quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Mia Couto escreve (para mim e) para ti

Quando terminei este post que, admito, me deu muita satisfação elaborar - lá está, isto do blog não tem aquela vertente comercial, digamos assim, é bem mais simples, se calhar um bocadinho tolo, tolo no sentido de por vezes pensar que raio de pessoa serei eu que despende tempo com algo que não lhe traz lucro algum? Então lembrei-me que na vida sabe bem, convém inclusive, ter uma gaveta disponível para fazer qualquer coisa por puro prazer. Prazer que, segundo o dicionário, nada mais é do que um sentimento agradável que alguma coisa faz nascer em nós.  E isto de (re)nascer é sempre um bom princípio.

Já sei conviver muito bem com dias de chuva abundante, voltei a fazer as pazes com a poesia, com o Natal mas, admito, que me enerva um bocadinho as listas intermináveis de presentes de Natal, por mim basta-me um livro de Mia Couto e o meu perfume 212 de Carolina Herrera. Ah, e uma travessa de cerâmica com tampa que possa ir ao forno, pronto, cozinhar ajuda-me a exorcizar, tranquiliza-me, cozinhar na companhia de música. Perfeito.

(acabei por misturar poesia com travessas com tampa, uma pessoa gosta de passear, caminhar à deriva, e entretanto perde-se por aí... também faz figuras tristes, só que essa parte não é para ninguém saber)


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti
criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti
dei voz, às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo
estava em nós

Nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos,
simplesmente porque 
era noite
e não dormíamos.

Eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos,
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.

(Mia Couto - Para ti)

(só porque hoje é feriado e nos feriados a malta pode rir mais descontraidamente, vamos lá ao CM)

Hoje, muito a custo, lá tive que arrastar até aqui a capa do jornal CM. É que me parece que Ricardo Araújo Pereira se livrou de boa quando Vale e Azevedo não optou pela carreira de humorista. Tinha ali concorrência à altura. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Talvez o problema nos dias que correm se deva ao facto de tudo romancear, de tudo heroicizar

Dou comigo, ultimamente, a ouvir as pessoas em modo slow motion - já sei, isto dos estrangeirismos tira do sério muita gente, só que tenho coisas bem mais sérias em que pensar, estrangeirismos não fazem parte do pacote de coisas sérias, empregar uma ou outra expressão em inglês não me parece grave desde que não se entre no campo do ridículo, do snobismo. Convivo com a língua inglesa e com a língua portuguesa desde que me lembro, misturam-se por vezes sem sequer eu dar por isso, talvez, também, consequência da profissão que abracei desde sempre. Não uso cá dessas coisas de preconceitos em misturar seja o que for, desde que bem doseado, aquilo só enriquece, e eu nada tenho contra a riqueza, ao contrário de muitos que acham que este mundo seria melhor se se mandasse fuzilar tudo quanto é gente rica, pensam eles que o mundo ficaria melhor, eu tenho uma leve impressão de que não ficaria. Tenho esta tendência de achar, se calhar mal, que o mundo ficaria melhor, bem mais justo, se deixassem de existir pessoas a viver em condições miseráveis. Não é "matar" os ricos, é dar a mão e elevar os mais pobres, esse parece-me ser o caminho da evolução, da dignidade que se quer. Isto de querer descer no sentido da igualdade, em vez de subir para tornar a igualdade um dia possível, não nos vai deixar sair da cepa torta, nunca (vou riscar a palavra nunca para manter a esperança acesa). Pessoalmente gosto bastante da expressão "para baixo todos os santos ajudam". Somos um país de santos que nunca mais acaba. Convém perceber que a palavra santo está bêbeda de ironia.

Em relação a romancear. Ora, não vamos muito mais longe e veja-se a situação de morrer um ditador e o discurso de muitos ser na onda de romancear o facto. Entretanto, como se não bastasse, ainda atiram para cima aquilo de heroicizar. Nesta altura do texto e só para rimar, falta-me o... ar. Nem sequer vou falar de Trump e de ter ouvido hoje de manhã que irá ser um bom Presidente para os Estados (desu)Unidos. Ah e tal, mas ele disse a propósito de Fidel que foi um "ditador brutal", pois disse, só que a ditadura veste-se de várias formas. E também muda de pele várias vezes por ano. Como as cobras. Odeio serpentinas. Odeio o Carnaval. Mas gosto de papelinhos de vários cores que tornam os nossos dias mais coloridos. Ups! Romanceei...

terça-feira, 29 de novembro de 2016

(Maria escreve carta ao pai Natal blogosférico)

Querido pai Natal blogosférico (blogosférico e não só), 

Espero que te encontres bem junto da mãe Natal e dos teus mamíferos ruminantes, mais conhecidos por renas. Também espero que tenhas feita uma dieta porque sabes que a obesidade abdominal pode colocar em risco o teu coração e, já sabes, que as criancinhas não conseguiriam compreender um Pai Natal sem coração, ou com um coração fraquinho só naquela de ter que carregar com uma barriga muito grande ao longo de vários trezentos e sessenta e cinco dias. Desculpa, se fui muito fria nisto de escrever que tens uma barriga muito grande e que com aquele cinto muito apertado pareces um chouriço mal amanhado prestes a rebentar, sabes que não pretendo ferir a tua susceptibilidade, só que as verdades precisam de ser ditas. Estás à vontade para me dizeres também verdades, se possível envia por carta manuscrita, com selos daqueles que se colam lá no canto superior direito ou esquerdo - conforme as ideologias de cada qual - para a minha caixa de correio que está lá fora à chuva como uma caixa de correio que se preze, é uma caixa de correio muito corajosa. digo-te. Não sei se irei responder, estou a ser verdadeira, tal como sei que não me irás responder, e sei que estás a ser verdadeiro. Somos uns verdadeiros nisto de não escrever.

Adiante que faz um frio que não se aguenta e tenho os dedos quase a ir para dentro. Para dentro das luvas, achei melhor explicar a parte do para dentro não vá alguém interpretar isto de maneira torta. O costume das pessoas tortas.

Sabes, pai Natal blogosférico, estou muito apreensiva e, até, chateada, com isto das pessoas que escrevem em blogs, uma grande maioria não escreve aquilo que gostaria de escrever, parece-me, posso estar errada, vai na volta até estou, mas tenho andado por aqui a ler blogs neste tempo em que não escrevi nadica de nada e, percebi, que muitos só escrevem para agradar às pessoas que os lêem, (devem ter medo de perder "amigos", seguidores e isso) não conseguem ter a coragem de escrever realmente o que lhes vai na traqueia, e isto, parecendo que não, mata blogs como se não houvesse amanhã. Para este Natal gostaria que os blogs fossem como árvores, que a morrer, morressem de pé. E calçados, já agora.

Recebe dois abraços apertados (um é para gastar já e o outro é para quando te sentires em baixo).
Maria, do blog que teima em amanhecer (a teimosa, portanto)



(isto é um exercício para te inspirares, 
podes começar mais devagarinho e beber água de vez em quando, 
adeus, sim, até para o ano)

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O mundo encantado de Valentine Rekunenko

Um mundo onde os livros representam o papel principal.
Um mundo de fantasia onde tudo é possível.


Na senda do continuar a não raciocinar bem (ou a recusar-me ir atrás do que os outros me querem vender)

Imagine-se um homem casado que todos os dias chega a casa e espanca a mulher. Umas vezes espanca-a porque o dia não lhe correu bem no trabalho e precisa de descarregar a raiva em alguém, se casou e existe um ser humano ali à mão, os casamentos também servem para estas coisas, toca de dar um murro e um pontapé na legítima que muitos gostam de chamar de esposa (eu não suporto o termo esposa/esposo, coisa que para o caso não tem importância alguma). Ah, agora sim - pensa - sinto-me mais aliviado, vou ali beber uma cerveja com os amigos para comemorar. E vai. Infelizmente também volta para no dia seguinte voltar a repetir a dose de espancamento na mulher. Hoje, sendo já o dia seguinte, o espancamento deve-se ao facto de no trânsito se ter chateado com um ser qualquer a quem chamou coisas impróprias. Sente-se irritado, a cara da mulher pode muito bem servir de saco de pancada para lhe aliviar a tensão que o trânsito lhe provocou. Já está, agora consegue respirar melhor, embora tenha partido o nariz à pessoa que lhe trata da roupa, lhe faz a comida, educa os filhos, dá comida ao cão, apanha as laranjas quando a laranjeira diz que é hora de o fazer. E ela faz, sempre sem reclamar, nem sequer reclama daquele a quem um dia disse sim em frente ao padre, sim, que o amaria para sempre e que nunca lhe seria infiel. Nem sequer foi necessário jurar que jamais o espancaria, ela sabe que quem ama não espanca, não está escrito em lado algum, não é preciso jurar no dia do casamento em frente ao padre, no entanto deixa-se espancar entre quatro paredes onde ninguém tem acesso ao amor dos outros. Ai o amor. Ai o espancamento associado ao amor. Ai.

No entanto este mesmo homem que espanca a mulher protegido pelas quatro paredes de uma casa branca e muito bem arranjada por fora, é do mais encantador, do mais simpático, do mais educado... na rua, lá fora onde não existem paredes e tudo se pode ver, até ajuda as vizinhas a carregar as compras para casa, dá-lhes boleia quando as vê ali a pingar na paragem de autocarro num dia de muita chuva, tem sempre uma palavra amável, de consolo, de força para com os outros, mesmo assim chega no final do dia a casa e volta a espancar a mulher, parece que a mulher lhe perguntou o porquê de o ver a falar uma hora com a dona Felismina à esquina do café, e ele, sendo um homem, não gostou de ser questionado lá nas coisas dele, portanto toca de dar dois murros na mulher para aprender a não o incomodar numa hora em que só quer paz e sossego. 

Este também é o homem que no Natal de cada ano que cai em cima de quem os apanhar, compra comida para dar aos "pobrezinhos". E que faz festas aos cães dos outros e nunca ao dele, ao dele nem sequer se lembra de lhe dar água e alguma comida, a sorte é que o cão pode sempre contar com aquela que mesmo sendo espancada nunca o abandona e não lhe dá um osso só no Natal, nem água só no Verão quando o calor é insuportável. Ninguém sabe que ela o faz, lá está, as quatro paredes não permitem que ninguém saiba de coisas que não interessam a ninguém.

Se perguntarem aos que não vivem com ele dentro de quatro paredes o que pensam deste homem, quase toda a gente dirá que é a melhor pessoa que conhecem. Um santo, mesmo daqueles que se põem lá no altar. Só lhe falta as asinhas para voar em direcção ao azul do céu. 

E por falar em céu, ou inferno, quando este homem morrer pergunto-me o que irão escrever na lápide.
Talvez um: aqui jaz o homem mais encantador que alguma vez existiu... 
Talvez um: aqui jaz o homem mais cruel que alguma vez existiu... 

domingo, 27 de novembro de 2016

(neste Natal só preciso de uns óculos que me permitam ver ao longe aquilo que me obrigam ver ao perto)

Estou mudada. É um facto. Neste momento sinto-me como se me tivessem enfiado dentro de um grande pacote de chá gelado, tivessem carregado no botão que diz centrifugar e, me tivessem obrigado a ouvir um som incomodativo em modo ladainha uma e outra vez do género: já "mudasti" ou demora muito?...  Gostaria que ainda demorasse mais um pouco, apesar de tudo sinto-me muito mais protegida dentro de um pacote de chá gelado, ali às voltas, do que neste mundo de gente que deve ter comido algo muito estragado. Passo a explicar porquê:

Há dois dias ouvi alguém que dizia ser social democrata falar lá na caixinha que dizem ser mágica e cada vez mais me parece ser mágica a fabricar estupidez que, sentia ternura por uma pessoa que tem, penso eu, um historial de ditador. Senti uma dor aguda no meu neurónio que ainda respira, quando o substantivo ternura é associado a um déspota. Dei comigo a pensar - e ó se penso mal - que se calhar era melhor rever isto das pessoas que possuem lá dentro de si bondade, se realmente aquilo é mesmo bondade caseira ou bondade feita a martelo. Ou se as pessoas que possuem lá dentro de si maldade, se aquilo é uma espécie de maldadezinha queridinha e fofinha que não faz mal a ninguém. Nunca na minha vida me senti tão confusa como nestes últimos dias. Tivesse eu filhos pequenos e não saberia o que responder se me perguntassem: mumy (mumy é um termo mais ternurento) quando eu for grande quero ser ditador, não tem mal, pois não?!... Vou ali tentar ver como é que lhe vou explicar a diferença entre um estado democrático e um estado ditatorial.


(eu avisei que raciocinava mal)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Volto apenas para deixar uma grande vénia a Leonard Cohen (um dos muito grandes que também partiu para sempre)

Sempre que alguém, grande, morre, é como se um bocadinho do mundo também morresse naquele exacto momento, e é também nesse exacto momento que alguma pobreza se instala na alma da gente. Da gente que ainda se consegue arrepiar ao ouvir grandes vozes, grandes letras, grandes melodias. Enquanto a malta se emocionar ao ouvir uma canção como esta, a Hallelujah, é sinal que ainda existe esperança. É bom acreditar nisto de existir esperança...


Disse Leonard Cohen um dia que tencionava "viver para sempre", viverá com certeza para sempre na memória de quem acha, de quem acredita, que só os que sabem cantar o devem fazer. E este senhor sabia fazê-lo como ninguém. O mundo está cheio de ruído, não precisamos de mais ruído, precisamos apenas de gente que cante, que saiba interpretar, que nos emocione. Precisamos de gente verdadeira. De forma quase desesperada. Eu pelo menos preciso para conseguir respirar melhor.

Resta dizer que ouvi pela primeira vez Cohen numa idade em que se calhar é suposto ouvir outro género de música, e ouvi porque os meus pais costumavam ouvir Cohen. Existem coisas boas que passam de geração para geração. Esta foi sem dúvida uma delas.