Os ovos são capazes de se esborrachar na calçada menos portuguesa, mas isso não interessa nada, tudo se cria, até galinhas com dentes.

Caramba, tem dias em que uma pessoa só lá vai amalucando só para não se desorientar de vez...